24/06/2026

Brasília abre espaço para o cinema queer e sensual

Brasília - Representante de um cinema queer que combina uma estética de filme de gênero (sci-fi/terror) com pitadas de melodrama almodovariano, o longa pernambucano Salomé (foto ao lado),
de André Antonio, ocupou a tela do Cine Brasília com uma alta carga de colorido e sensualidade.

Existe até uma cena de sexo bastante franca entre os protagomistas, a modelo Cecília (Aura do Nascimento), e o jovem michê/traficante João (Felippy Sizernando). Mas se há uma coisa que o filme procura e realiza é a normalização da presença de personagens trans em papéis que tradicionalmente foram atribuídos a pessoas cis, como o da mãe (Renata Carvalho) e da tia de Cecília (Dany Barbosa). Essa saudável provocação é também uma das muitas funções do filme, que além disso busca expressar um universo onde realidade e fantasia se tocam.

Cecília há tempos abandonou Recife para abraçar uma bem-sucedida carreira de modelo em São Paulo, o que havia causado uma ruptura com a mãe, uma pessoa conservadora e religiosa. De volta a casa para as festas de fim de ano, Cecília reencontra João, que ela conhecia desde garoto, e que agora está envolvido com o tráfico de uma substância verde que, aspirada, provoca sensações alucinógenas.

O desejo pela droga mistura-se ao da sexualidade, crescendo entre Cecília e João uma relação intensa na qual ambos depositam expectativas diferentes - e aí não entra simplesmente um aspecto romântico. A obtenção da substância depende de uma estranha seita que cultua a volta da personagem bíblica Salomé, a princesa da antiguidade que, rejeitada pelo profeta Iokanaan (depois, São João Batista) exigiu sua cabeça numa bandeja.

Integrante do coletivo Surto & Deslumbramento, o diretor André Antonio estreou em longas com A Seita (2015), também de inspiração sci-fi. Neste seu segundo longa, ele declara ter a intenção de discutir mais amplamente a própria sexualidade. “O sexo em geral é muito higienizado no nosso cinema, inclusive no cinema independente”, declarou no debate do filme, nesta manhã de sexta (6).

Essa procura de uma sexualidade mais aberta e explícita criou inclusive uma dificuldade maior na captação de recursos para o projeto, que começou a ser idealizado em 2015 e atravessou os governos Temer e Bolsonaro, hostis à cultura em geral, além da pandemia.

Quanto a inspirações, o diretor conta ser influenciado especialmente pelo cinema queer dos anos 1970, por cineastas como Kenneth Anger, Paul Morrison, Andy Warhol e Pier Paolo Pasolini. Antonio lembra, inclusive, que nas obras de Warhol e Morrison naquela época, inclusive, já apareciam mulheres trans e travestis ocupando papéis que haviam sempre sido de pessoas cis, uma fluidez que lhe interessa agora para realizar o que ele define bem humoradamente como “terrorismo de gênero”.

Curtas

Na noite que registrou a passagem dos curtas mais bem-realizados até agora, foram exibidos Descamar (foto ao lado), de Nicolau (DF), e Kabuki, de Tiago Minamisawa (SC) - este último, a única animação da seleção.

A identidade trans entrou de permeio pelos dois curtas, dentro ou fora da tela. No caso de Descamar, pela identidade do diretor, mas não na temática. O filme materializa, de maneira muito criativa, as fantasias de uma garota, Gabi, no dia em que desce sua primeira menstruação. Ela se imagina coberta de sangue e também fantasia todas as fases da vida socialmente esperadas de uma mulher, o que ela agora também é, visualizando-se como executiva, noiva e mãe. Isto é feito com recursos visuais e com uma bem-vinda camada de humor.

No caso de Kabuki, uma requintada animação, resultado de nove anos de trabalho em coprodução com a França, a transexualidade está na própria protagonista, uma figura oriental em busca de uma nova identidade sexual, que recorre à troca de várias máscaras,, inspirações das artes japoneses do kabuki, butoh e teatro nô, e experimenta uma transformação física de várias fases, com um toque fantástico.

O diretor Minamisawa, aliás, tem uma trajetória vencedora na animação, tendo dirigido o multipremiado Sangro (2019). Já Kabuki é dedicada a Valéria Rodrigues, uma ativista trans de Francisco Morato, em São Paulo, que foi consultora do roteiro e morreu de covid 19. Além disso, encerra o filme um letreiro lembrando as mortes de pessoas trans no Brasil, alegadamente o país que mais mata essas pessoas no mundo.