30/06/2026

Dandara Ferreira resgata trauma coletivo em documentário sobre a CPI da COVID-19

A CPI da COVID-19, registrada em Anatomia do Caos (Crédito: Divulgação)

Em abril de 2021, quando foi criada a CPI da COVID-19, a cineasta Dandara Ferreira sentiu que era preciso fazer um registro cinematográfico do momento. “Mas como? A vacinação tinha começado há pouco. Era um risco pegar uma equipe, levar para Brasília, hospedar num hotel. Então, o jeito foi ir sozinha. Meu pai mora lá, então eu tinha onde ficar com segurança”, recorda em entrevista ao Cineweb.

O resultado dessa investida é o longa Anatomia do caos. No documentário, feito enquanto a CPI acontecia, Ferreira acompanha de perto e resgata discussões, debates e bate-bocas que aconteceram no Senado em torno da investigação sobre as ações e omissões do governo de Jair Bolsonaro em relação à pandemia.

“Eu fui, literalmente, com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, e fiz tudo pois estava sozinha, da fotografia ao som, e filmava de tudo, sem saber o que sairia dali. Como fui filmando sem anotar o que eram as imagens, foi um grande trabalho montar o filme”.

O trabalho de montagem começou antes da mesmo da montagem propriamente dita. Todas as filmagens foram vistas e catalogadas, e aí entrou a montadora Lara Beck, com quem Ferreira fez uma primeira versão. Depois, entrou o roteirista Élcio Verçosa Filho, que trabalhou junto com a diretora, e, por fim, no começo de 2026, chegou Renato Sircilli.

“Era preciso alguém de fora, com um novo olhar sobre o material, para lapidar o filme. O que guia a narrativa de Anatomia do Caos é a CPI, pois, a partir dela, queremos compreender a responsabilidade de Bolsonaro no que aconteceu com o país.”

Dandara Ferreira, em Brasília, onde filmou Anatomia do Caos (Crédito: Roberto Stuckert/Divulgação)

Diretora, também de ficções, como
Meu nome é Gal, Ferreira, confessa que não foi fácil rever as imagens da CPI e reviver os anos de pandemia, que para ela, “ainda é um trauma coletivo que ainda não conseguimos resolver.”

Ela confessa, no entanto, que o maior desafio de Anatomia do caos é levar o filme ao público que não se alinha com sua visão crítica àquele momento e a atuação de Bolsonaro.

“Eu sei que a extrema-direita não vai ver o filme, eles nem se permitiriam a isso, especialmente pelo viés crítico. A ideia é chegar a outra parcela da população que não concorda com nenhum campo.”

Seu objetivo, com o documentário, é que a pandemia “seja lembrada não apenas como uma crise sanitária, mas também como um acontecimento político, social e humano, que transformou o país.”

Ela aponta que, além disso, Anatomia do caos fica como um documento daquele momento, não apenas da CPI. “Creio que, o futuro, quando as pessoas quiserem entender o que aconteceu no país, o filme vai ter seu lugar histórico, para se compreender o papel de cada um, e como foi viver um momento como a pandemia num governo negacionista.”