A força das mulheres nos movimentos sociais
- Por Neusa Barbosa, de Vitória
- 22/07/2024
- Tempo de leitura 4 minutos
Vitória - A força dos movimentos sociais ecoou com força na tela do festival na noite de domingo (21) com a exibição do documentário Não existe almoço grátis (foto ao lado), em que os diretores Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel tiveram a argúcia de eleger três personagens femininas excepcionais para retratar a ação de uma das Cozinhas Solidárias do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, em Brasília, às vésperas da última posse do presidente Lula.
O grande mérito do documentário é articular o micro e o macro para expor o imenso esforço das enérgicas formiguinhas, Bizza dos Santos, Jurailde Ferreira e Socorro da Silva, três mulheres negras, para alimentar uma multidão que pode ser de mil pessoas, um dos grupos esperados na capital para a posse. Nada que seja estranho, aliás, para elas que lideram a Cozinha Solidária da favela Sol Nascente, considerada a maior comunidade do Brasil, enfrentando um cotidiano dedicado a transformar dificuldades e carências em oportunidades de solução.
Ao mesmo tempo que são semelhantes, as três empunham suas diferenças com muita tranquilidade, permitindo ao filme abrir uma fresta para a imensa multiplicidade do povo brasileiro miúdo, esse que a gente tantas vezes só vê de longe e que resiste às explicações teóricas em que alguns tentam apreendê-los. Bizza votou em Bolsonaro em 2018 e fala com a maior sinceridade de seus motivos então, a partir de seu desconhecimento de tantas circunstâncias por trás do então candidato. Assim como dá a melhor explicação possível sobre a importância do MTST em sua vida, um processo de desenvolvimento pessoal e político que lhe permitiu descobrir o impacto do racismo e do machismo em sua trajetória pessoal. E aí está a importância destes movimentos sociais, na educação popular, o que é a real causa de sua satanização tantas vezes na mídia hegemônica e nas redes sociais manipuladas por fake news.
Jurailde, por sua vez, é evangélica fervorosa e destaca sua fé em Deus como parte essencial de sua vida, ao lado de uma militância que rejeita o julgamento das diferenças dos outros - porque isso, como ela destacou no debate do filme, hoje (22), “o mundo já faz”. Jurailde, aliás, forneceu a melhor descrição do documentário em que aparece: “Não é cinema baseado em fatos reais, aquela é a nossa vida todo dia”.
Nessa vida, Bizza, Jurailde e Socorro da Silva desdobram-se para não só para cozinhar, como para gerir toda a logística em torno da atividade, como a produção de alimentos - Jurailde é particularmente atuante na questão das hortas comunitárias - e, no caso do evento da posse, encontrar um lugar no Plano Piloto de Brasília onde elas possam fazer e entregar a comida aos visitantes que virão. Esse universo frenético, que encontra dificuldades como um fogão encrencado que não libera o gás, entre outras, cria um curioso paralelo com o mundo oficial da posse, em que um protocolo oficial, não muito longe dali, cuidava de todos os detalhes em condições muito mais generosas.
Disso que o diretor Marcos Nepomuceno descreve como “os abismos entre o micro e o macro” é que o documentário se nutre particularmente bem, especialmente por dar voz e protagonismo a estas três dignas representantes do que o povo brasileiro tem de melhor, com sua criatividade, persistência e afeto.
Diversidade
A seleção dos curtas primou pela diversidade de gêneros e estilos. A noite começou com a animação capixaba Saudades em cor, de Arthur Felipe Fiel, um filme bastante rico visualmente e de tom infantil, retratando a elaboração da perda de um avô por um menino, que ressignifica suas memórias dele através da imaginação.
Quinze quase dezesseis, de Thais Fujinaga (SP), retrata numa chave realista as inadequações de uma adolescente, Tamires (Jezz Amadeus), bolsista negra numa escola de classe média alta por conta de seu talento no basquete e que encara o preconceito das colegas e um abuso.
O alagoano Samuel foi trabalhar, de Janderson Felipe e Lucas Litrento, constrói, numa linguagem lúdica e crítica, o dilema de um jovem, Samuel (Pedro Walisson), dividido entre um sonho na música e a absoluta necessidade de um emprego: nem que seja um trabalho aviltado e mal-pago como “mascotinho”, obrigado a vestir uma fantasia de boneco para fazer promoção na rua dos lançamentos de uma imobiliária.
Já Se eu tô Aqui é por mistério, de Clari Ribeiro (RJ), é uma criativa incursão no cinema de gênero, em que o diretor elabora sua declarada tentativa de construir um novo imaginário das pessoas trans num relato futurista, em que bruxas poderosas tentam unir-se num clã capaz de derrotar a reacionária Ordem da Verdade. No elenco, integrado majoritariamente por pessoas trans, participação de Helena Ignez e Zezé Motta.
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