05/06/2026

Diretoras de gerações diferentes debatem o humor segundo as mulheres

Ouro Preto - Comemorando sua 20ª edição, a CineOP, uma mostra de cinema centrada nos temas da preservação, educação e patrimônio, colocou em destaque como tema deste ano o humor das mulheres. Materializando a opção, a mostra homenageia a atriz Marisa Orth, além de realizar diversas rodas de conversas com atrizes, roteiristas e diretoras sobre o assunto.

Inaugurando este ano uma mostra competitiva de longas brasileiros - que começa hoje (27), com a exibição dos documentários Itatira, de André Luís Garcia, e Meu Pai e Eu, de Thiago Moulin - a CineOP vai até segunda (30/6).

Da esquerda para a direita - Gisela de Mello, Clara Anastácia, Biarritzzz, a curadora Juliana Gusman, Sabrina Fidalgo, Fernanda Chicolet e Sandra Kogut |Crédito: Neusa Barbosa

Múltiplas experiências

Na roda de conversa Elas Dirigem o Riso - Parte I, nesta manhã, as experiências de diretoras de diferentes gerações se complementaram.

Com seu curta de estreia de 1995, Lá e Cá, tendo sido exibido na noite de abertura, na quinta (26), Sandra Kogut destacou a importância de um dos aspectos centrais deste festival ao definir que, a seu ver, “!preservação é circulação” - como a própria exiibição de seu curta de 30 anos atrás vem demonstrar.

A cineasta carioca lembrou que, na época da realização do filme, “era tudo muito masculino (no cinema), não só o humor”. Recordou que ela mesma entrou na área “pela janela, pois vinha do vídeo, da experimentação. O cinema era uma coisa mais ritualizada. Primeiro você começava como assistente de direção e vinha seguindo”.

Outro obstáculo foi ela ter começado no cinema numa época em que, no Brasil, “ele tinha acabado”, por conta da extinção súbita da Embrafilme pelo governo Fernando Collor, em março de 1990. Ela mesma só conseguiu realizar o filme pois tinha obtido uma bolsa de uma fundação norte-americana por seu trabalho de experimentação.

Dentro desse contexto nacional restritivo, havia poucos festivais onde pudesse tentar sua exibição, caso de Gramado - em que o filme foi recusado já na pré-seleção. Dentro desse panorama sombrio, Sandra ganhou um aliado de peso e inesperado em Cacá Diegues que, tendo assistido a Lá e Cá, indignou-se com a recusa, escrevendo uma carta para um jornal, o que despertou a curiosidade para a obra - que acompanha a jornada de uma jovem (Regina Casé), moradora de subúrbio no Rio, que se sente dividida entre a vontade de ficar num lugar onde ela domina as referências e a fantasia de, como uma amiga, ir para a zona sul da cidade. Cheia de imaginação, a personagem fantasia as histórias das pessoas que ela vê na linha do superlotado trem suburbano.

Mesmo hoje já veterana e premiada por longas como Um Passaporte Húngaro, Mutum e Campo Grande, Sandra se define como “uma outsider profissional”. Em cada novo projeto, ela diz: “Eu sempre parto desse “lugar nenhum’ e acho que vou aprender como sair dele”.

Memes e desastres

Já a paulista Fernanda Chicolet, diretora e atriz do curta Demônia - Melodrama em 3 Atos (2016), ao lado de Cainan Baladez, contou que o filme nasceu de um meme, assunto em que ela mantinha uma pesquisa. Desde então, o filme, que estreou no Festival de Brasília, veio repercutindo, tendo-se tornado, inclusive, tema de estudos na universidade.

Sabrina Fidalgo, diretora do curta Alfazema (2019), também lançado no Festival de Brasília desse ano, descreveu o inusitado processo de realização do filme. Com baixíssimo orçamento, que garantia sua realização em apenas numa diária, ela viu todo o projeto ameaçado quando um acidente com a dona da casa onde o filme era feito colocar tudo em risco. Sem possibilidade de continuar a filmagem, ela salvou o projeto na montagem, transformando-o “na tentativa de fazer um filme”.

A ousadia compensou. Estrelado por Elisa Lucinda, Bruna Linzmeyer, Shirley Cruz, Bianca Joy Porte e a própria Sabrina, Alfazema ganhou os prêmios de melhor direção e trilha sonora em Brasília e melhor filme para o júri popular do Curta Cinema do Rio.

Estética de baixa resolução

Única realizadora nordestina da roda de conversa, Biarritz, cearense radicada primeiro em Recife, agora em Salvador, Biarritzzz, autora do também premiado curta Onde Está Mymye Mastroiagnne? (2024), defendeu a “estética da baixa resolução” - uma ferramenta particularmente útil ao humor, que ela descreve como um caminho “para chegar aos lugares onde a militância só não consegue”. O filme é uma ficção sobre uma personagem real do bairro do Pina, no Recife, uma cabeleireira que tem uma outra identidade no Second Life, criando uma aventura nessa espécie de metaverso. O filme foi premiado no Janela de Cinema de Recife, no Cinemarias e selecionado para o Festival de Tiradentes e o Festival Internacional de Curtas de São Paulo.

Melodrama decolonial

A carioca Clara Anastácia, diretora, roteirista e atriz do premiado curta Escasso (2022), por sua vez, contou que o filme nasceu de uma pesquisa sobre o tema do melodrama decolonial - a partir do qual foi elaborado este criativo roteiro, centrado numa peculiar personagem (interpretada pela próoria Anastácia), uma passeadora de cachorros que ocupa uma casa vazia, de onde a dona aparentemente partiu, elaborando seus pensamentos sobre a vida para uma equipe de TV, num tom de mockumentary.

Anastácia, como ela prefere ser chamada, leu um texto sobre o tema do debate - comentando que se expressa melhor escrevendo do que falando - em que defende o riso “como um caminho de encantamento” e a necessidade de “ressignificar o riso”. Invocando a referência das religiões afro-brasileiras, ela, que é uma cineasta negra, afirmou também: “Se Exu gargalha é porque é nosso direito ancestral”.

Thelma & Louise

Outra carioca, Gisela de Mello, diretora de Célia & Rosita (2000), lembrou que seu curta inspirou-se num filme de bastante sucesso de 1991, Thelma & Louise, de Ridley Scott, só que num registro debochado. Ela também se valeu de vários materiais do Arquivo Nacional, como imagens documentais do mineiro Humberto Mauro.

Para sua surpresa, um filme que ela acreditava ser de compreensão restrita ao público brasileiro, fez sucesso no exterior, sendo bastante premiado fora do país e vendido a diversos canais estrangeiros.