24/06/2026

Documentário recupera memória de abusos contra indígenas na ditadura

Brasília
- Uma história dolorosa de separação numa família indígena por conta da ditadura militar ocupa o centro do documentário mineiro Yõg Ãtak - Meu Pai, Kaiowá, dos diretores Sueli Maxakali e Isael Maxakali, com codireção de Roberto Romero e Luisa Lanna. Além de resgatar a memória de deslocamentos forçados e efetiva escravização de indígenas durante o período 1964-1985, o filme insere também o contexto da atual luta contra o Marco Temporal, um dos assuntos candentes do País neste momento.

Há cerca de 50 anos, em plena ditadura, Luís Kaiwoá, então uma criança, acompanhou seu irmão mais velho do Mato Grosso para Minas Gerais. Eram órfãos em busca de sobrevivência e ali radicaram-se numa comunidade Maxakali. Luís teve três filhas com uma mulher Maxakali, uma delas, Sueli, diretora do documentário. Tempos depois, uma intervenção militar em Minas Gerais provocou novo deslocamento de Luís, que voltou à região de sua comunidade originária, no sul matogrossense. Aí, junto com outros indígenas, foi impedido de voltar e obrigado a prestar serviços diversos, sem salário e sobrevivendo dos restos de comida dos não-indígenas. Além disso, apesar de inúmeras tentativas de obter seus documentos, isto lhe foi sempre negado.

Esta separação forçada marcou indelevelmente a vida desta família. Por isso, é comovente a cena inicial do filme, em que Sueli reúne seus filhos e netos diante da câmera para apresentá-los um a um a este pai com quem procura recuperar o contato.

Idiomas originários

Falado nos idiomas originários, o filme é um retrato eloquente das cicatrizes que marcam as comunidades indígenas brasileiras, com estes deslocamentos forçados que estão por trás da expulsão de vários povos de seus territórios. O documentário menciona, inclusive, as recentes retomadas desses territórios, empreendidas hoje por povos como os Maxakali e os Guarani-Kaiowá, e que estão no centro da discussão do Marco Temporal - que tenta fixar em 1985 a data-limite em que os povos originários deveriam estar em suas terras para poderem reivindicar sua propriedade. Como o filme demonstra, muitos deles haviam sido impedidos de estar em suas terras pela violência política do regime autoritário.

Dessa forma, o esperado reencontro entre pai e filha e o restante da família torna-se um símbolo de um processo de reparação do qual os povos indígenas em geral, além da nação como um todo, estão tão necessitados.

O quarteto de diretores tem, aliás, bastante estrada na temática indígena, estando envolvidos, em diferentes funções, nos filmes Quando os Yâmiy Vêm Dançar Conosco (2011), Yãmiyhex: as Mulheres-Espírito (2019)
e Nuhu yãgmu yog hãm: Essa Terra é Nossa (2020).

Curtas

Na seção de curtas da competição, outro documentário, Confluências, da cineasta e professora Dácia Ibiapina, resgata a cultura quilombola através da figura do mestre Antônio Bispo. O filósofo e ativista piauiense, falecido há um ano, é visto em cena durante a comemoração de seu sexagésimo aniversário, cercado de seus filhos e amigos, no quilombo Saco-Curtume, na zona rural de São João do Piauí, onde ele morava. O curta é um registro vivo do modo de vida comunitária do lugar, de onde emanavam as reflexões do pensador, que se tornou bastante conhecido por suas lives durante a pandemia.

Mar de Dentro, de Lia Letícia (PE), recupera de forma breve e por meio da performance a figura de Preto Sérgio, um jovem negro insubmisso que resistiu a abusos judiciais através de várias fugas de uma prisão, que nos anos 1940 ficava em Fernando de Noronha.