Documentarista brasileiro acompanha jornada de imigrantes rumo aos EUA
- Por Alysson Oliveira
- 17/07/2024
- Tempo de leitura 3 minutos
Lilian e sua filha em cena do documentário (Crédito: Divulgação)
Para realizar o documentário Lo que queda en el camino, o cineasta brasileiro Danilo do Carmo e o alemão Jakob Krese, junto com o diretor de fotografia também alemão Arne Büttner, moraram numa barraca durante dois meses,. Isso porque acompanhavam uma caravana de imigrantes guatemaltecos que rumavam para os EUA.
“A realização documental independente é um processo muito árduo. Trabalhar em conjunto ajuda muito a ter alguém para apoiar um ao outro nos momentos difíceis ou poder dialogar quando surgem questões e dúvidas fundamentais de narrativas, de estética ou mesmo de produção. Acredito que desenvolvemos um nível muito profundo de intimidade entre nós e com a caravana, que se espelha na grande unidade que sinto no projeto”, comenta o diretor brasileiro em entrevista ao Cineweb.
O longa acompanha Lilian, uma mãe solo, e suas quatro crianças nessa viagem em busca de uma vida melhor. Composto de um olhar bastante intimista, o documentário dá voz a ela e outras pessoas na mesma situação, cujas histórias de vida vão sendo reveladas aos poucos.
Danilo conta que quando conheceram Lilian, os dois cineastas já eram amigos de outras pessoas da caravana, o que, inclusive, deu a ela mais segurança para participar do filme e deixar ser filmada. “Eles perceberam que nós não éramos como os repórteres que se aproximavam da caravana, extraíam o que precisavam e voltavam para
suas casas ou iam dormir em hotéis confortáveis. Ainda que tenha sido por uma opção e não por uma necessidade - como era para eles -, nós resolvemos estar sempre junto da caravana, dormir com ela, nos deslocar com ela. Uma jornada como essa marca muito a vida de quem a vive. Enfrentar as dificuldades do caminho juntos cria laços profundos, tanto
a nível objetivo com as pessoas,
como subjetivo, do nosso modo de ver aquela experiência. Foi algo fundamental para que pudéssemos contar essa história dessa forma, desde dentro da caravana”, explica.
A naturalidade das quatro crianças diante da câmera e com a equipe chamou a atenção dos cineastas, assim como a relação delas com as pessoas da caravana. “Lílian, por outro lado, tinha uma serenidade muito profunda que nos cativou desde o início e que era indício de que poderíamos acompanhar essa jornada interior que vai se revelando ao longo do filme.”
As 200 horas de material filmado foram montadas por Sofia A. Machado e Arne Büttner, que, segundo Danilo, trouxeram um olhar renovado para a história. “Juntos conseguiram construíram um filme em um compasso que dá espaço para Lilian crescer pouco a pouco no filme até atingir essa estatura gigantesca que sinto no final, uma dimensão que vem menos do heroísmo da travessia e mais da intimidade que construímos com ela e seus filhos durante a narrativa.”
Danilo aponta também que a questão retratada tem ressonância com o Brasil também. “Infelizmente, a imigração tanto no Brasil quanto nos Estado Unidos é extremamente atual e que só deve ganhar mais força com o crescimento das crises políticas ou climáticas. No entanto, o que reparamos desde a realização do filme é que as pessoas sentem que o problema do imigrante sempre diz respeito ao outro, ao estrangeiro que vem trazendo essa questão incômoda. O imigrante é uma figura sem rosto, muitas vezes como massa. Nosso esforço é justamente dar uma cara à imigração, mostrar que ela é feita por pessoas como nós e, como nós, elas estão buscando mais oportunidades para terem acesso a melhores condições de vida, de saúde, de segurança, tudo aquilo que lhes possibilite serem mais felizes.”
