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O Brasil reencontra seu cinema na busca do Oscar
- Por Alysson Oliveira
- 26/02/2025
- Tempo de leitura 7 minutos
Vinte e seis anos depois da indicação de Central do Brasil e de Fernanda Montenegro ao Oscar, o Brasil e Walter Salles conseguiram novamente com Ainda Estou Aqui, e, desta vez, com um feito inédito: a indicação na categoria principal de melhor filme.
O que equivale a uma façanha e tanto dentro de sua trajetória de sucesso a partir do Festival de Veneza, em setembro de 2024, de onde saiu com prêmio de roteiro para Murilo Hauser e Heitor Lorega, baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva.
Apesar de esnobado em categorias principais em Veneza – como atriz, na qual Fernanda Torres era uma das mais cotadas, e direção para Salles –, o filme saiu repleto de boas críticas e já mostrou seu enorme potencial de diálogo com o público em geral, e não apenas o brasileiro. No Brasil, Ainda Estou Aqui estreou na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, no final de outubro, em duas sessões disputadíssimas. Logo depois, chegou ao circuito comercial estreando em primeiro lugar, o que lhe garantiu, também, uma carreira ascendente nas bilheterias.
Desde seu lançamento, o filme sempre esteve entre os três mais vistos todas as semanas, e já conta com uma renda pouco acima de R$ 150 milhões, ultrapassando 5 milhões de ingressos vendidos até agora, o que o coloca em 2o lugar em toda a história do cinema brasileiro, atrás apenas, por enquanto, de Minha Mãe É Uma Peça 3 (R$ 169,8 milhões).
Nada mal para um filme que não é uma comédia popular – muito pelo contrário. Ainda Estou Aqui coloca o dedo numa ferida histórica que não deve ser esquecida, partindo da trajetória da família Paiva, cujo patriarca, Rubens Paiva, morreu nos porões da ditadura, e seu corpo nunca foi encontrado. O longa atinge uma dimensão social maior resgatando a lembrança de presos e presas políticas que desapareceram na ditadura – centenas, cujos corpos nunca puderam ser enterrados pelas famílias.
E, mais do que isso, a ressonância do filme levou o Superior Tribunal Federal (STF), a dar repercussão geral a recursos que tentam destravar processos criminais contra acusados de matar opositores do regime, entre eles o de Rubens Paiva. E, quando um caso recebe repercussão geral significa que a decisão do tribunal valerá para todos os processos semelhantes.
Pelo mundo afora, em especial nos EUA, Ainda Estou Aqui tornou-se uma espécie de sucesso indie, chamando a atenção de um público maior do normalmente alcançado por filmes em língua estrangeira, principalmente por conta das indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro para atriz em filme dramático conquistado por Fernanda Torres, em janeiro passado, pouco antes de o longa estrear nos EUA. O sucesso, em especial no Brasil, fez o público brasileiro reencontrar-se com seu cinema, que vive uma fase particularmente boa.
No final de semana passado, o diretor pernambucano Gabriel Mascaro levou o Urso de Prata com o Grande Prêmio do Júri, no Festival de Berlim, com o filme O Último Azul, protagonizado por Denise Weinberg e Rodrigo Santoro. É a coroação de mais um filme brasileiro que começa uma carreira de sucesso num festival internacional. Ainda para esse ano, o novo filme de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto, já está cotado para entrar na competição do Festival de Cannes, em maio. E o Brasil será o País de Honra dentro do Mercado do próximo Festival de Cannes, entre 13 e 21 de maio, o que colocará nosso cinema ainda mais em evidência.
Oscar polêmico e indeciso
Até o final de janeiro, parecia haver um franco favorito às principais categorias do Oscar: o francês (situado no México) Emilia Pérez, campeão de indicações (13). As polêmicas envolvendo o filme até então, como seu olhar europeu sobre um país latinoamericano marcado pela violência e o tráfico de drogas ou a complicada relação do longa com sua protagonista transexual, foram esquecidas diante de antigos posts na rede X, feitos anos atrás, por sua atriz principal, a espanhola Karla Sofía Gascón - que se tornou uma espécie de bode expiatório para todos os problemas do longa.
Suas antigas postagens xenofóbicas, racistas e homofóbicas no X foram um tremendo incômodo para a Netflix, que distribui o filme nos EUA. Como consequência, na campanha pelo Oscar, a atriz passou a ser ignorada pela gigante do streaming e seus colegas de filme, como o diretor e outras atrizes. Ainda assim, mesmo com a tentativa de conter a avalanche, Emilia Pérez não passou incólume, e pode fazer história no Oscar como o primeiro filme com o maior número de indicações num ano e não levar nada. No Brasil, por exemplo, a bilheteria do filme ficou bem abaixo do esperado para um longa com tantas indicações ao Oscar, e nunca chegou nem ao topo de bilheteria semanal desde sua estreia.
Isso coloca a premiação numa posição curiosa: não há um grande favorito. Alguns apostam em Anora, de Sean Baker, por conta de seus prêmios, que começaram em Cannes, com a Palma de Ouro, e também nos Sindicatos de Diretores e dos Produtores dos EUA. Outros creem queo filme O Brutalista, prêmio de direção para Brady Corbet no Festival de Veneza, além do Globo de Ouro, pode levar o principal troféu, mais por conta de sua imponência de mais de 3 horas do que qualquer outra coisa.
Ainda assim, correndo por fora está o britânico Conclave, vencedor de quatro Baftas e que ganhou um interesse incomum nos últimos dias com o estado de saúde debilitado do Papa Francisco. O enredo se passa justamente durante alguns dias durante o conclave que escolherá um novo papa. Intrigas, traições e erros do passado vêm à tona, nesse suspense bem-estruturado, que tem mais a ver com o mundo dos jogos políticos do que da religião.
Não seria nada ruim, porque tão incomum, se um terror dirigido por uma mulher ganhasse o prêmio principal, mas só o fato de A Substância, da francesa Coralie Fargeat, ter sido indicado na categoria principal já é uma vitória. O mesmo vale para o brasileiro Ainda Estou Aqui. Já Um Completo Desconhecido, Duna: Parte 2, O Reformatório Nickel e Wicked parecem estar lá apenas para completar a lista, independente de suas qualidades específicas.
Na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira, é pouco provável que Emilia Pérez, franco favorito outrora, consiga levar, o que abre espaço para o brasileiro, embora a poderosa produção alemã A Semente do Fruto Sagrado, do iraniano Mohammad Rasoulof, não deva ser ignorada.
Fernanda Torres é, inegavelmente, uma séria candidata ao Oscar de Melhor Atriz. Sua concorrente mais forte provavelmente é Demi Moore, por A Substância, também vencedora do Globo de Ouro, na categoria atriz de filme de comédia ou musical, e como atriz principal no Sindicato dos Atores dos EUA. Porém, a premiação de Mikey Madison no Bafta e no Independent Spirit Awards coloca a protagonista de Anora numa posição de destaque também.
Na categoria de melhor ator, Adrien Brody, de O Brutalista, novamente interpretando um judeu sobrevivente do Holocausto, como em O Pianista, filme que lhe deu o Oscar em 2003, é o concorrente mais forte – embora a vitória de Timothée Chalamet no Sindicato dos Atores dos EUA, como o jovem Bob Dylan de Um Completo Desconhecido, tenha embolado um pouco o jogo. Entre os coadjuvantes, as vitórias de Kieran Culkin, A Verdadeira Dor, e Zoe Saldaña (possivelmente, o único prêmio que Emilia Pérez deve levar) são dadas como certas.
