Drama "Diógenes" resgata dilemas da população indígena no Peru
- Por Neusa Barbosa, de Belo Horizonte
- 30/09/2023
- Tempo de leitura 2 minutos

Belo Horizonte – Na reta final da competição da Cine BH, a boa notícia veio do cinema peruano, com a exibição do drama Diógenes, do diretor estreante Leonardo Barbuy – que assina o roteiro e a trilha sonora de um filme rigoroso e belo, fotografado em preto-e-branco, falado em quéchua e com atores indígenas naturais de Ayachucho, ao sul do Peru.
A competição se encerra nesta noite de sábado (30) com a exibição dos dois últimos concorrentes, o mexicano Puentes en el mar, de Patricia Ayala Ruiz, e o brasileiro Toda noite estarei lá, de Tati Franklin e Suellen Vasconcelos, este já premiado em festivais como Curitiba e Vitória. As sessões são às 19h e 21h, respectivamente, na sala Humberto Mauro, no Palácio das Artes, no centro, e com ingressos gratuitos.

Entre o Sendero e o Exército
O contexto desta história de um pai (Pedro Pomacanchari) e seus dois filhos pequenos (Gisela Yupa e Cleiner Yupa) é o de uma região que traz as cicatrizes de uma recente guerra interna daquele país, a partir dos anos 1980, em que a comunidade indígena local foi abalada pelo assédio dos guerrilheiros do Sendero Luminoso e pelas forças militares e policiais, deixando atrás de si um rastro de milhares de mortos e desaparecidos. A resistência deste pai, procurando sobreviver, e especialmente da filha mais velha, para proteger o irmão numa situação de crise, constroem a beleza deste filme, concorrente na mostra Território.
Leonardo Barbuy, diretor do filme peruano "Diógenes"
Crédito: Neusa Barbosa
Presente em Belo Horizonte, o diretor Leonardo Barbuy contou que o filme foi sendo construído com a comunidade indígena ao longo de sete anos e que contou com assessoria antropológica, além de preparação de atuação. No entanto, as falas proferidas no filme não foram escritas por ele. Ele lhes descrevia a cena e eles a interpretavam. “Quase todas as cenas que vemos são primeiras tomadas”, contou. O que confere ao filme sua extraordinária organicidade e impacto emocional.

Torres de energia
O outro concorrente foi o documentário chileno A la sombra de la luz, dirigido pelas estreantes e primas Isabel Reyes Bustos e Ignacia Merino Bustos. Ambientado em Charrúa, no centro-sul daquele país, o filme retrata o impacto da instalação de uma grande rede termelétrica, em que as árvores foram substituídas por altas torres de transmissão de energia, que a distribuem para todo o país. Na cidade ao seu redor, no entanto, falta a mais elementar iluminação pública, ressaltando as desigualdades regionais, num filme que observa a pulsação desta comunidade, em que se destaca o esforço de um menino em construir a própria fantasia e infância num ambiente desvalido.
Animais como coelhos, corujas e cães ocupam o ambiente de uma forma quase fantasmagórica, como que simbolizando essa natureza cerceada, num filme que alterna texturas de forma bastante criativa.
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