Cine BH começa em tom político
- Por Neusa Barbosa, de Belo Horizonte
- 27/09/2023
- Tempo de leitura 3 minutos

Belo Horizonte - Começou com alta temperatura política nesta terça (26/9) a 17a. edição da Cine BH e não só pela exibição do longa Zé, do diretor homenageado Rafael Conde, que aborda a história de um jovem líder estudantil, morto aos 27 anos, na ditadura civil-militar de 1964.
Ator Caio Horowicz apresenta o filme "Zé" na abertura do festival
Crédito: Neusa Barbosa
Crédito: Neusa Barbosa
O ator Caio Horowicz, que interpreta o protagonista, descrevia o tema do filme quando foi interrompido por um solitário espectador, no mezzanino, que gritava “mentira!”, ao ouvir o ator falar da tortura e morte do estudante pelas autoridades da época. Imediatamente, houve uma reação massiva do restante da platéia presente no Cine Theatro Brasil Vallourec, que respondeu com gritos de “sem anistia”, “viva a democracia”, “fora Bolsonaro” e “fora Zema” (referindo-se ao governador do estado, Romeu Zema).

Foi uma apaixonada resposta ao tema do filme, numa noite que uma das diretoras do festival, Raquel Hallak, abriu com uma fala conclamando à regulamentação do streaming e ao restabelecimento da cota de tela para o cinema brasileiro – que serão temas de debates dentro da programação nos próximos dias.
Homenageados do festival: o diretor Rafael Conde e a atriz e diretora Yara de Novaes
Crédito: Neusa Barbosa
Anos de chumbo
A militância juvenil na luta contra a ditadura militar, que ocupa o centro de Zé, é um tema, aliás, que felizmente vem sendo redescoberto pelo cinema brasileiro recente, como ocorreu em Entrelinhas, de Guto Pasko (PR), premiado no recente Cine PE e que igualmente retrata a história, baseada em fatos reais, de uma estudante presa e torturada durante o regime de 1964. Também o filme de abertura do festival pernambucano, Ainda Somos os Mesmos, de Paulo Nascimento (RS), ficcionalizava outro relato do mesmo período, sobre a fuga de um jovem militante para o Chile que é surpreendido pelo golpe do general Augusto Pinochet, em 1973, e se refugia na embaixada argentina - um enredo real, baseado nas memórias do advogado José Carlos Bona Garcia.
Em Zé, o percurso do protagonista ocorre num clima claustrofóbico, em que o protagonista e sua mulher, Bete/Madalena (Eduarda Fernandes), procuram manter-se na militância contra a ditadura, num momento em que a oposição e a luta armada contra o regime sofriam pesadas baixas. É um registro, portanto, bastante intimista, em que fica em primeiro plano a angústia de uma juventude engajada, que não consegue os meios de lutar pela liberdade - com o agravante de que o casal Zé/Bete tem dois filhos pequenos.
O foco, no roteiro, assinado pelo diretor Rafael Conde e Anna Flavia Dias, é mesmo esse retrato de uma juventude a quem foi negado o direito de existir, de ser jovem. A onipresença da polícia, da vigilância, é sugerida de maneira sutil, para compor o clima de paranoia que cerca os personagens - e não se abusa das cenas de violência e tortura.
O Cine BH exibe também filmes do diretor Rafael Conde, autor de 11 curtas, um média e três longas, incluindo Zé, e outros com a participação de Yara de Novaes. A programação do festival, com sessões gratuitas em oito locais em Belo Horizonte até 1 de outubro, está no site.
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