Brasília abre seu festival com documentário de Marcelo Gomes e homenagem a Zezé Motta
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 29/11/2024
- Tempo de leitura 8 minutos
Com uma programação que reúne 79 filmes, começa neste sábado (30/11) o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais antigo do Brasil, e que celebra sua 57ª edição até 7 de dezembro.
Na abertura, Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) faz a primeira exibição de seu novíssimo longa-metragem, o documentário Criaturas da Mente (foto ao lado), que investiga o sonho como motor da evolução humana, acompanhando o trabalho e a vida do neurocientista e escritor brasileiro Sidarta Ribeiro. Há 20 anos, o cientista estuda os mistérios do sonhar. No filme, Sidarta discorre sobre como os sonhos e outras formas de acesso ao inconsciente podem transformar a experiência humana. Em sua investigação, propõe unir os saberes ancestrais dos povos originários e de origem africana no Brasil ao conhecimento científico, além de uma reavaliação científica das experiências com alucinógenos.
Neste ano, a programação do festival será exibida em três auditórios, incluindo uma estrutura montada ao redor do Cine Brasília - que passa a se chamar Sala de Cinema Vladimir Carvalho, homenageando o veterano e premiado cineasta, morto em 24 de outubro. Vladimir será também objeto de outras homenagens póstumas, assim como a atriz e professora Mallu Moraes e o cineasta paraense radicado em Brasília Pedro Anísio.
Além disso, o festival estende suas atividades a outras três regiões administrativas do Distrito Federal, promovendo exibições de filmes e programação de DJs e bandas especialmente elaborada para as cidades. A 57ª edição chega ao Gama, Planaltina e Taguatinga, unindo-se a parceiros estratégicos nestas RAs – Cia. Lábios da Lua (Gama), o Complexo Cultural de Planaltina e o Centro Universitário Estácio (Taguatinga) – para apresentar programação gratuita entre os dias 30 de novembro e 6 de dezembro.
Antes da exibição do filme de abertura, será entregue o troféu Candango de homenagem à carreira da atriz Zezé Motta, que está completando 80 anos. Em 1975, Zezé venceu em Brasília o prêmio de melhor atriz por Xica da Silva, de Cacá Diegues, um de seus papéis mais marcantes. O filme terá uma exibição especial no domingo, às 19h, no Cine Brasília (Sala Vladimir Carvalho). Além disso, Zezé empresta sua voz poderosa à personagem Titikaba, da animação Abá e sua Banda, de Humberto Avelar, atração em três sessões do Festivalzinho, programação dedicada às crianças.
No encerramento do festival, Lírio Ferreira e Carolina Sá apresentam O Menino d'Olho d'Água (foto abaixo), documentário sobre o mestre do instrumental brasileiro, Hermeto Pascoal, filmado no sertão alagoano, lugar onde nasceu e de onde vem suas primeiras referências sonoras.
Longas da Mostra Competitiva
O veterano Ruy Guerra volta à competição de longas com
A Fúria, a aguardada conclusão de sua trilogia política iniciada com o clássico Os Fuzis (1964) – apresentado em Brasília em mostra retrospectiva de 1975 –, seguida por A Queda (1977) – participante da Mostra Competitiva de 1978. Em A Fúria, codirigido por Luciana Mazzotti, Guerra escala Ricardo Blat no papel antes interpretado pelo saudoso Nelson Xavier, vencedor do prêmio de melhor ator daquele ano.
Outro cineasta que retorna após consagração em edição anterior com filme novo é Sérgio Borges, diretor mineiro que levou o Candango de melhor longa em 2010 por O Céu Sobre os Ombros. Agora, ao lado da diretora Clarissa Campolina (de Girimunho e Canção ao Longe – exibido em 2022), ele divide a direção de Suçuarana, um drama sobre a retirante Dora em busca de trabalho e de uma terra antiga de sua mãe em uma região mineradora, até encontrar um vilarejo repleto de afeto e coletividade.
Também de Minas Gerais, integra a competição de longas a produção indígena Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá, de Sueli Maxakali, Isael Maxakali, Roberto Romero e Luisa Lanna. Trata-se de um documentário protagonizado por uma das próprias diretoras do filme, Sueli, que é arte-educadora da Aldeia Escola Floresta de Teófilo Otoni (MG). O filme relata a sua busca pelo pai, Luis Kaiowá, de quem foi separada pela ditadura militar.
Um título inédito de Brasília é o longa de estreia do diretor brasiliense Guilherme Bacalhao, Pacto da Viola, que reúne um grande elenco local para contar a história de um músico sertanejo que precisa ajudar o pai doente, um capitão de folia que tem uma dívida com
santos e demônios.
A diretora amazonense Christiane Garcia faz sua estreia em longa de ficção com Enquanto o Céu Não me Espera. Estrelado por Irandhir Santos, o filme narra a história de um agricultor que luta contra as dificuldades climáticas em um pequeno sítio afetado pelas cheias dos rios da Amazônia.
Salomé, de Pernambuco, é o segundo longa do diretor André Antônio, que se tornou uma referência do cinema queer brasileiro contemporâneo ao integrar o coletivo Surto & Deslumbramento. Aqui ele narra a história de uma jovem modelo que se apaixona por um rapaz envolvido em uma estranha seita, que cultua a sanguinária princesa bíblica Salomé.
O júri que premiará os longas é formado por Affonso Uchôa, Carina Bini, Heitor Augusto, Mariana Nunes e Sandra Kogut.
O festival formou, ainda, o júri do Prêmio Zózimo Bulbul, a conferir os troféus para os melhores filmes com temática afirmativa. Montado a partir de indicações do Centro Afro Carioca de Cinema e da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro - Apan, este júri é composto por Aristótelis Tothi, Vitor José Pereira e Larô Gonzaga.
Curtas da Mostra Competitiva
O cinema candango conta com três filmes na disputa: Inflamável, do diretor estreante Rafael Ribeiro Gontijo; Descamar, dirigido pelo escritor, professor e curta-metragista premiado da produtora relatar-se, Nicolau; e o novo documentário da veterana cineasta e professora de cinema Dácia Ibiapina sobre o saudoso mestre quilombola Nêgo Bispo, Confluências.
De São Paulo, Javyju - Bom Dia, marca a estreia da cacica Kunha Rete, que divide a direção com Carlos Eduardo Magalhães (Palavra Cantada 3D), numa ficção científica futurista situada em uma aldeia Guarani. E, de Minas Gerais, Mãe de Ouro, de Maick Hannder, apresenta uma ficção sobre a superação do luto
Representantes do Rio de Janeiro, Yuri Costa traz sua perspectiva afrossurrealista para uma viagem às festas black dos anos 1970 no drama E Seu Corpo é Belo, enquanto a dupla Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro apresentam o documentário Dois Nilos, que celebra o cinema negro brasileiro com um passeio pelas memórias do cineasta Afrânio Vital.
A região Norte está representada com a nova produção do realizador e professor Antonio Fargoni, que idealizou o movimento do Cinema Instantâneo, estilo presente neste curta de ficção de Rondônia, E Assim Aprendi a Voar.
O Sul está representado por duas produções. Uma de Santa Catarina, Kabuki, única animação da competição, realizada em stop motion pelo premiado quadrinista e curta-metragista Tiago Minamisawa. E a outra do Rio Grande do Sul, Chibo. Dirigido por Gabriela Poester e Henrique Lahude, o documentário investiga a travessia clandestina de mercadorias de uma família que mora na fronteira entre Brasil e Argentina.
Do Nordeste vem os curtas Maremoto, de Cristina Lima e Juliana Bezerra, do Rio Grande do Norte, e Mar de Dentro, de Lia Letícia, de Pernambuco. No curta potiguar, as diretoras contam a história de uma filha de pescador frustrada que assume o desafio de fazer um mergulho em alto-mar para resgatar um tesouro. Na produção pernambucana, a diretora e artista visual realiza uma performance poética permeada pela história política de Preto Sérgio, um ex-detento preso injustamente ainda menor de idade em Fernando de Noronha.
O júri da categoria é composto por Lila Foster, Mirella Façanha, Paola Malmann, Simone Zuccolotto e Thiago Costa.
SERVIÇO
57º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO
Data: 30 de novembro a 7 de dezembro de 2024
Locais: Cine Brasília (106/107 Sul), Complexo Cultural de Planaltina, Taguatinga e Gama.
Ingressos da Mostra Competitiva Nacional a R$ 20,00 e R$ 10,00, à venda na bilheteria do Cine Brasília duas horas antes de cada sessão. Demais exibições com entrada franca.
Programação completa no site.
