04/06/2026

Almodóvar entrega seu choque frio na competição

Veneza - Primeiro longa em língua inglesa do renomado diretor Pedro Almodóvar, The Room Next Door impactou a competição veneziana com uma atuação de gala de suas duas protagonistas, Tilda Swinton e Julianne Moore, mas trazendo um inegável tom frio, cerebral, de um cineasta sempre marcado pelo tom caliente de seus melodramas.
Baseado num livro de Sigrid Nunez, o enredo retrata um dilema na vida de duas amigas de longa data, Martha (Tilda) e Ingrid (Julianne). Um dilema de vida e morte: Martha sofre de um câncer terminal, tentou todos os tratamentos, isso tudo fracassou e decidiu pôr fim à própria vida. Mas, para isso, quer estar acompanhada de Ingrid, autora de um livro que fala de luto.

É o tipo da situação-limite, melodramática e radical que serve ao gosto do diretor, que aqui se afasta do tom de sua obra anterior, mantendo as emoções em fogo brando - apesar da inegável angústia vivida pelas duas mulheres.
A rara presença masculina é Damian (John Turturro), que no passado foi, em tempos diferentes, amante das duas. Amigo de Ingrid, ele funciona como uma voz amiga, num filme sem sexo - sexualidade, aqui, é só falada, matéria das muitas memórias compartilhadas.

Turturro é também um porta-voz de questões externas à intimidade das duas amigas, obcecado que é pela questão climática e angustiado porque o mundo caiu nas garras do neoliberalismo e da extrema-direita - gerando nele um pessimismo que o leva a tentar dissuadir seu próprio filho de ter um terceiro bebê. Nesse detalhe, Almodóvar infiltra também uma possível razão de ter abraçado este projeto, colocando em foco temas em torno da mortalidade, que tanto moveu o mundo a partir da pandemia.
Este é, portanto, um Almodóvar mais contido e grave, que não deixa de referir-se, no entanto, ao próprio passado, incorporando seus habituais coloridos intensos nos ambientes e figurinos, destacados na fotografia de Eduard Grau, e instilando a trilha intoxicante do habitual parceiro Alberto Iglesias.

Um outro aceno do cineasta espanhol para si mesmo é a cena final, que remete a Fale com Ela. Como se Almodóvar quisesse dizer que, apesar de tudo, continua o mesmo.

Radicais de direita

Diretor de uma versão criativa do shakespeariano Macbeth: Ambição e Guerra (2015), o australiano Justin Kurzel chegou à competição com uma obra forte e de ressonância política inegável: The Order, um policial estrelado por Jude Law
na pele de um agente do FBI que combate uma seita de extremistas de extrema-direita, em meados dos anos 1980 nos EUA. Uma história radical e assustadoramente real, baseada no livro "The Silent Brotherhood", de Kevin Flynn e Gary Gerhardt.
Law interpreta Terry Husk, um agente do FBI que troca a agitada Nova York por uma pacata cidade no bucólico estado de Idaho, onde espera ter tranquilidade para recuperar a companhia de sua mulher e filhas. No entanto, as plácidas montanhas escondem núcleos de supremacistas brancos de inspiração assumidamente nazista, recrutando homens desempregados e ressentidos para ações armadas, visando à formação de um exército e à tomada do país. Quem está à frente do movimento é Bob Mathews (Nicholas Hoult), um jovem de inegável talento e inteligência que organiza assaltos a bancos que trazem dinheiro e permitem a compra de armas e o agenciamento de mais membros.
O filme tem a habitual energia de Kurzel, com cenas de alta adrenalina e também de extrema violência - que é compatível, no entanto, com a ação destes radicais racistas que já há 40 anos cresciam nos EUA e foram estimulados pela ação de influenciadores como Steve Bannon e a presidência de Donald Trump. Não é outra ideologia a que está por trás do lema deste presidente, que procura voltar: “Faça a América grande novamente”. Uma América excludente, que persegue indígenas, negros e imigrantes e reserva às mulheres o mero papel de reprodutoras. Nada mais temível e assustador. Por isso o filme tem tanta relevância neste momento.

Separação na fronteira

De algum modo The Order se comunica com outro filme exibido por aqui, fora de competição, o documentário Separated, em que o veterano e premiado diretor norte-americano Errol Morris denuncia os horrores de um recente processo de separação de pais e crianças, filhos de imigrantes, na fronteira dos EUA com o México. Uma tática cruel e desumana colocada em funcionamento pelo governo Trump, que visava desestimular a onda imigratória com o trauma desta separação familiar, que rendeu cenas lancinantes e consequências ainda difíceis de avaliar totalmente. Sem contar que hoje ainda restam centenas de crianças que não foram reunidas aos seus pais, alguns deportados, outros de localização incerta, apesar do esforço de organizações de direitos humanos.

O melhor em Separated é como ele desvenda minuciosamente os mecanismos por dentro da estrutura no governo Trump que conceberam e executaram esta política absolutamente ilegal e desumana, a partir da pesquisa rigorosa do jornalista Jacob Soboroff - que inclusive visitou alguns desses centros para onde eram levadas as crianças, que além do mais eram verdadeiros depósitos humanos, frios e insalubres.