Carine Wallauer traz a sensorialidade do Copan em documentário premiado
- Por Alysson Oliveira
- 25/05/2026
- Tempo de leitura 4 minutos
Janelas do Copan, no documentário premiado de Carine Wallauer (Crédito: Divulgação)
Carine Wallauer é uma cineasta que acredita no acaso. O que não quer dizer que fique esperando que tudo aconteça sozinho – pelo contrário. No domingo, 30 de outubro de 2022, quando aconteceria o segundo turno das eleições daquele ano, ela tinha uma filmagem no apartamento de um grupo de bolsonaristas, no edifício Copan (SP), mas diante da derrota iminente, eles cancelaram as filmagens. Ela, no entanto, não se deixou abalar, e procurou aqueles que sabem tudo sobre o prédio: os porteiros.
“Eles foram fundamentais para realizar o filme, me ajudando com muitas coisas, e topando estar diante da câmera,” conta a diretora do documentário Copan, grande vencedor do É Tudo Verdade do ano passado. Mas a relação de Wallauer com eles é mais antiga: começou quando ela se mudou para São Paulo, em 2017, e conseguiu um apartamento no Copan. “Como eu não tinha parentes na cidade, conhecia pouca gente, e as pessoas que trabalhavam lá se tornaram minha família”.
Copan, que chega ao cinemas nesta quinta (28/5), é um documentário que surpreende. Muita gente pode esperar que seja sobre o prédio ou algo como uma espécie de Edifício Master, sobre moradores, mas Wallauer tem outros interesses. É um filme sensorial que pede seu tempo próprio, e é, ao mesmo tempo, o retrato de um país cindido num momento de enorme tensão. “Era o ano da eleição presidencial e eu já tinha gravada uma eleição de síndico, feita durante a pandemia. Achei que as duas coisas estavam muito próximas, e que o filme deveria entrar nesse tema.”
Funcionário do Copan tocando violino, no filme (Crédito: Divulgação)
Mas, obviamente, o longa não se resume a isso. Wallauer explica que na edição, com Eva Randolph, construiu uma espécie de sinfonia da qual os funcionários do prédio do número 200 da Avenida Ipiranga são o centro. “Eu queria trazer, no filme, o que o Copan representa para mim, e mostrar como seus funcionários são complexos. Mostrar que eles pesam na sociedade em que vivemos, o que pensam sobre política.”
Ela conta que os filmes costumam entrevistar sempre as mesmas pessoas, e raramente os trabalhadores, e sabia que eles têm muito a acrescentar, que vários têm aspirações artísticas, inclusive. “Eu penso muito nisso, pois venho de uma família da classe trabalhadora, e foi muito difícil aceitarem que eu trabalharia com arte. Eu tinha muito medo de não conseguir,” confessa a cineasta, que também é fotógrafa e diretora de fotografia, e cujos trabalhos artístico integram a coleção de Joaquim Paiva e os acervos de fotografia do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), MAC Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul e
o acervo impresso do Instituto Moreira Salles (IMS).
Com essas credenciais, é de se esperar que visualmente Copan seja um filme, no mínimo, interessante. Mas é mais do que isso, é impressionante em sua habilidade em se transformar num jogo impressionista e sensorial de um gigante no centro da cidade de São Paulo. As imagens noturnas do prédio, no meio do mar de concreto e luzes, por exemplo, têm um ar de ficção científica.
Wallauer, com o troféu do É Tudo Verdade (Crédito: Divulgação)
Outro elemento que colabora com essa sensação é a trilha sonora do longa, que conta com o DJ KL Jay, outro morador do Copan, e que também aparece no filme. Ela explica que havia tentado contato com ele diversas vezes, e nada dava certo. Quem veio, novamente, salvá-la foram os porteiros. “Eles conversaram com o ele, falaram que eu era legal, e estava fazendo um filme sobre o prédio. Então ele topou, e gravei com ele no apartamento dele. Depois criei coragem, e pedi se ele poderia fazer a trilha.”
Wallauer também assina a fotografia do longa, e, por esse trabalho, ganhou recentemente o prêmio concedido pela ABC, a Associação Brasileira de Fotografia, o mais importante para a categoria. “Queria poder ser eu no filme, ali tem muito da minha energia. Tudo o que tem no filme vem da sensação que eu tinha quando morava no Copan.”
