Relacionadas
Walter Salles resgata o Brasil com a vitória de "Ainda Estou Aqui"
- Por Neusa Barbosa
- 03/03/2025
- Tempo de leitura 6 minutos
Afinal, chegou o Oscar tão esperado para o Brasil: Walter Salles conquistou a estatueta de melhor filme internacional com Ainda Estou Aqui, um filme que tem feito uma trajetória nada menos do que brilhante desde o seu lançamento mundial no Festival de Veneza, em setembro de 2024. E não podia chegar em melhor data do que num domingo de Carnaval.
Adaptado a partir do dilacerante livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva sobre sua mãe, uma heroína brasileira, Eunice Paiva, o filme faz justiça a uma trágica história, trazendo à luz a partir de uma família o horror da ditadura civil-militar que assombrou o Brasil entre 1964 e 1985. Rubens Paiva, o ex-deputado torturado, assassinado e desaparecido em 1971, é um dos muitos mortos sem sepultura daquele regime, cujos crimes ainda há quem insista em minimizar ou tentar apagar. O prêmio para o filme é mais um degrau para que o esquecimento não seja possível, e que a reabertura judicial do caso possa prosseguir no STF. Tomara.
A lamentar, claro, a não-premiação de Fernanda Torres, que construiu com uma habilidade notável a figura de Eunice, num desempenho que tem ganho admiradores dentro e fora do País, com todos os méritos. Essa repercussão da própria figura de Fernandinha, que nós conhecemos tão bem e o mundo, a partir de agora, também, é coisa que não se apaga e não depende só de premiações internacionais - embora ela tenha vencido um inédito Globo de Ouro. O sucesso do filme nos cinemas, dentro e fora do Brasil, é testemunha disso.
Repercussão social e política
Ainda Estou Aqui é também um fenômeno artístico, social, político e afetivo, um reencontro do País consigo mesmo, com o seu melhor e o seu pior, uma encarada de frente à própria verdade que nos leva adiante e nos torna melhores, pela sensibilidade e a inteligência.
Por conta de ter conseguido estabelecer esse diálogo tanto com o passado como com o próprio tempo, em que neofascistas procuram retornar, Ainda Estou Aqui esboça sua vocação de tornar-se um marco na história do País, capaz de levar à descoberta de outras histórias, tão necessárias, para que o Brasil procure o melhor de si para amadurecer e seguir adiante. E isso se tornou possível também pela opção de personalizar esta história numa família, em torno desta mãe-coragem tão especial que foi Eunice Paiva. O filtro da resistência sem abrir mão do afeto permitiu que o filme vencesse resistências e furasse algumas bolhas, renitentes para assuntos deste viés. Ponto para a arte que rompe fronteiras, sendo a maior delas que um filme pode atravessar é atingir as pessoas e atuar sobre a realidade.
Analisando a 97ª edição como um todo, pode-se notar que os comentários políticos mais densos e poderosos estavam inseridos em geral em obras estrangeiras. É o caso do filme Ainda Estou Aqui
e do documentário vencedor na categoria, o palestino Sem Chão, dirigido por jovens israelenses e palestinos e que registra a resistência contra o assédio cruel do exército e de colonos de Israel contra uma aldeia na Cisjordânia. A bem da verdade, até a animação vencedora Flow, de Gints Gilbalodis, um inédito premiado da Letônia, é mais político em seu conteúdo do que o campeão da noite, Anora, de Sean Baker, ao imaginar um mundo futuro sem homens em que animais descobrem a cooperação entre espécies como uma forma de sobrevivência.
Cinema independente
Anora, de Sean Baker, conquistou 5 de suas 6 indicações, especialmente as mais cobiçadas: filme, direção, atriz (Mikey Madison, a mais jovem das indicadas, derrotando nossa impecável Fernanda Torres), roteiro original e montagem. Uma consagração do chamado “cinema independente” norte-americano, por ser um filme produzido fora dos grandes estúdios, que costumavam dominar esta premiação.
Pensando bem, Anora, em outros tempos, com seu retrato ligeiro de uma jovem trabalhadora do sexo que se envolve com um herdeiro de oligarcas russos, embarcando numa aventura vertiginosa de violência e humor, é o tipo de filme que se esperaria mais como vitorioso num Festival de Sundance. Mas os tempos mudaram e o filme de Baker já veio chancelado com uma Palma de Ouro em Cannes 2024 - imerecida, na verdade. O grande filme esnobado no festival francês foi o iraniano-alemão A Semente do Fruto Sagrado, de Mohammad Rasoulof, que chegou entre os cinco indicados ao Oscar de filme internacional.
A declaração mais política de Baker, aliás, veio em seu discurso final, defendendo o cinema independente, lembrando a perda de cerca de 1.000 salas após a pandemia e exortando os cineastas a “fazerem filmes para as grandes telas; vamos manter a tradição do cinema viva”.
No mais, os campeões de indicações este ano tiveram desempenho modesto. Foi o caso de outro filme independente norte-americano, O Brutalista, de Brady Corbett, que colheu apenas 3 estatuetas entre suas 10 indicações, a mais vistosa delas, o segundo Oscar de ator para Adrien Brody - que fez o discurso mais longo e emocionado da noite, conclamando um esforço geral “por um mundo mais inclusivo” e que “as lições do passado sirvam para que não deixemos o ódio tomar conta”. Brody, aliás, venceu seus dois Oscars na pele de um personagem judeu perseguido por nazistas, o primeiro em 2003, por O Pianista.
Campeão de indicações (13), o musical francês Emília Pérez, de Jacques Audiard, garantiu apenas 2: melhor atriz coadjuvante para uma emocionada Zoe Saldaña, que discursou lembrando a origem imigrante de sua família e lembrando que é a primeira pessoa de origem dominicana a levar um prêmio; e melhor canção original para El Mal. Foi um desempenho até razoável, diante da avalanche negativa após a descoberta dos tuítes preconceituosos de Karla Sofia Gascón, que estava lá na platéia do Dolby Theater.
Empataram com dois prêmios (técnicos) o musical Wicked, que deu o primeiro Oscar de figurino a um profissional afro-americano (Paul Tazewell) e levou um merecido troféu de direção de arte; e a ficção científica Duna: Parte 2, que venceu o de melhor som e efeitos visuais.
Com um solitário Oscar ficaram o terror francês A Substância, de Coralie Fargeat, um merecido prêmio para maquiagem e penteado, mas amargando uma das grandes esnobadas da noite, não levando o de melhor atriz para a veterana Demi Moore, que era dado como quase certo; e o drama político-religioso Conclave, premiado com roteiro adaptado, mas na verdade merecendo bem mais.
Totalmente esnobado mesmo foi o bom musical Um Completo Desconhecido, de James Mangold, que detinha 8 indicações, e em cujo elenco se encontrava o maior rival para Adrien Brody, Timothée Chalamet, que venceu no Sindicato dos Atores. Mas, com apenas 29 anos, o jovem intérprete tem tempo de sobra para conquistar a sua estatueta.
