04/06/2026

 Filme brasileiro “Manas” vence prêmio na Jornada dos Autores

Veneza - Já na reta final, o festival trouxe boas notícias para o Brasil com o prêmio de melhor direção na seção Jornada dos Autores para a pernambucana Marianna Brennand e seu drama Manas (foto), sua estréia na ficção.
O filme narra a história de Marcielle/Tielle (Jamilli Correa), uma adolescente de 13 anos que vive na Ilha do Marajó (PA) com o pai, Marcílio (Rômulo Braga), à mãe, Danielle (Fátima Macedo), e a três irmãos. À medida que cresce, Tielle se percebe presa entre dois ambientes abusivos, inclusive na própria casa. Preocupada com a irmã mais nova e ciente de que o futuro não lhe reserva muitas opções, ela decide confrontar a engrenagem violenta que rege a sua família e as mulheres da sua comunidade.
Tomara que este troféu seja um bom sinal de que outras premiações podem vir no caminho dos brasileiros, especialmente porque Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, um dos candidatos ao Leão de Ouro, continua entre os três filmes mais cotados na tabela de avaliação da imprensa italiana na revista Ciak, logo atrás de The Room Next Door, de Pedro Almodóvar, e Queer, de Luca Guadagnino. A premiação será anunciada neste sábado (7), às 19h (hora local).

Últimos candidatos

Um filme que chegou de fininho nestes últimos dias e arrebatou muitos fãs foi o drama georgiano April, segundo longa da diretora Dea Kulumbegashvili, que já tanto havia impressionado há 4 anos com seu longa de estreia, Beginning (que pode ser conferido na plataforma Mubi).

Neste segundo longa, a diretora escala novamente a mesma atriz do primeiro, Ia Sukhitashvili, agora interpretando Nina, uma ginecologista dedicada a ajudar mulheres numa região rural. A questão de gênero, envolvendo abuso sexual e necessidade de aborto - por ali, ilegal - estão no centro de um drama que aposta intensamente numa linguagem rigorosa, em termos da narrativa, da fotografia (do mesmo Arseni Khachaturan do primeiro longa), na montagem (de Mathieu Taponier), no ritmo dolorosamente controlado para entregar uma história que certamente tem repercussão universal.

Há também um toque fantástico, envolvendo uma criatura algo monstruosa, cujo significado caberá a cada espectador especular. Há muitos signos, aliás, distribuídos ao longo do filme, que tem momentos verdadeiramente exasperantes, nenhum deles gratuito - e que poderá impressionar o júri presidido pela atriz francesa Isabelle Huppert e integrado pelo brasileiro Kléber Mendonça Filho.

Vigilância permanente

O concorrente de Cingapura, Stranger Eyes, do jovem diretor Siew Hua Yeo, também marcou sua passagem com um relato que envolve na história a onipresença de câmeras de vigilância numa grande cidade do país - o que não impede o rapto de uma criança à luz do dia, diante dos olhos de todos.

Há várias camadas dentro da narrativa, envolvendo os pais da criança, um jovem casal (Wu Chien-Ho e Annica Panna) que vive com a mãe dele (Vera Chen), e um homem de meia-idade que mora no prédio em frente (interpretado por Lee Kang-Sheng, o ator-fetiche do diretor malaio Tsai Ming-Liang).

O diretor é hábil, na maior parte do tempo, na condução do suspense envolvendo não só o desaparecimento da criança mas também o hábito de stalkear pessoas, envolvendo o trio principal. Mas, destas camadas, surgirão a todo momento novas revelações, num filme que tem personalidade e revela um novo diretor - já premiado em 2018 com o Leopardo de Ouro em Locarno pelo filme Huan tu.

Esquadra italiana

A Itália compareceu à competição com cinco longas muito diferentes entre si. Os de melhor confecção foram
Vermiglio, da diretora Maura Delpero, e Iddu, da dupla Fabio Grassadonia e Antonio Piazza. Os outros dois, Diva Futura, de Giulia Louise Steigerwalt, e Campo di Battaglia, do veterano e premiado Gianni Amelio, ficaram devendo, cada um a seu modo. Já Queer, de Luca Guadagnino, em coprodução com os EUA, também é irregular.

Ambientado em 1944, numa pequena aldeia ao norte do país, Vermiglio é um retrato eficiente de um ambiente rural, no final da II Guerra, em que o casamento entre uma moça local e um soldado desertor siciliano desencadeia um drama imprevisto. De todo modo, a diretora capta de maneira crítica os mecanismos de uma sociedade primitiva e machista, em que mesmo um homem culto como o professor., pai da moça (Tommaso Ragno), é obstinado em decidir o destino das filhas de um modo tradicional e rígido.

Iddu, por sua vez, tem no elenco dos sonhos o seu ponto forte, começando por Toni Servillo vivendo Catello, um político ligado à máfia que acaba de sair da prisão e se vê pressionado pela polícia a usar seu contato íntimo com o chefão Matteo Messina Denaro (Elio Germano) para capturá-lo. Não é a primeira vez que Servillo interpreta um papel deste tipo, mas, mesmo sem maior novidade, o filme é um eficiente retrato de um mundo onde os valores parecem ter-se perdido e nenhuma autoridade merece respeito. Por conta disso, trata-se de uma obra
bastante sombria, ainda que não menos realista.

Dirigido pela realizadora norte-americana Giulia Louise Steigerwalt, de Sob o Sol da Toscana (2003), Diva Futura procura resgatar memórias da indústria pornográfica italiana, em torno da figura de Riccardo Scicchi (Pietro Castellitto), da agência Diva Futura que, entre outras coisas, descobriu a mundialmente famosa Cicciollina (Lidija Kordic). Seria de se esperar que uma cineasta mulher problematizasse várias questões envolvendo a exploração do corpo feminino, mas Giulia Louise não deu conta dessa missão. O filme mergulha num tom um tanto debochado e perde a chance de oferecer algo melhor.

Finalmente, Campo di Battaglia, de Gianni Amelio - vencedor do Leão de Ouro em 1998 por Assim é que se ria -, deixa a desejar não pelo tema, altamente relevante, em torno da carnificina da I Guerra Mundial e da gripe espanhola, mas pelo tom antiquado desta obra.