04/06/2026

Mostra apresenta première mundial de "O Filho de Mil Homens"

O Filho de Mil Homens

Apresentado numa concorrida première mundial na Mostra nesta segunda (27/10), o filme de Daniel Rezende adapta o livro homônimo do escritor angolano Valter Hugo Mãe - que está em São Paulo como convidado da Mostra e, antes da sessão, rasgou elogios à adaptação: ““É possível que o filme seja melhor do que o livro””, comparou.

Certamente, trata-se de uma adaptação empenhada e sensível, que coloca na tela uma série de personagens aparentemente inusitados, mas todos profundamente humanos, no ambiente de uma pequena e isolada localidade litorânea.

O protagonista é o pescador Crisóstomo (Rodrigo Santoro), um homem solitário que tem por única companhia um boneco de pano - que leva consigo no barco, quando vai pescar, e é seu único interlocutor à mesa do jantar. Tido como maluco, ele distribui na feira um curioso bilhete: “Pai sem filho procura filho sem pai”, traduzindo sua imensa vontade de constituir uma família. Uma atitude que contribui para que ele seja olhado ainda com maior desconfiança e preconceito.

Um dia, no entanto, esse bilhete vem ao encontro de uma mulher, que encontra sozinho, ao lado do corpo do avô, um menino, Camilo (Miguel Martines). A partir desse encontro entre Crisóstomo e Camilo, começa-se a tecer a teia de uma família informal, à qual se unirão depois outras pessoas desgarradas ou incompreendidas, como uma mulher, Isaura (Rebeca Jamir) infeliz em seu casamento com um gay, Antonino (Johnny Massaro), que a vida toda foi reprimido pela mãe reacionária (Inez Viana).

O ambiente local é impregnado de preconceitos, especialmente contra pessoas de comportamento sexual livre, como uma moça com nanismo (Juliana Caldas), ostensivamente vigiada pelas vizinhas. Uma rara exceção é uma médica (Tuna Dwek), que também exerce um papel central no destino de Camilo.

Um ponto forte no filme é utilizar a beleza dos cenários de Búzios (RJ) e da Chapada Diamantina também como contexto destas vidas, entrelaçadas por conflitos e também por afetos que, embora difíceis, vão se construindo. O filme é muito sobre isso: afeto, construção de compreensão mútua, mais do que simplesmente tolerância.

Diretor com uma filmografia diversificada, incluindo filmes infanto-juvenis como Turma da Mônica: Laços e Turma da Mônica: Lições, além de dramas como Bingo: O Rei das Manhãs, Daniel Rezende dá um passo adiante com um filme comovente, poético e humanista. A estreia nos cinemas está marcada para 30 de outubro. Na Netflix, entra na grade em 19 de novembro. (Neusa Barbosa)

O FILHO DE MIL HOMENS, de Daniel Rezende (126').

CINESESC 28/10/25 - 19:30 - ÚLTIMA SESSÃO

Mirrors nº 3

O cinema do alemão Christian Petzold é povoado por fantasmas vivos, personagens cujas vidas chegaram a um limite e, assim, vagam pelo mundo sem rumo, seguindo o fluxo sem muita iniciativa. Mas, possivelmente, nenhum filme retratou isso de maneira tão escancarada como seu Mirrors Nº. 3, cujo título vem da composição homônima de Maurice Ravel, cara ao filme.

Petzold, que também assina o roteiro, mostra-se num dos momentos altos de sua carreira, construída desde o final dos anos de 1980. Tornando-se mais econômico a cada filme, o diretor não chega a um minimalismo bressoniano, mas ele trabalha na chave da contenção. E com, parcos 86 minutos, ele dá conta das complexidades de uma teia de relacionamentos, e deslocamentos e reconstruções numa maneira em que a narrativa sempre caminha por vias inesperadas - cada nova curva é uma surpresa que acrescenta uma nova camada de compreensão do drama daquelas pessoas.

Laura (Paula Beer) é a primeira peça desse quebra-cabeças, que começa num tom que soa como apressado. Aos poucos, tudo entra nos eixos, ironicamente depois de um acidente que resulta na morte de seu namorado, que estava num carro conversível com ela. Laura é resgatada por Betty (Barbara Auer), uma mulher que vive numa casa próxima ao local do acidente e pintava a cerca do seu quintal naquele momento. Ela é quem corre a socorrer Laura, que pede para ficar em sua casa.

Os elementos das vidas dessas duas mulheres são revelados aos poucos. O passado de Laura é obscuro, e Betty nunca lhe pergunta de onde veio ou quem é, apenas a acolhe em sua casa, o que é uma surpresa para seu marido, Richard (Matthias Brandt), e seu filho, Max (Enno Trebs), que são donos de uma oficina mecânica. A bem da verdade, a existência deles também é uma surpresa para Laura – e para o público também.

Com esses poucos personagens, Petzold arma uma narrativa de idas e vindas reais e simbólicas, passando por caminhos já traçados ou evitando pequenas estradas de lembranças traumáticas – como aquela onde aconteceu o acidente com Laura. O diretor parece estar se divertindo, embora o filme não seja uma comédia, ao introduzir a cada momento elementos inesperados que complexificam ainda mais a visão que temos dessas personagens.

E, mesmo se organizando com surpresas, o que menos interessa em Mirrors Nº. 3 são essas descobertas. O que é mais estimado por Petzold são as consequências desses momentos. A relação de amizade entre Laura e Betty tem um tom maternal, ou talvez de sororidade, mas, de qualquer forma, é marcada por uma codependência crescente, que, aparentemente, não é tóxica ou doentia – mas toda codependência, mais cedo ou mais tarde, cairá nessa teia, e filme sabe disso.

Sem se interessar em chegar a conclusões, o longa se firma a partir de suas observações, de como a câmera flagra essas personagens em seus momentos de solidão, quando parecem largadas em si mesmas. É daí que vem a potência do filme. Numa última nota: tornou-se tradição no cinema de Petzold uma música marcante em seus filmes. Foi assim no final de Trânsito, com Road to Nowhere, do Talking Heads; e In My Mind, da banda austríaca Wallners, em Afire. Aqui, é a vez do clássico The Night, do Frankie Valli & The Four Seasons, ser tocada duas vezes num momento-chave. (Alysson Oliveira)

MIRRORS Nº. 3, de Christian Petzold

RESERVA CULTURAL - SALA 1 - 28/10/25 - 22:05

CULTURA ARTÍSTICA - 30/10/25 - 17:40

White Snow

O cineasta indiano Praveen Morchhale comemora o lançamento mundial de seu novo longa, White Snow, na 49a Mostra, pois esteve no festival antes com Walking With The Wind, em 2017, e ficou entre os finalistas ao Troféu Bandeira Paulista naquele ano. Agora, embora o novo trabalho não seja exibido em competição, ele celebra a seleção e exibição.

White Snow, como ele define, “é uma declaração de amor não apenas ao cinema, mas também à resistência dos cineastas e das pessoas que os ajudam na exibição dos filmes.” No longa, Amir (Bhavya Khurana) é um diretor de cinema na região de Kashmir, onde seu mais recente trabalho foi censurado e não poderá ser exibido, após as reclamações de um líder religioso.

Isso, no entanto, não impede que sua mãe idosa, Fatima (Madhu Kandhari Rajesh), viaje sozinha pelos Himalaias mostrando o filme do filho em pequenas aldeias. É um trabalho árduo, que a consome física e emocionalmente, mas ela está disposta a mostrar a arte de seu filho, pois acredita no poder do cinema.

Morchhale, que também assina o roteiro, conta que partiu de uma história real, que não aconteceu com ele, mas tomou as redes sociais pelo mundo após a proibição de um filme feito na região. “Faço do cineasta e sua mãe um símbolo da resistência e da sobrevivência do cinema enquanto arte. É muito difícil trabalhar com arte, enfrentamos diversos problemas, por isso acho que devemos celebrar sempre os artistas.”

Ele conta que sua inspiração veio muito do cinema iraniano e seu interesse pela história do homem comum enfrentando adversidades pessoais e políticas. A inspiração e relação com o cinema iraniano é tão forte que ele chamou o diretor de fotografia iraniano Mohammad Reza Jahanpanah, que trabalhou com Jafar Panahi em Cortinas Fechadas, de 2013.

“Nossa parceria já vem de outro trabalho, mas aqui não havia diretor de fotografia mais apto para rodar esse filme comigo. Fico muito feliz com o resultado, como ele é capaz de combinar as personagens com a paisagem natural da região e aprofundar no realismo do filme. Trabalhei com atores não profissionais de Kashmir e, muitas vezes, não estão atuando. O filme tem algo de documental também.” (Alysson Oliveira)

WHITE SNOW, de Praveen Morchhale (80').

MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 5 - 28/10/25 - 21:40

Assalto à Brasileira

Uma quase tragédia a um passo da farsa é o tom de Assalto à Brasileira, em que o veterano diretor José Eduardo Belmonte reconstitui, a partir de um roteiro de L.G. Bayão,
um famoso assalto a banco ocorrido em Londrina, em 1987.

No Festival de Brasília, o filme venceu como melhor título para o júri popular, além dos Candangos de melhor ator (Murilo Benício), ator coadjuvante (Christian Malheiros) e um troféu Saruê, dado pelo jornal Correio Braziliense ao maior acontecimento do festival, para o diretor José Eduardo Belmonte.

O ritmo transcorre como uma aventura cômica impregnada de comentários sociais. Um retrato na parede lembra que era o governo José Sarney, uma época de hiperinflação e crise econômica ainda reflexos da ditadura recém-terminada - contexto que leva os populares que acompanhavam o assalto a torcer ostensivamente pelos assaltantes que, dentro da agência, negociavam uma saída para eles e as dezenas de reféns.

O aspecto cômico cresce à medida que fica claro o amadorismo destes assaltantes. Depois de estourarem um quadro de luz, ficando sem telefones, Moreno (Christian Malheiros), Barba (Robson Nunes) e os outros cinco ladrões passam a depender de um canal de negociações com o policial Fonseca (Paulo Miklos). Este se oferece na figura de Paulo (Murilo Benício), repórter veterano e recém-demitido que vinha receber sua rescisão e foi surpreendido na situação - em que ele enxerga a oportunidade de dar um furo de reportagem e retomar seu emprego.

Experiente em produções de alta adrenalina como Alemão (2014) e Carcereiros (2019), aqui Belmonte suaviza o tom, mantendo foco no retrato de ambiente, dentro e fora da agência bancária, de olho no tumulto à porta e na torcida que começa a se estabelecer pelos ladrões.

O fator de risco está do lado de fora, na polícia e na política. Fonseca comanda as negociações pressionado pelo secretário da segurança (Arnaldo Madeira) que espera que ele ganhe tempo e enrole os ladrões, o que certamente aumenta o risco de mortos e feridos.

Belmonte demonstra mão segura nesta direção, equilibrando os tons de tensão e comédia, contando com um elenco bastante eficaz, em que ainda se destaca a presença de Hugo Possolo - que interpreta o gerente do banco e foi o responsável pela preparação do elenco de apoio, que tem seus momentos de destaque. Mais saborosas ainda são as intervenções, no final, dos verdadeiros personagens desta situação, dando seus depoimentos sobre um evento policial que se tornou midiático e perdura na memória da cidade paranaense até hoje. (Neusa Barbosa)

ASSALTO À BRASILEIRA, de José Eduardo Belmonte (90').

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2 28/10/25 - 15:25

Urchin

Estreante na direção, o ator britânico Harris Dickinson - conhecido como o galã de filmes como Triângulo da Tristeza e Babygirl - fez um trabalho de respeito, conquistando os prêmios da crítica e melhor ator para o protagonista Frank Dillane na seção Um Certo Olhar em Cannes.

Partindo de um roteiro seu, Dickinson fecha sua proposta num único e modesto foco, um estudo de personagem, do que o diretor iniciante dá conta a contento. No caso, de Mike (Dillane), um jovem morador das ruas de Londres, mergulhado numa enorme crise, entre as tentativas de sair da marginalidade. Depois de um assalto, ele volta à prisão, de onde sai para um novo ciclo de tentativa de reabilitação, tentando empregos, entrando em relacionamentos e mas entrando em situações de risco com a dependência de drogas e a tentação do vazio.

Conhecido por uma participação na franquia Harry Potter (Harry Potter e O Enigma do Príncipe) e a série Fear the Walking Dead, o ator britânico Dillane entrega-se de corpo e alma a um personagem que não busca simpatia e com quem é difícil empatizar - apesar de dar substância a um fenômeno cada vez mais visto nas grandes cidades do mundo, o morador de rua e seu constante grito de socorro. (Neusa Barbosa)

URCHIN, de Harris Dickinson (99'). REINO UNIDO.

MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 28/10/25 - 16:45

Quatro meninas

Drama de época, estreia da diretora Karen Suzane, o filme é uma espécie de objeto não-identificado em termos do equilíbrio das liberdades que toma numa história ambientada em 1884. No Festival de Brasília, venceu três Candangos: Prêmio Especial do Júri, melhor atriz (Dhara Lopes) e melhor atriz coadjuvante (Maria Ibrahim).

Partindo do roteiro assinado por Clara Ferrer, imagina-se uma situação inusitada. Num internato, forma-se uma inesperada aliança entre quatro escravas em fuga (Ágatha Marinho, Alana Cabral, Dhara Lopes e Maria Ibrahim) e quatro das internas brancas, escapando de destinos como conventos ou casamentos forçados (Duda Batsow, Duda Matte, Gabi Cardoso e Giovanna Rispoli).

É um ponto de partida atraente, já que mergulha numa ideia de sororidade, mas o desenvolvimento das situações foge cada vez mais à própria lógica interna que uma obra de ficção deve necessariamente ter - por mais que seja saudável dar asas à imaginação. Cria-se aqui um conflito a partir do fato de que as meninas têm que interromper sua fuga, refugiando-se num abandonado casarão, à espera de que haja condições climáticas para que as ex-escravas se escondam num quilombo da região. Viciadas em sua situação de privilégio, as garotas brancas procuram manter nesse lugar a relação de servidão de suas antigas servidoras, contra o que estas saudavelmente se rebelam. E isto que é o mais interessante dessa inversão de jogo de poder se transforma, infelizmente rápido demais, numa diluição um tanto ingênua e pouco crível, por fragilidades de sua dramaturgia.

Se há mérito aqui, ele está no talento das garotas, demonstrando uma energia admirável que não encontra as condições ideais de expressão. (Neusa Barbosa)

QUATRO MENINAS, de Karen Suzane (89'). BRASIL.

CINEMATECA - SALA OSCARITO 28/10/25 - 15:50