24/06/2026

Provocativo e em plena forma, Ruy Guerra dispara seu petardo político em “A Fúria”

Brasília - Do alto de seus 93 anos, 70 de carreira, o cineasta Ruy Guerra fechou em grande estilo a competição de longas do festival, trazendo seu aguardado A Fúria, drama político que encerra uma trilogia iniciada em 1964 com Os Fuzis, prosseguindo com A Queda (1976).

Dividindo a direção com Luciana Mazzotti, o veterano diretor, um dos últimos representantes vivos do Cinema Novo, resgata personagens dos filmes anteriores, um deles, Mário, que era então interpretado por Nelson Xavier - que morreu em 2017. Vivido agora por Ricardo Blat, aquele ex-militante que era dado como morto ressurge literalmente das entranhas da terra para promover sua vingança contra os responsáveis por sua tortura e quase morte: Feijó (Daniel Filho), um ex-companheiro comunista e traidor, agora presidente da Câmara dos Deputados, e Salatiel (Lima Duarte, repetindo seu papel dos filmes anteriores), empresário e financiador das campanhas de Feijó.

No momento, Feijó e Salatiel armam um complô para impedir a instalação de uma CPI das terras indígenas, que exporia negócios escusos do empresário. Do outro lado, está a deputada da oposição Petra Machava (Grace Passô), que lança uma candidatura concorrente para disputar a presidência da Câmara e luta para instalar a CPI.

Petra é uma das três figuras femininas importantes na história, ao lado da neta de Salatiel, Laura (Simone Spoladore), e de Monalisa (Lux Nègre), uma guerreira trans que luta, armada, nas periferias.

Presença indígena

A questão indígena é crucial, não só pela CPI iminente quanto pela participação de Palavra (Urutau Guajajara), responsável pela salvação de Mário e também o disparador de uma flecha de alcance planetário, que tem sentido metafórico mas também literal, ferindo mortalmente o presidente fascista e ultranacionalista.

Imagens dessa sequência que mostra o presidente sendo atingido, aliás, haviam vazado do set em julho de 2022, ainda no governo Bolsonaro, provocando manifestação do então ministro da justiça, Anderson Torres, no sentido de abrir um inquérito. Na época, a produção do filme divulgou nota destacando que as imagens haviam circulado “fora de contexto”.

Evidentemente, o filme não endossa qualquer forma de defesa de violência política, mas as semelhanças do presidente ficcional são evidentes a partir de seu visual, quase idêntico ao do ex-presidente, visto em motociatas e emitindo slogans como “Deus, Pátria e Família” e “vamos acabar com a vermelhada”. Ao final dos créditos, ainda que colocados os habituais dizeres “qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais será mera coincidência”, o público presente ao Cine Brasília certamente vislumbrou a semelhança e teve uma reação catártica, aplaudindo entusiasticamente a cena, assim como o filme, ao final.

Com militares e Supremo

Certamente, seria muito redutor limitar uma análise do filme a essa cena, certamente provocativa, mas não se pode ignorar que o roteiro, assinado por Guerra, Mazzotti, Leandro Saraiva e Pedro Freire, vai muito além disso. A Fúria se constrói como uma parábola política que mergulha nas entranhas dos próprios mecanismos que sustentam a sociedade brasileira, não se esquivando de incluir na história um general (Roberto Frota) e um juiz do Supremo (Orã Figueiredo), sempre atuantes em maquinações que visam à manutenção no poder nas mãos da elite de sempre.

Num filme dessa complexidade, elaborado ao longo de três anos, destaca-se também a fotografia excepcional de outro veterano, Luis Abramo - responsável pela construção de uma atmosfera expressionista, com seus claro-escuros, enquadramentos eventualmente deformantes e movimentos frenéticos. A montagem, assinada por Mair Tavares, Daniel Garcia e Renato Vallone, consolida essa sensação de vertigem à beira do abismo que o filme provoca, além de outras múltiplas sensações e reflexões. Não é pouca coisa também trazer a bordo atores que já nos deixaram, caso de Paulo César Pereio e Antônio Pedro, brilhando na tela pela última vez.

Uma boa notícia é que o filme tem distribuição assegurada pela Pandora, o que significa que, em breve, deverá ter o encontro com o público de que ele tanto precisa. A premiação do festival, nesta noite de sábado, também se espera que deva contemplar um filme dessa magnitude e relevância.

Assista ao trailer do filme "A Fúria"

Curtas

Duas produções cariocas fecharam a última noite competitiva. O documental Dois Nilos, de Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro, resgata a figura do cineasta Afrânio Vital, que amarga um imerecido esquecimento, tendo assinado títulos como Os Noivos (1979), A Longa Noite do Prazer (1983) e O Estranho Jogo do Sexo (1984). Admirado por Carlão Reichenbach, com quem seu cinema se comunicava, Afrânio é visto caminhando pela Cinelândia, no centro velho do Rio, lembrando os cinemas de rua que ali existiam e comentando o que ele descreve como uma “caminhada entre escombros” na memória do cinema brasileiro.

Seu Corpo é Belo, de Yuri Costa, embala-se nos ritmos da soul music dos anos 1970 para acompanhar as idas e vindas do romance entre Carlos e Tony (João Pedro Oliveira e Paulo Guidelly). A história encharca-se de outras influências, rememorando as festas black dos subúrbios cariocas, também incorporando um toque de fantasia/terror.