05/06/2026

Douglas Soares satiriza a obsessão pela fama no premiado “Papagaios”



Ruan Aguiar e Gero Camilo em cena de Papagaios (Crédito: Divulgação)

Quando criança, no subúrbio do Rio de Janeiro, Douglas Soares via na televisão pessoas que conhecia ali do bairro. Eles apareciam nos mais diversos tipos de reportagens, sempre em algum lugar da tela, de preferência no centro, próximo ao repórter para que não fossem cortados do quadro. Eram os “papagaios de pirata”.

“A gente os via como um tipo de celebridade local”, conta em entrevista ao Cineweb o hoje cineasta. Seu primeiro longa de ficção é exatamente sobre esse tipo de pessoa em busca de um tipo de fama. Papagaios estreou no Festival de Gramado do ano passado, de onde saiu com os Kikitos de Melhor Ator, para Gero Camilo, direção de arte, som, e Melhor Filme para o Júri Popular. O filme chega aos cinemas brasileiros nessa quinta (23/04).

Soares recorda que, num determinado momento, fez um post numa rede social imaginando um mundo no qual esses papagaios de pirata produziam a notícia para aparecer na televisão. O texto repercutiu e chegou ao ator Humberto Carrão, que gostou da ideia. Juntos escreveram o argumento do filme, que depois, o diretor transformou em roteiro.

Apesar de a história se situar em um passado recente, ressalta o cineasta, não há marcação de tempo clara. É um momento, por exemplo, em que não havia ainda smartphones, por isso os “papagaios” têm um esquema peculiar para se comunicar e ficar sabendo onde estão a notícia e uma equipe de televisão para correrem para lá.

“O que une meus curtas, e agora o longa, é uma certa nostalgia, para falar de hoje, utilizando o passado. Eu tenho uma relação afetiva com os temas, e os papagaios de pirata estão no meu passado. O filme se passa num momento de transição entre o aparelho de televisão de tubo e de led, entre os celulares mais simples que dobravam e os smartphones. É um momento de confusão, de ambiguidade.”

Para ele, os influencers de hoje são os novos papagaios. “As redes sociais tiraram o protagonismo dos antigos papagaios, mas hoje em dia, ainda alguns resistem e usam o jornal ao vivo.”

Douglas Soares, diretor e roteirista de Papagaios (Crédito: Iuri Sorokin/Divulgação)

Desde o início do projeto, para o protagonista do longa, Tunico, Soares pensou em Gero Camilo. Ele é o papagaio veterano, que tem uma longa história na, digamos, profissão. Numa das primeiras cenas, ele dá entrevista à apresentadora Claudete Troiano, vivendo a si mesma mesma na tela, e conta sobre suas experiências. O ponto de mudança na vida do personagem é a chegada de Beto, um papagaio novato e com métodos peculiares.

“A princípio, o Carrão faria o Beto, daí até veio o nome do personagem. Mas, como demorou para conseguirmos o financiamento, a idade dele não condizia com o personagem. O Ruan Aguiar ficou com o personagem. Na época, ele fazia a novela Fuzuê, em que interpretava um cara super verborrágico. No filme, é o oposto, ele fala pouco, tudo é dito muito pelo olhar. Ele contou, e tem menos de vinte falas”.

O veterano Camilo e o estreante em cinema Aguiar participaram de muita preparação, e inclusive deram sugestões ao diretor e roteirista. “Reescrevi muito o roteiro a partir do que eles diziam. As falas precisam caber na boca dos atores.”

Para dar maior veracidade ao filme, além de Troiano, Babi Xavier faz uma apresentadora de telejornal, e o cantor e compositor Leo Jaime aparece como uma versão de si mesmo, que será homenageado por uma escola de samba.

“Ele é uma figura muito famosa, tem uma relação curiosa com a televisão e conhece muito a cultura pop. As músicas dele falam muito disso e, além do mais, precisava de um cantor famoso o suficiente para ser enredo de escola de samba.”

Soares explica que com esse longa está satirizando e criticando o presente, por isso era preciso ter laços com a realidade. “No fundo, o filme toca em questões como fake news, ao falar do que é verdade e do que é uma construção da verdade. A gente mostra a importância de nos informar por uma boa fonte, não apenas na política, mas na vida também.”