Bia Lessa desafia o público em sua adaptação de “Grande Sertão: Veredas”
- Por Alysson Oliveira
- 13/08/2024
- Tempo de leitura 4 minutos
Bia Lessa dirigindo O Diabo na rua no meio do redemunho (Crédito: Divulgação)
Conhecida por seu trabalho sofisticado no teatro, Bia Lessa faz de O diabo na rua no meio do redemunho um filme instigante e também desafiador, partindo do romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e do espetáculo que ela mesma montou em 2017. Mas ressalta, em entrevista ao Cineweb, que o longa não é um documentário sobre a peça ou teatro filmado.
“O filme nasce de outro desejo, de levar ao cinema aquilo que ele me deu para fazer teatro. Na concepção da peça, eu usei muito cinema, e no longa queria trazer ao cinema o teatro”, diz.
Protagonizado por Caio Blat, Luísa Arraes e Luiza Lemmertz, o longa se vale das ferramentas do cinema e do teatro para transpor o romance de Rosa, publicado em 1956. Como explica a diretora, a obra do escritor é marcada pela busca da transformação e experimentação com a linguagem, e seu filme não poderia ser diferente. Vale lembrar também que no teatro Lessa é considerada uma das mais inovadoras encenadoras no Brasil, sempre buscando a superação das amarras da linguagem.
“Não vejo uma separação entre cinema, teatro e literatura. Como não existem mais separações no homem contemporâneo, tudo está interligado. Como refletir sobre o presente, se nos mantivermos amarrados a modelos do passado? Quando faço teatro, por exemplo, não vou estudar teatro, vou estudar arquitetura, música.”
Elenco do filme no galpão onde foi rodado sem cenários (Crédito: Divulgação)
O filme foi rodado em apenas 17 dias, num galpão em São Paulo. O cenário é apenas um ambiente pintado de preto, e os personagens também se vestem apenas de preto. O diabo na rua no meio do redemunho se mostra uma adaptação bastante diferente, em termos de encenação e narrativa, de outra recente, Grande Sertão, de Guel Arraes, que passou pelos cinemas há pouco tempo. Embora os dois filmes tragam Blat e Luísa no elenco – ela, em papeis diferentes em cada um –, são duas leituras entre as várias possíveis do romance clássico.
Lessa quebra, entre outras coisas, as regras do realismo do cinema. Há poucos objetos em cena, apenas o estritamente necessário, e não há cenários. O elenco se transforma em animais e até mesmo em um rio quando é preciso. “O filme Dogville tem um pouco disso, mas ainda há as marcações das plantas das casas no chão. Eu queria radicalizar mais. E isso é também um convite ao público para entrar no filme, fazer dele sua experiência também, imaginando o que é sugerido.”
Para levar Rosa para o cinema, a cineasta se cercou de uma equipe bastante experiente, como o veterano diretor de fotografia José Roberto Eliezer e os montadores Renata Catharino e Sérgio Mekler.
“Com o Eliezer, no começo, era uma briga constante, pois ele trabalha num cinema diferente do que eu costumo fazer. A gente tinha discussões diárias, pois eu queria uma coisa, ele dizia que não podia, o que ele fazia não me agradava. Até que fomos nos encontrando. E no final ele me disse que eu estava fazendo ele quebrar paradigmas”, diverte-se, recordando, a diretora.
Apesar do filme partir da peça e manter o mesmo elenco, ela explica que o roteiro é outro, foi totalmente escrito para o cinema (“no filme, a relação entre Riobaldo e Diadorim é mais forte”), assim como a construção de cenas. “Eu fazia storyboards diários, após o fim das filmagens, planejando a próxima diária, adaptando ou modificando conforme as necessidades do que já fora rodado.”
Ela define o trabalho com a equipe cinema como “muito separado”, cada um em sua função, porém o set de seu longa ficou parecendo teatro. “Aos poucos, todos estavam envolvidos em todas as funções. O elenco precisava fazer um preparo físico antes de filmar porque era tudo muito intenso e exigente, e, por isso, chegava uma hora mais cedo. No terceiro dia, a equipe técnica também já quis participar desse aquecimento”.
