22/07/2026

Curtas brilham na terceira noite do festival

Vitória - Na noite de segunda (22), foi a vez de os curtas-metragens ocuparem o espaço nobre, trazendo quatro filmes de impacto em seus temas variados.
Eu fui assistente de Eduardo Coutinho, de Allan Ribeiro (RJ), trouxe fragmentos de experiências passadas deste documentarista carioca com aquele que foi o maior dos documentaristas brasileiros, morto tragicamente há 10 anos. Ribeiro assistiu Coutinho em um de seus maiores filmes - Edifício Master - e teve uma experiência curiosa quando o veterano diretor aceitou participar de um filme seu.
Comentando minuciosamente suas imagens, Ribeiro pratica um cinema à altura do mestre, que tem o condão de trazer à tona bastidores da própria realização cinematográfica, em seu constante ensaio e erro, e também compartilhando detalhes da breve convivência com Coutinho que se tornam divertidos e também comoventes. Afinal, cada filme que se produz em que ele é mencionado é uma forma, também, de todos nós, amantes de seu cinema, elaborarmos o luto pela enorme lacuna que ele deixou.
Diretores de curtas da noite: Victor di Marco ("Zagêro"), Fabrício Basílio ("Viventes"), Allan Ribeiro ("Eu fui assistente de Eduardo Coutinho") e Karol Felício ("Travessia")

Autor de filmes como Mais um dia, Zona Norte e Esse amor que nos consome, Ribeiro pode ser considerado um dos herdeiros do estilo intimista do mestre, ainda que pratique um cinema com estilo e preocupações próprias. Além disso, ele é mais um dos praticantes de um cinema de delicadeza e afeto que ocupa um espaço fundamental no cinema brasileiro, assim como a turma mineira dos Filmes de Plástico.

Veia fantástica

Viventes, de Fabrício Basílio (RJ), por sua vez, enveredou na vertente do cinema fantástico, que se mescla a um comentário sobre o mundo do trabalho ao retratar a jornada de um jovem que precisa imprimir seu currículo para batalhar uma vaga de emprego. Nessa busca singela, ele volta à casa da família, onde reencontra a avó e ocorrem situações cada vez mais estranhas. Não deixa de ser oportuna esta abordagem fantástica em tempos de trabalho precarizado, tema de outro curta exibido estes dias no festival, o alagoano Samuel foi trabalhar, de Janderson Felipe e Lucas Litrento, que funciona numa chave de humor patético.

Já exibido e premiado no mais recente Cine PE, Zagêro, dos gaúchos Victor di Marco e Márcio Picoli, tematiza numa chave crítica e cômica a criação de parâmetros novos para os corpos PCD, fora das chaves da solidão e da morte, como definiu o ator e co-diretor Victor di Marco no debate de hoje (23).

O último curta da noite, o documentário Travessia, da estreante Karol Felício, abordou outro tema da maior relevância, a procura cada vez maior de mulheres indígenas de aldeias de Aracruz (ES) por partos em hospitais, num contexto em as parteiras tradicionais estão desaparecendo e não deixando herdeiras de seus saberes tradicionais.

Adolescência abandonada

O longa da noite, o drama baiano Café, pepi e limão, de Adler Kibe Paz e Pedro Léo, focalizou com bastante crueza a vida de três adolescentes sem-teto em Salvador (João Vitor Souza, Mari Nascimento e Leonardo Lacerda).

Apesar da força do tema e da autenticidade do trio central, ressente-se de uma maior elaboração dramática das situações e diálogos nesse relato em que a violência define o destino de cada um deles.