Uma diva e um jóquei disparam na corrida pelo Leão de Ouro
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 30/08/2024
- Tempo de leitura 4 minutos
Veneza - A competição pelo Leão de Ouro começou em alto estilo, com a passagem de Maria (foto), a cinebiografia da mítica soprano Maria Callas, interpretada por Angelina Jolie, num filme dirigido pelo premiado cineasta chileno Pablo Larraín.
Maria completa uma trilogia do diretor sobre mulheres icônicas, começando por Jackie (2016), com Natalie Portman no papel de Jackeline Kennedy, seguida por Spencer (2021), que mergulha na figura de Lady Di (Kristen Stewart). Como nesses outros dois filmes, Larraíne escava a camada pessoal mais profunda por baixo do mito, escolhendo sempre um momento de crise na vida de cada uma de suas protagonistas. No caso de Callas, em 1977, no final de sua vida, em Paris, quando a diva passava seus dias solitária, recordando fragmentos de uma vida turbulenta e aventurosa, em que o sucesso sempre teve um preço muito alto.
As lembranças surgem a partir de depoimentos da cantora a um repórter (Kodi Smit-McPhee), que não só é admitido em seu apartamento como percorre com ela lugares que ela visita em Paris.
A leitura de Maria Callas como uma personagem temperamental, voluntariosa e caprichosa seria inevitável, mas havia o risco de imprimir-se na tela um tom excessivamente antipático. Mas esse limite claramente não foi ultrapassado com Angelina Jolie, que coloca sua própria beleza e aura pessoal a serviço dessa mulher tão emblemática e passional, assim como seu canto - resgatado também em generosas sequências com a voz da própria Callas, resultado de uma parceria da produção do filme com a Fundação Callas.
A própria Angelina também solta a voz em alguns momentos, demonstrando a que vieram os sete meses de preparação para soltar a voz. Uma ousadia e tanto, finalmente compensadora. Por conta dessa entrega, não só nas sequências de canto, Angelina já é tida como uma aposta certa para indicação ao Oscar de melhor atriz, se não sair aqui do Lido com a Copa Volpi de interpretação feminina.
Luzes e sombras
Nem por ter sido apoiado pela Fundação Callas o filme se torna chapa-branca nem deixa de mergulhar em alguns aspectos mais sombrios do passado de Callas, como sua traumática adolescência pobre, na Grécia, em que ela e a irmã eram agenciadas pela mãe para soldados alemães, que invadiram o país na II Guerra - para quem ofereciam, a troco de dinheiro, apresentações musicais e também favores sexuais.
Inevitável também a menção ao bilionário armador grego Aristóteles Onassis (vivido pelo ator turco Haluk Bilginer), o grande amor de Maria, com quem nunca se casou e a quem abandonou para desposar Jacqueline Kennedy. Nesse imenso apartamento parisiense em que Maria vive seus últimos dias cercada de tantas memórias difíceis, paira a presença de seus dois anjos da guarda, o mordomo e a empregada, vividos por dois coadjuvantes de luxo, Pierfrancesco Favino e Alba Rohrwacher, dois dos maiores atores italianos - além de Valeria Golino, vivendo a irmã de Maria.
Favino e Alba são essenciais para evidenciar as razões pelas quais Maria era mesmo uma rainha, inspirando devoção, mas que sabia ser generosa com seus súditos, ainda que eventualmente negasse algumas coisas que exigiam dela - como fazia seu público insaciável, que queria vê-la de volta aos palcos naquelas semanas finais, ainda que ela sentisse que não podia mais. Se ela mesma acalentou a ideia, no final, seu coração teve a última palavra. Ela morreu de infarto, aos 53 anos.
Um jóquei sem cavalo
Outro concorrente ao Leão foi a coprodução hispano-argentina El Jockey, em que o ator Nahuel Pérez Biscayart vive o protagonista, Remo Manfredini. Ele já foi um jóquei vencedor no passado, alimentando a riqueza de um protetor rico e bandido, Sirena (Daniel Giménez Cacho). Mas agora está exausto dessa vida, oscilando entre fugas e o mergulho no álcool.
Dirigido por Luis Ortega (de O Anjo), o filme tem seu ponto forte numa narrativa não-linear, amparada em poderosas sequências de dança magnificamente coreografadas, como uma que envolve as joquetas no vestiário e outra tendo ao centro Abril (Úrsula Corberó), uma joqueta que espera um filho de Remo.
O enredo, que nunca pretende ser realista, incorpora liberdades e fantasia nessa trajetória de Remo pelo mundo dos cavalos e também quando ele escapa do hospital depois de um acidente. A dualidade sexual, finalmente, também é tematizada por uma parte do filme em que Remo percorre as ruas com um imenso curativo envolvendo sua cabeça, usando não mais do que um casaco de peles e uma bolsa femininos - invocando um tipo de humor melancólico que faz boa companhia aos filmes do finlandês Aki Kaurismaki, mas não se esgota nesse tom.
El Jockey traz impressa também em sua carne um tom de tragédia profundamente argentino, tocando o espírito do tango e não deixa de apontar para mazelas sociais cada vez mais graves também naquele país - como um número imenso de moradores de rua.
