Valter Hugo Mãe, entre a literatura e o cinema
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 29/10/2025
- Tempo de leitura 14 minutos
Valter Hugo Mãe, um escritor no cinema
“Eu me senti como uma estrela de cinema. Todas minhas vontades eram atendidas. Queria comer uma sopa, alguém aparecia com uma sopa. Era muito bom, e senti falta quando acabou”, brinca o escritor angolano Valter Hugo Mãe ao ser perguntado como foi ser seguido por uma equipe de cinema ao longo de sete anos. Ele não pode ser uma estrela de cinema, mas é uma espécie de estrela da literatura de língua portuguesa contemporânea, como bem mostra o filme De Lugar Nenhum.
E isso não é demérito. Por onde passa – não apenas países lusófonos –, Valter é querido, paparicado e admirado por seu público. O filme, que o diretor Miguel Gonçalves Mendes prefere não chamar de documentário, é a prova desse amor do público. Tanto amor, que, neste ano, o escritor é uma espécie de estrela da 49a Mostra – não apenas assina a arte do pôster do festival, como está ligado a dois filmes: além de De Lugar Nenhum (foto abaixo), também O Filho de Mil Homens, baseado em um de seus livros mais famosos, e adaptado pelo brasileiro Daniel Rezende, com Rodrigo Santoro no papel principal.
Mendes, que tem no currículo José e Pilar, sobre José Saramago e sua mulher, a jornalista Pilar del Rio, prefere dizer que seu filme é um retrato de Valter de forma impressionista, acompanhando realidades, e “evitando se tornar algo pedagógico, biográfico. Creio que a televisão, por exemplo, é um veículo muito mais apto para isso. O cinema permite que a narrativa transite entre diversos modos. No fundo, é uma jornada do herói muito bem contada.”
Valter se recorda quando, há mais de 10 anos, o cineasta o procurou. Eles nem se conheciam, e o escritor achava que seria uma conversa sobre algo circunstancial. “E, no fim, passamos anos juntos, nos tornamos amigos. Quando ele me disse que queria fazer um filme comigo, eu jamais iria recusar estar num filme dirigido pelo diretor de José e Pilar. Era uma honra estar numa obra desse homem que faz filmes lindos.”
O filme faz parte de um projeto maior, chamado O Sentido da Vida, no qual o cineasta trabalha há mais de dez anos, retratando figuras públicas contemporâneas. “Tínhamos milhares de horas filmadas, acompanhando o Valter, mas reduzimos a 80 minutos, deixando o que realmente importava: mostrar como é a vida de um escritor nos dias de hoje.”
E a vida de um escritor nos dias de hoje, como mostra o longa, é bem animada. Valter é muito divertido. Na entrevista, está sempre de bom humor, faz piadas consigo mesmo, e sempre tem uma boa sacada nas respostas. Perguntado se esqueceu que havia uma câmera filmando-o o tempo todo, ele se sai com: “Claro, não dá pra fingir, atuar a todo momento. Não tinha como passar sete anos escondendo a minha barriga.”
E estava confortável o tempo todo? “Sim, quase todo o tempo. Apenas numa visita a uma mãe de santo, no Brasil, eu fiquei um pouco preocupado com o que ela iria dizer. Eu sou muito envergonhado
e educado, não sabia como reagir ao que ela diria. Foi o único momento do filme em que estava sem tapete no chão.” O resultado, como se vê, é uma cena bastante bonita. Valter explica que, quando topou participar do longa, resolveu se empenhar ao máximo, pois “já que estamos investindo tempo e esforços nisso, tem de ser o melhor possível.”
Até seus amigos e familiares gostaram do projeto, “tanto que queriam aparecer o tempo todo no filme, perguntavam onde estava a equipe. E eu dizia: o filme é sobre mim, não é sobre vocês”, diverte-se.
Quando Mendes pergunta se De Lugar Nenhum é muito diferente de José e Pilar, “pois muita gente diz que é, e outras pessoas dizem que não,” Valter aponta: “Eu acho que aquele filme é sobre uma vida que estava chegando ao fim, sobre uma carreira que encontrava se aproximava do término. Nesse outro filme, é um momento diferente.” E ele vai além: “Em José e Pilar, há a presença de Pilar que é muito forte, que leva o filme para caminhos, que domina alguns momentos. Eu queria ter uma Pilar no meu filme,” conclui rindo. (Alysson Oliveira)
DE LUGAR NENHUM, de Miguel Gonçalves Mendes (81')
CINESALA 29/10/25 - 21:00
CINESESC - 30/10/25 - 17:25
Fabrice Aragno, um amigo de Jean-Luc Godard
O diretor suíço Fabrice Aragno diz não entender, a priori, muito bem por que a Mostra está exibindo na mesma sessão seus dois trabalhos mais recentes, o curta Atelier Rolle, Uma Jornada e o longa O Lago, mas ele mesmo acaba encontrando a justificativa: “São dois filmes sobre sensações. O cinema, para mim, não é contar uma história, mas expressar coisas que me interessam expressar”.
Ele conta ter aprendido isso com o mestre franco-suíço Jean-Luc Godard, com quem trabalhou em diversos filmes e de quem era amigo pessoal. Ele fez direção de fotografia em longas do cineasta como Imagem e Palavra, Adeus à Linguagem e Filme Socialismo. Seu curta Atelier Rolle, Uma Jornada foi filmado no escritório de Godard pouco depois da morte do diretor, em 2022.
Dirigido ao lado de Jean-Paul Battaggia, produtor de vários filmes de Godard, o curta é um passeio poético pelo escritório onde estavam livros, filmes (em vhs, dvd e bluray), além de pinturas feitas pelo próprio Godard. Durante 30 minutos, a câmera percorre prateleiras e mesas sem pressa, registrando detalhes dos objetos do cineasta.
“Eu conhecia muito bem aquele local, sabia onde estava cada coisa. A morte dele foi muito chocante. Levei muito tempo para me recuperar, e fazer o filme ajudou nesse processo, foi como mostrar o mundo dele por dentro. Eu chamava aquele lugar de paraíso dele, por isso, no áudio do curta usamos sons do segmento Paraíso, do filme de Nossa Música.”
Já o longa O Lago está mais para a descida a um inferno. Boa parte do filme se passa num barco num lago onde competidores devem navegar sem parar por cinco dias. Nesse tempo, não podem atracar, nem descer da embarcação.
Aragno conta que achou essa prova de resistência curiosa, e comprou um barco para fazer o filme antes mesmo de pensar no roteiro. Para protagonizar, já tinha em mente a atriz francesa Clotilde Courau, que conhecera quando participaram do júri do Festival de Locarno dez anos atrás.
“Na época, ela era casada com Emanuel Felisberto, um príncipe italiano, o que fez dela uma princesa. E todo mundo estava impressionado por ter uma princesa no festival. Mas ela é uma pessoa muito simpática, sem qualquer pompa. Ficamos amigos, pois temos gostos cinematográficos muito parecidos e sempre quisemos trabalhar juntos.”
No barco que o filme acompanha durante a competição, o outro tripulante é Bernard Stamm, um marinheiro profissional suíço. “Eu procurava alguém com experiência em embarcações, pois precisava equilibrar as coisas já que Clotilde não sabia navegar. Eu vi uma foto de Bernard no jornal, pois ele tinha acabado de ganhar uma competição. Consegui o telefone dele e liguei, por acaso, achando que ele estivesse navegando. Mas, para minha surpresa, ele estava num mercado na Suíça fazendo compras.”
Casualidades como essa, explica Aragno, é que governam o seu cinema. “Devemos estar abertos ao que pode acontecer sem ter sido planejado. Não gosto de planejar muito meus filmes, prefiro que o acaso mostre o caminho. Se estamos muito concentrados em fazer uma coisa, acabamos perdendo as oportunidades que surgem e nem as percebemos.” (Alysson Oliveira)
O LAGO (LE LAC), de Fabrice Aragno (80') e ATELIER ROLLE, UMA JORNADA, de Fabrice Aragno e Jean-Paul Battaggia (30’)
INSTITUTO MOREIRA SALLES - PAULISTA 29/10/25 - 17:45
Novembro
O M-19 surgiu na Colômbia em 1970, depois das eleições que deram vitória ao conservador Misael Pastrana Borrero. Um grupo de jovens de classe média desiludidos com a esquerda tradicional fundou essa guerrilha urbana para estabelecer o que consideravam uma real democracia no país. Em 6 de novembro de 1985, eles tomaram o Palácio da Justiça, na capital do país, fazendo juízes e advogados de reféns.
Escrito e dirigido pelo estreante Tomás Corredor, Novembro, de forma claustrofóbica,
se fecha no banheiro do Palácio onde aconteceram as 27 horas desse cativeiro. De forma um tanto nebulosa, o filme investiga esse trauma histórico em zonas acinzentadas.
A fragmentação da memória truncada do episódio não facilita quem não conhece bem os fatos históricos. Embaralhar realidade, ficção e alucinação é uma opção do cineasta, que se mostra mais interessado na construção sensorial do que na narrativa. Focado nos pequenos dramas pessoais sufocantes no banheiro, o filme se fecha em closes de rostos e aflições.
Corredor não está interessado em dicotomias simples – não há heróis nem vilões. O que há são pessoas presas às engrenagens da história do passado que ecoam no presente. A sua escolha formal é fazer um filme claustrofóbico e coberto por uma nuvem – tal qual a história de muitos países da América Latina. (Alysson Oliveira)
NOVEMBRO, de Tomás Corredor (80')
CINEMATECA - SALA OSCARITO -
29/10/25 - 14:00
Para Vigo me Voy
Já exibido na seção Cannes Classics, em Cannes, o documentário de Lírio Ferreira e Karen Harley debruça-se sobre a vida e a obra do cineasta Cacá Diegues (1940-2025).
Muitas imagens do Cinema Novo, como seria de se esperar, percorrem as cenas do saboroso documentário, incorporando bastidores daquele movimento de renovação do cinema brasileiro nos anos 1960 que, como diz Cacá no filme a certa altura, queria mudar não só o Brasil, como o mundo. A garra, a ambição e a energia daquela geração que uniu Cacá, Ruy Guerra, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade e outros, realmente é um capítulo magistral, de curta duração, mas com efeitos indeléveis em tudo o que se seguiu.
Cacá aparece em imagens recentes, ao lado da mulher, a produtora Renata de Almeida Magalhães, e recebendo amigos em sua casa, num aniversário de seu casamento. Estava debilitado fisicamente mas mentalmente a energia e a memória continuavam a mil - como se vê quando ele refilma com Antonio Fagundes a cena final de Deus Ainda é Brasileiro, seu último longa, que deverá ser lançado nos cinemas nos próximos meses.
Várias outras preciosas imagens de arquivo o mostram jovem, em entrevistas, nos sets de filmagem e em suas várias batalhas ao longo da vida, como quando combateu o que chamou de “patrulhas ideológicas” - que era como ele classificava os intolerantes contra opiniões e posições alheias, cobrando uma uniformidade que ele rejeitava.
Como não poderia deixar de ser, o filme inclui diversas cenas dos muitos filmes de Cacá, começando por Bye Bye Brasil - de onde sai a referência do título do documentário -, passando por Os Herdeiros, A Grande Cidade, Tieta do Agreste, Chuvas de Verão, Deus é Brasileiro, O Grande Circo Místico, compondo um painel de uma obra incontornável. É um filme amoroso e também didático, no melhor sentido. (Neusa Barbosa)
PARA VIGO ME VOY!, de Karen Harley, Lírio Ferreira (97').
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1 29/10/25 - 13:30
Papagaios
Vencedor de quatro prêmios no Festival de Gramado, o filme de Douglas Soares colocou em foco uma história tensa, com um forte componente policial e que revela o talento do jovem Ruan Aguiar, dividindo a tela com o sempre impecável veterano Gero Camilo (Kikito de melhor ator).
A ambiguidade começa pelo título do filme, em que há um papagaio real, Papo, mascote do personagem Tunico (Gero Camilo), este um curioso “papagaio de pirata” profissional. Já sexagenário, Tunico se mantém informado dos eventos de impacto no Rio de Janeiro, capazes de atrair cobertura midiática, para colocar-se diante de fotógrafos e câmeras de televisão. Para isso, conta com o apoio de amigos fiéis, compondo uma espécie de clube informal de veteranos sem muito o que fazer senão viver das sobras dessa espécie de subcelebridade militante de Tunico - que chega a ser entrevistado em programa de televisão, pela apresentadora Claudete Troiano.
A trajetória de Tunico se cruza com a de Beto (Ruan Aguiar), jovem quieto, misterioso, que está sempre próximo de algum tipo de desastre - como um que ocorre logo no começo do filme, num parque de diversões. É voyeurismo de tragédias ou Beto tem algo a ver com esses acidentes? Os espectadores do filme logo saberão a verdade, mas isto não altera a tensão crescente do filme, em função da construção de uma narrativa que privilegia os dois atores habitarem seus personagens por inteiro, introduzindo uma sutil pulsão de morte quase nelsonrodriguiana. Um clima que o filme sustenta em sua opção por mostrar imageticamente, mais do que em diálogos, o que os personagens estão fazendo e pensando. (Neusa Barbosa)
PAPAGAIOS, de Douglas Soares (90').
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1 29/10/25 - 17:45
Interior. Apartamento. Dia
O mexicano Israel Cárdenas e a dominicana Laura Amelia Guzmán são um casal de cineastas que fizeram um filme sobre um casal em que um dos membros é um cineasta em começo de carreira. Interior. Apartamento. Dia
é sobre Omar e Nini, interpretados por Juliano Kunert e Maia Otero, que também são um casal na vida real. E mais: Maia é sobrinha de Laura. “É um filme em família”, brinca a diretora.
Omar e Nini dividem um pequeno apartamento em São Domingo, mais por questões financeiras do que românticas. Ele é um cineasta em início de carreira que se vê obrigado a dirigir vídeos de uma campanha política, enquanto espera a chance de fazer cinema. Ela é uma designer gráfica com uma carreira mais consolidada do que a dele.
“O filme é sobre esse conflito entre o que se quer fazer, o que se ama fazer, e aquilo a que somos obrigados a fazer para ganhar a vida. Isso aconteceu conosco, e com muita gente que conhecemos”, conta Cárdenas, que assina também o roteiro e a fotografia do longa.
A ideia do filme partiu de uma novela do francês Georges Perec, mas foi adaptada para a realidade da República Dominicana. “Quando começamos, a realidade era bem diferente de hoje. Tínhamos que inventar trabalhos, filmávamos em película. Era o momento da transição para o digital. Hoje tudo é diferente”, aponta Laura.
Ela também conta que no set, costumam dividir funções. Cárdenas prefere trabalhar com a imagem, fazer a fotografia e a câmera, enquanto ela prefere trabalhar com o elenco, com os diálogos. “Mas esse foi o primeiro roteiro que ele escreveu sozinho, e foi uma experiência muito interessante para nós dois.” (Alysson Oliveira)
INTERIOR. APARTAMENTO - DIA, de Israel Cárdenas, Laura Amelia Guzmán (91')
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA ANEXO 4
29/10/25 - 21:20
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