O cinema de um tempo particular de Eduardo Nunes
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- 16/06/2026
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Sharon Cho e Bárbara Luz, em cena de Cindo da Tarde (Crédito: Divulgação)
“Pelas minhas contas, devo fazer ainda uns três longas na vida,” brinca o cineasta niteroiense Eduardo Nunes, que lança nessa quinta (18/06) seu terceiro longa, Cinco da Tarde. Conhecido por seu cinema muito particular, ele costuma levar, em média, seis anos entre um trabalho e outro. “Isso não é uma escolha minha, não. São as circunstâncias que levam a isso.”
Nunes explica que acredita no cinema feito para ser visto numa tela de cinema, numa sala escura, com imersão total. “O público mais jovem é alfabetizado, de forma geral,
com um tipo de tela muito específica: pequena e vertical. E é preciso reaprender como ver cinema.”
Cinco da Tarde é, como os outros longas do diretor, uma experiência que pede comprometimento, mas tem muito a dar em troca. O longa acompanha duas jovens adultas nos idos da pandemia e do isolamento social. Anabel (Bárbara Luz) acaba de perder a avó, de quem era muito próxima. No mesmo prédio, mora Meiko (Sharon Cho), da mesma idade e muito tímida. Apesar de já terem estudado juntas, nunca foram amigas, mas, nesse momento e diante das necessidades, surgem novos laços que as unem.
Nunes já havia trabalhado com Luz, em seu longa anterior, Unicórnio (2017), e escreveu a personagem para a jovem atriz, que tem em seu currículo Ainda estou aqui e O Silêncio de Eva, em que atua ao lado dos pais, os atores Inês Peixoto e Eduardo Moreira, do grupo Galpão. “Ela não queria ser atriz. Fez, quase por acaso, o teste para Unicórnio, passou, e depois adorou a experiência. O filme foi para Berlim e ela, adolescente, gostou de tudo, e me ligou dizendo que seria atriz, ‘mas só dos seus filmes’ Eu ri e disse para ela, você vai trabalhar muito pouco. Felizmente, ela desistiu da exclusividade,” brinca o cineasta.
Ao lado dela, Cho se destaca no papel da descendente de sul-coreanos, algo que a atriz compartilha com a personagem. Conhecida pela série Além do Guarda-Roupa, ela estreia no cinema com uma personagem que faz contraponto à de Luz. “O longa foi rodado na ordem da narrativa. As duas atrizes não se conheciam e, como Anabel e Mieko, foram se conhecendo durante o processo.”
Nunes, em set de filmagem (Crédito: Divulgação)
Formado pela Universidade Federal Fluminense, Nunes estreou na direção de longas com Sudoeste, em 2011. Protagonizado por Simone Spoladore, este é um filme marcado não apenas pelo apuro técnico, mas também pela poesia visual numa fotografia em preto e branco. Como viria a ser comum em seus longas, o tempo da narrativa é dilatado e particular.
“No cinema, acredito no tempo da contemplação, algo que ajuda o cinema a se tornar uma experiência social numa sala. Sei que não é fácil para uma parcela do público, desde meu primeiro curta, Sopro [1994]. Quando foi exibido num festival, com menos de 10 minutos metade do público saiu da sala. O filme tem 22 minutos, fiquei aflito pensando se alguém ficaria até o fim,” conta agora rindo e seguro da maneira como trabalha a passagem do tempo nas narrativas.
Cinco da Tarde nasceu como um filme sobre o luto, mas veio a pandemia, e ele teve que mudar muitas coisas. Para poder financiar o longa, uma coprodução entre Brasil e Portugal, Nunes contou com o dinheiro vindo de um edital de Niterói para filmes de baixo orçamento. Tudo foi feito na cidade onde o cineasta nasceu e mora até hoje, em lugares que lhe são caros emocionalmente. “Eu frequentei a praça e a igreja que aparecem em cena. É o meu filme mais pessoal.”
Para ele, o longa é a imagem de um luto coletivo pelo qual o país passou durante a pandemia. Ele explica que seu pai morreu há bastante tempo, por isso não tinha uma lembrança muito forte de um luto, mas sua mãe, que aparece numa cena, morreu cinco meses depois da filmagem – ela nem chegou a ver o longa pronto. “Quando eu vi o filme, depois de tudo isso, compreendi que falava de coisas que nem eu sabia sobre o luto.”
Agora, sem precisar de outros seis anos, Nunes acabou de filmar O tempo da delicadeza, seu novo longa, que é protagonizado por Carol Duarte, de A vida invisível. O filme está no processo de pós-produção e deve estrear em algum festival internacional no próximo ano. Novamente, uma história com uma protagonista feminina. “Eu brinco que meu último filme vai ter um monte de personagens, para eu colocar todas as atrizes que já trabalharam comigo. Vai ser algo tipo do [Robert] Altman, mas com umas seis horas,” diverte-se imaginando.
