04/06/2026

Documentário de Petra Costa investiga a influência evangélica na política

Veneza - Primeiro filme brasileiro exibido no festival, fora de competição, o documentário Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa, dá continuidade às reflexões sobre o Brasil contemporâneo iniciadas em Democracia em Vertigem (2019), focalizando, desta vez, o impressionante crescimento da influência dos evangélicos na política brasileira e seu papel central na ascensão da extrema-direita e na eleição de Jair Bolsonaro.
Todo esse processo tem em destaque a figura do pastor Silas Malafaia, a mais nítida tradução da teoria do dominionismo, ou seja, da expansão dos evangélicos nos lugares de cultura e poder - da qual um sinal indiscutível é o aumento da bancada evangélica de 50 para 142 integrantes. Mesmo sem ocupar nenhum cargo político, Malafaia foi figura central na composição do discurso do candidato Bolsonaro e se comporta sempre como um porta-voz em movimentos como as críticas aos supostos excessos do Supremo Tribunal Federal, marcando uma mudança radical de posição de quem, em 2002, apoiou a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula também tem participação no filme, que acompanha o processo de sua prisão e registra uma entrevista posterior, em que ele comenta acreditar que “o comunismo não deu certo por ter combatido a religião”. De todo modo, essa discussão está lançada e é da maior relevância para todo aquele que quer entender o Brasil de hoje.

Processo de escuta
Na coletiva de hoje (29), a diretora Petra Costa e a produtora Alessandra Orofino declararam que sua intenção com
o filme foi “deixar os personagens emitirem sua verdade”. Assim, o filme dá voz não só a Malafaia, mas ao Cabo Daciolo - visto no início do documentário abençoando as cadeiras do Congresso -, Sóstenes Cavalcanti e outros pastores e pastoras não detentores de mandatos, alguns críticos de Malafaia, além de alguns fiéis.
Como explica no documentário, em narração em off, a diretora, que tem uma formação laica, procurou pistas para compreender um fenômeno que, aliás, nada tem de espontâneo e de exclusivamente religioso. No filme se lembra como ocorreu um processo de exportação para o Brasil do modelo de televangelismo norte-americano, do qual um dos expoentes é o pastor Billy Graham e outros, e também
partir da vinda de jovens missionários já em meados dos anos 1960, expandindo a influência norte-americana, naquele momento em que os EUA se preocupavam com um suposto esquerdismo do governo João Goulart. Aliás, como lembra Petra em sua narração, “o comunismo é o grande fantasma no discurso desses evangélicos”.

Contribuiu também para o crescimento evangélico - passando de 5% para 30% da população brasileira - o combate que o papa conservador João Paulo II moveu contra a ação mobilizadora da Teologia da Libertação da Igreja Católica, esvaziando um movimento que tinha profunda penetração em camadas mais pobres da população e rincões distantes do País - e que se tornaram justamente o alvo da penetração da ação evangélica.

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