Irandhir Santos protagoniza longa sobre tragédia ambiental na Amazônia
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 05/12/2024
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Brasília - Quarta-feira foi o dia do cinema do norte do País ocupar a tela do Cine Brasília - Sala Vladimir Carvalho, com o longa Enquanto o Céu não me Espera, de Christiane Garcia, uma produção do Amazonas, e o curta E Assim Aprendi a Voar, de Antonio Fargoni, proveniente de Rondônia.
No longa amazonense, a presença do carismático intérprete pernambucano Irandhir Santos à frente do elenco imanta a tela. O premiado ator de filmes como Tatuagem, Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo e O Som ao Redor interpreta Vicente, um modesto agricultor que, junto com a mulher, Rita (Priscilla Vilela), e três filhos, sobrevive a duras penas do plantio ingrato da juta. Mas as chuvas torrenciais e as cheias fora de controle ultimamente tem destruído sua lavoura e devorado seus ganhos - e a família já sobrevive na precariedade, dependente de um patrão que sonega direitos básicos, mantendo seus dependentes submetidos a um regime de virtual semi-escravidão.
O filme é muito sensorial, elegendo como cenário dominante a pequena casa de madeira da família, que será paulatinamente invadida por essas águas que não páram de subir, aniquilando o ânimo de todos os moradores. Incapaz de convencer o marido a deixar o lugar, Rita sucumbe ao domínio de uma seita evangélica, particularmente abalada depois de uma tragédia com um dos filhos.
Anjo improvável
Uma figura ambígua, que talvez pudesse ter sido mais bem delineada no roteiro, também de autoria da diretora, é a de Gesiane (Ágatha Dinelli), uma jovem prostituta cujas intervenções equivalem às de um anjo improvável neste cenário de desolação. Com experiência na área documental, com obras como 14 de Janeiro, Terra, Samba e Santo (2011) e a série Gleba - Chão de Marias (2018), a diretora, em seu primeiro longa de ficção, optou por um rigoroso apego a um estudo de personagem, centrado neste protagonista masculino obcecado por pulsões nem sempre muito claras, ligadas à sua própria história familiar, simbolizada por um retrato de seus pais.
Se é verdade que o filme coloca com muita propriedade em primeiro plano a questão ambiental, em que os ciclos da natureza estão sendo alterados por um manejo predatório, também poderia ter sido explorado mais incisivamente o aspecto mais diretamente político referente às condições de trabalho desta família. E fica a cargo de Irandhir Santos, sempre um ator muito envolvente, ocupar todo o espaço dramático, num filme em que a própria abundância da água torna-se um elemento de destruição - além de certamente ter oferecido desafios técnicos aos responsáveis pelo som direto (Ju Baratieri) e pela fotografia (Raul Tambke).
Curtas
E Assim Aprendi a Voar, de Antonio Fargoni, retrata, em ficção mas muito realisticamente, o cotidiano de Guilherme Sussuarana, um jovem paraplégico. Tendo perdido seu emprego num museu, ele percorre a cidade de Porto Velho em busca de uma nova colocação, em trajetos que deixam claros os obstáculos, físicos ou não, que obstruem sua tentativa de uma vida o mais possível próxima da normalidade. Nesse contexto, a procura de realizar um pequeno filme doméstico com seu celular torna-se uma façanha de respeitáveis proporções.
O outro curta da noite foi o drama mineiro Mãe do Ouro, em que o diretor Maick Hannder ficcionaliza o contexto de um feminicídio ocorrido há anos em sua própria família. A protagonista é Tiana (Carlandréia Ribeiro), uma mulher que tenta lidar com o assassinato de sua irmã, morta pelo marido, que é seu cunhado.
