24/06/2026

Futurismo, política e realismo mágico marcam filmes de Brasília e São Paulo

Brasília - A segunda noite competitiva no festival reuniu duas produções brasilienses, o curta Inflamável (foto), de Rafael Ribeiro Gontijo, e o longa Pacto da Viola, de Guilherme Bacalhao, origem que, por si só, já basta para lotar os 600 lugares do Cine Brasília - Sala Vladimir Carvalho.

As imagens iniciais do curta Inflamável são promissoras, provenientes que são das câmeras de segurança interna do Palácio do Planalto, documentando os danos sofridos pelos tumultos de 8 de janeiro de 2023 - um tema, aliás, ainda pouco abordado pelo cinema nacional até aqui. Na narração, ouve-se a voz da mãe do protagonista, o bombeiro Carlos (Eduardo Gorck), que está voltando às suas funções depois de uma suspensão justamente por ter participado do quebra-quebra.

A opção do roteirista e diretor é mergulhar na mente desse personagem, que envereda num processo de enlouquecimento, mediante ações bizarras como tentar atear fogo a um automóvel. No debate do filme, nesta manhã, o diretor explicou que o filme começou a ser desenvolvido bem antes do 8 de janeiro, já como um estudo de personagem, uma pessoa marcada por raiva e ressentimento com que ele não consegue lidar adequadamente - assim como seu próprio desejo, como fica claro numa cena numa balada. Posteriormente ao quebra-quebra em Brasília, houve a escolha de incorporar esses incidentes como mais uma situação em que o personagem pudesse estar envolvido.

Indagado sobre os rumos do personagem na história, que se afastam de uma colocação mais diretamente política, Gontijo explicou que havia “uma vontade de olhar para esse tipo de personagem, mas sem classificá-lo tão claramente como um bolsonarista”. Para ele, os motivos de ele ter estado lá são incertos. E, para a montadora Marisa Mendonça, “num filme de personagem, as próprias minúcias dele já são por si políticas”.


Pacto com o demônio

Longa de estreia do produtor Guilherme Bacalhao, Pacto da Viola ambienta-se em Urucuia, interior de Minas Gerais, uma região de agronegócio e criação de gado. Ali vive Alex (Wellington Abreu, habituê dos filmes de Adirley Queiroz), um violeiro frustrado, que queria ter o talento de seu pai, Lázaro (Sérgio Vianna), mas não consegue engatar uma carreira. Sobrevive, assim, de empregos esporádicos nas fazendas da região, assim como a prima Joice (Gabriela Corrêa), uma jovem mais independente que sonha em sair dali.

No roteiro, assinado pelo diretor, Roberto Robalinho e Aurélio Aragão, há um flerte permanente com o filme de gênero, numa tentativa sutil de realismo mágico. Quando Alex volta para a casa do pai devido à doença dele, ele toma conhecimento dos rumores de que Lázaro teria, anos atrás, feito um pacto com o diabo, que lhe garantiu uma carreira de sucesso mas também estaria por trás do desaparecimento de sua mulher, mãe de Alex.

No filme, tenta-se jogar com a ambiguidade de Alex em optar pelo mesmo caminho sobrenatural, mas este é um rumo inseguro, conduzido sem tanta ênfase pelo diretor. Na coletiva do filme, Bacalhao explicou que o projeto começou em 2021 dentro de uma perspectiva documental, um tom que foi sendo deixado de lado ao longo do caminho. Houve diversas consultorias de roteiro, diversas versões, e também pesquisas, como um artigo de um antropólogo, que guiaram a narrativa a esta versão final.

O próprio esboço de crítica social, quando se retrata as condições precárias de trabalho nas fazendas, inclusive do ponto de vista de segurança sanitária - Joice trabalha com aplicação de agrotóxicos de uma maneira que ela mesma sabe que é perigosa - acabaram não sendo exploradas às últimas consequências. O diretor explicou que não se procurou retratar esse agronegócio que domina a região do sertão mineiro “como o mal”, ainda que admitindo ações negativas, como se apropriarem do rio local, fecharem porteiras e estabelecerem relações de trabalho muitas vezes exploratórias. Bacalhao comenta que procuraram manter essa idéia do mal que permeia o roteiro mais dentro do contexto da fé, já que as histórias de pactos com o diabo povoam o imaginário dos moradores da região e aparecem em muitas das conversas que mantiveram com eles - inclusive em relação à própria manifestação da tradicional Folia de Reis, que faz parte da história.

Universo indígena
O outro curta da competição foi a produção paulista Javyju - Bom dia, dos diretores Kunha Rete e Carlos Eduardo Magalhães. Kunha Rete é cacica e esta é sua estreia na direção. Carlos, por sua vez, tem a seu crédito Palavra Cantada 3D e o premiado Ara Pyau - Primavera Guarani. Neste novo curta, imagina-se-se um futuro próximo, em que a Terra foi destruída. Neste contexto, sobreviveram os povos indiígenas, que foram protegidos por seus seres encantados. Alguns jovens da aldeia Guarani do bairro paulistano do Jaraguá recebem do pajé a missão de retornar às ruínas do que foi a cidade de São Paulo, em busca de respostas que possam indicar medidas para o futuro imediato.