05/06/2026

Na mostra competitiva, diretor capixaba estreia com documentário de alta voltagem emocional

Ouro Preto - O festival abriu a Mostra Contemporânea Competitiva, que acontece pela primeira vez nestes 20 anos do evento, com dois documentários bastante diferentes em seu estilo e intenções.

Vindo do Espírito Santo, Meu Pai e Eu, primeiro longa de Thiago Moulin, atinge uma alta voltagem emocional nesta história profundamente dolorosa de um filho, o diretor do filme, procurando compreender a figura de um pai problemático depois de sua morte trágica. Um material chave neste esforço é uma mala, deixada pelo pai, que ficou 10 anos guardada, intocada pelo filho, sem coragem de confrontar o que poderia emergir dali. Outros dez anos, segundo o diretor na apresentação da sessão, foram consumidos no exame do material encontrado na mala, compreendendo diversas fotos e, especialmente, textos escritos ao longo de vários anos.

Esses escritos, anotados em cadernos de diversos tipos e, eventualmente, em pedaços esparsos de papel, denotam a agitação interior que tomava conta desse homem, José Luiz Moulin Ribeiro, e funcionam como pistas de decisões e escolhas que ele tomou ao longo da vida e que são agora objeto de conversas entre o filho, seu irmão, a mãe e alguns tios.

É o tipo do documentário confessional em que a identificação, pelo tema familiar, cala fundo sobre os espectadores, percorrendo camadas pela avaliação do imenso esforço do realizador por aprofundar sua compreensão sobre alguém tão próximo e, ao mesmo tempo, tão fugidio, em suas contradições.

A fotografia contrastada acentua o tom sombrio que acompanha o percurso neste mergulho em capítulos dolorosos da própria história mas em que demonstra, igualmente, uma intenção do diretor de emergir, não repetindo a trajetória do pai quando ele mesmo está diante da perspectiva da paternidade.

Anteriormente, Thiago Moulin assinou a produção executiva de outro documentário bastante premiado, Toda Noite Estarei Lá, das diretoras Suellen Vasconcelos e Tati Franklin - esta última, aliás, a segunda montadora deste documentário de Moulin.

Assista ao trailer de "Meu Pai e Eu"

Fantasmas de uma cidade

Também na competição, o documentário Itatira, de André Luís Garcia (SP), procurou captar o ambiente da pequena cidade do interior cearense onde, há alguns anos, a morte acidental de um garoto desencadeou uma onda de eventos misteriosos - como a suposta visão do rapaz morto por seus colegas nos corredores da escola municipal onde era aluno.

Sem pretender dar uma palavra final sobre os acontecimentos, que permanecem nebulosos, o filme reeúne depoimentos de diversos moradores, ex-alunos da escola e uma psicóloga.

Materiais de arquivo, como reportagens de TV, dão conta do clima de histeria que tomou conta da cidade, que tem hoje cerca de 18 mil habitantes, onde alunos da escola passaram mal, num fenômeno semelhante a uma histeria coletiva que chegou a ser tido como possessão, culminando na visita de um padre parapsicólogo que alguns pensavam ser um exorcista.

Complementando o perfil do local, capta-se também uma amostra da vida rural, de uma cidade isolada em que pinturas rupestres numa caverna dos arredores, que aparecem nos desenhos das crianças locais, e uma festa de bumba meu boi com figuras mascaradas estranhas também descrevem um ambiente peculiar.

Nem por isso o documentário lida muito bem com essa incerteza que está no seu centro, perdendo a oportunidade de tomar algumas direções e explorar melhor falas de entrevistados - como as da psicóloga, que parece uma das pessoas que melhor acompanhou toda a situação e de uma ex-aluna que a vivenciou.