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A hora e a vez do multiverso
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 09/03/2023
- Tempo de leitura 5 minutos

Da extravagância pós-moderna de Tudo em todo lugar ao mesmo tempo(esquerda) ao cerebralismo questionador de Tár (direita), a dezena de filmes indicados ao Oscar na categoria principal fazem uma espécie de radiografia do presente – o que não é novidade. Mas a questão é como eles mostram esse mundo, e que têm a dizer.
Ser indicado ao Oscar, mais do que concorrer ao prêmio, é entrar para a posteridade – mas não é um ato contínuo, haja vista vencedores dos quais quase ninguém se lembra (Crash – No limite) e esnobados reverenciados até hoje (Um corpo que cai). Porém, de qualquer forma, a escolha dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas mandam um recado com suas escolhas.
Talvez permaneça até hoje uma mitologia de que filme que é indicado ao Oscar é sinônimo de qualidade (em especial artística) – o que não é bem verdade. Como é o caso, por exemplo, de Top Gun: Maverick neste ano. Longe de ser um filme ruim, pelo contrário, em se tratando de blockbuster, é um dos melhores do ano passado. Mas é pouco provável que alguém o colocaria num pedestal de Grande Arte. Porém, depois de mais de dois anos de pandemia, quando estreou em meados de 2022,
tornou-se o maior sucesso do ano passado – sendo ultrapassado apenas por Avatar: O caminho da água, que estreou em dezembro e foi indicado também como Melhor Filme. Esse desempenho nas bilheterias certamente pesa dentro da indústria do cinema.
tornou-se o maior sucesso do ano passado – sendo ultrapassado apenas por Avatar: O caminho da água, que estreou em dezembro e foi indicado também como Melhor Filme. Esse desempenho nas bilheterias certamente pesa dentro da indústria do cinema.
Tudo em todo lugar ao mesmo tempo, o favorito ao Oscar principal, também é, ao seu modo, um sucesso de bilheteria para um filme de orçamento modesto e independente – o mais rentável da produtora e distribuidora A24. A boa acolhida do público é um reflexo de como as pessoas compraram bem a trama de multiverso dos diretores e roteiristas Daniel Kwan e Daniel Scheinert. Mas o que conta mesmo para o seu favoritismo é ter conquistado as principais premiações dos sindicatos das principais categorias profissionais, dos produtores (em que venceu melhor filme), diretores, roteiristas (roteiro original) e atores (melhor elenco e prêmios para Michelle Yeoh e Jamie Lee Curtis). Ao mesmo tempo, na categoria há títulos que passaram quase despercebidos do público – embora não lhe faltem qualidades, caso de Entre Mulheres, outro drama a tocar em temas bastante contemporâneos. Ao centro, um grupo de mulheres de uma fechada comunidade cristã organizam-se, pela primeira vez, para reagir à dominação e aos abusos promovidos pelos homens. O filme de Sarah Polley tem duas indicações, filme e roteiro adaptado e também chega com vantagens na segunda, com sua vitória na categoria no Sindicato dos Roteiristas.
Outro fator que tem pesado no Oscar nos últimos anos são os festivais estrangeiros de grande porte. Os vencedores de Cannes – Triângulo da Tristeza – e Veneza – o documentário All the beauty and bloodshed – também concorrem em categorias de destaque. O primeiro em filme, diretor e roteiro, ambos assinados por Ruben Östlund; e o segundo, dirigido por Laura Poitras, concorre como documentário e é o favorito.
Aliás, a categoria de documentários, assim como filme estrangeiro, tem alguns dos melhores indicados do ano. Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft, de Sara Dosa, talvez seja o único páreo para All the beauty.... Já entre os longas internacionais, o alemão Nada de Novo no Front, de Edward Berger, é o favorito, concorrendo inclusive como Melhor Filme. Mas não seria nenhuma injustiça, muito pelo contrário, se o prêmio fosse destinado ao polonês Eo, de Jerzy Skolimowski, ou o belga Close, de Lukas Dhont – ambos laureados em Cannes.
Entre as surpresas do Oscar estão a ausência de Aftersun, de Charlotte Wells, em mais categorias – concorre apenas em Melhor Ator, para Paul Mescal – e Não, Não Olhe!, de Jordan Peele, completamente ignorado. Por outro lado, as surpresas das indicações incluem a música de Diane Warren – que já recebeu um Oscar honorário em cerimônia em novembro do ano passado – pelo filme Tell it like a Woman, que a maioria das pessoas só descobriu existir quando foram anunciadas as indicações. Outro inesperado, mas explicável dada a propensão dos votantes para escolher filmes fracos e fofos, é o curta documental indiano Como Cuidar de um Bebê Elefante – produção da Netflix.
Filmes que dispararam no começo da época das premiações, como Os Fabelmans, de Steven Spielberg, ganhador do Globo de Ouro de filme dramático, e Os Banshees de Inisherin, de Martin McDonagh, que deu o prêmio de melhor ator em Veneza e o Globo de Ouro para Colin Farrell, parecem ter perdido um pouco do fôlego – o que só faz o prêmio de Tudo em todo lugar ao mesmo tempo ser mais dado como certo, assim como o de melhor ator para Brendan Fraser, outro vencedor no SAG e que assim deve marcar sua ressurreição artística em grande estilo no melodrama A Baleia. Mas, como se sabe, as coisas podem mudar na última hora em se tratando de Oscar – até a entrega do envelope incorreto para os apresentadores.
