Drama “Jouer avec le feu” fala do extremismo na França
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 04/09/2024
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Veneza - Três filmes filmes representaram até aqui a França na competição, com resultados bem distintos. O melhor deles, sem dúvida, é Jouer avec le Feu (The Quiet Son), em que as irmãs e diretoras Delphine e Muriel Coulin abordam com muita propriedade o tema da infiltração da ideologia de extrema-direita numa família operária no nordeste da França.
O veterano Vincent Lindon interpreta Pierre, um viúvo ferroviário especializado em manutenção, que criou sozinho seus dois filhos, hoje adultos, Fus (Benjamin Voisin) e Louis (Stefan Crepon). O caçula, Louis, está encaminhado aos estudos e entra na Sorbonne, em Paris. Mas Fus, o mais velho, está perdido. Aos 22 anos, ele não completou nem mesmo um curso técnico de metalurgia e sofre, como muitos de sua geração, pelo desemprego e a falta de utopia e projeto. Assim, torna-se presa fácil do aliciamento por grupos de extrema-direita, que despejam seu ressentimento sobre alvos predeterminados: refugiados, imigrantes, esquerdistas.
Outrora um ativo sindicalista, Pierre assusta-se com o engajamento do filho nesses atos de violência. E o filme elege como seu centro essa batalha, épica e ética, do pai para reatar o diálogo com o filho, que é emblemática como símbolo da disputa de corações e mentes que ocorre nas redes sociais em todo o mundo. É um filme sóbrio, denso, que integra o pessoal com o político com eficiência - da mesma forma que ocorre no drama brasileiro Ainda Estou Aqui, de Walter Salles.
Pelo tema e pelo estilo, Jouer avec le Feu parece muito um filme que os irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne ou Ken Loach poderiam ter feito, ancorado numa das angústias mais urgentes da contemporaneidade, na França ou em qualquer outro lugar. Que as diretoras francesas sejam bem-vindas neste cinema político. E certamente seus três atores são candidatíssimos a uma premiação aqui.
Relações complicadas
Outro francês, Trois Amies, de Emmanuel Mouret, aposta num elenco afinado para desdobrar os relacionamentos cruzados entre três casais, num enredo que lembra o poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade. Camille Cottin, Sara Forestier, India Hair, Damien Bonnard, Vincent Macaigne e alguns outros formam as duplas que se fazem, se desejam ou se desfazem ao sabor da fluidez das paixões, num filme altamente dialogado, como é praxe no cinema e na vida francesa. Sem nada de propriamente novo, o filme tem lá seu charme discreto, lembrando alguns bons momentos do passado de Woody Allen.
Já não vai tão bem o outro francês, Leurs Enfants après eux, da dupla de diretores Zoran e Ludovic Boukherma, que perdem uma ótima oportunidade de relacionar eficientemente o íntimo e pessoal com o social e político ao retratar as vidas de alguns adolescentes no interior da França nos anos 1990. O filme é fragmentado e perde energia ao esticar-se desnecessariamente - e também perde a chance de abordar com mais propriedade as tensões étnicas do país em relação aos cidadãos de origem árabe, não sendo capaz de desenvolver a fundo seus muitos personagens.
Guerra dupla
Uma outra guerra, esta mais literal, ocupa o drama italiano Campo di Battaglia, do veterano Gianni Amelio, que une as pontas entre a carnificina da I Guerra Mundial com a eclosão da epidemia da gripe espanhola, ambas catástrofes colhendo milhões de vidas, dentro e fora da Itália, no início do século XX.
Amelio coloca em pauta uma discussão ética sobre a atuação de três médicos: Stefano (Gabriel Montesi), Giulio (Alessandro Borghi) e Anna (Federica Rossellini), num hospital em que os feridos que vêm do front fazem de tudo para não retornar ao inferno das trincheiras, inclusive automutilar-se. A eclosão da gripe espanhola agrava o peso das decisões políticas, já que o governo italiano está disposto a tudo para esconder da população a gravidade da epidemia, que terminou colhendo 600.000 mortos na Itália, numa população de 40 milhões de habitantes. Assuntos candentes, fundamentais, mas infelizmente tratados dentro de uma abordagem um tanto conservadora em termos cinematográficos, num filme de época que não pulsa como deveria, atolado numa concepção um tanto antiquada.
Biografia inventada
Nas extensas 3 horas e meia de seu The Brutalist, o ator e diretor norte-americano Brady Corbet cria uma cinebiografia um tanto caótica para um personagem inventado, o arquiteto húngaro Lazlo Toth (Adrien Brody). Sobrevivente de um campo de concentração, ele consegue asilo nos EUA, recorrendo à ajuda inicial de um primo (Alessandro Nivola). Mas logo lhe ocorrem inúmeras dificuldades, que aparentemente serão solucionadas quando ele cai nas graças de um temperamental milionário, Harrison Von Buren (Guy Pearce).
Muito falta para que Lazlo, um ex-professor na Bauhaus de Dessau, possa realizar seus sonhos mais caros: como resgatar a mulher (Felicity Jones) e a sobrinha (Raffey Cassidy), ainda refugiadas na Europa do pós-guerra. A associação com Von Buren lhe dá a oportunidade de construir um ambicioso centro cultural, em que ele poderá exercitar seu talento, mas que se torna um verdadeiro pesadelo, devido à instabilidade e abusos do patrocinador e às próprias inseguranças de Lazlo. A vida nos EUA é tudo, menos a realização do mítico sonho americano.
Filmado em 70 mm, The Brutalist tem ambição mas falha na maneira como estende, em suas duas partes, os altos e baixos de um personagem trágico, perdendo de vista a organicidade da narrativa, especialmente em seu segmento final.
