Jafar Panahi e a ética entre a vingança e o perdão
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 27/10/2025
- Tempo de leitura 21 minutos
Há 15 anos, o diretor iraniano Jafar Panahi estava proibido de viajar ao exterior, uma das muitas restrições de quem, nesse período, foi condenado à prisão, esteve em solitária, fez greve de fome e foi proibido de filmar - o que não impediu que continuasse realizando filmes como Isto Não é Um Filme, Táxi Teerã, Três Faces e Sem Ursos, colhendo prêmios em festivais internacionais como Cannes e Berlim.
A proibição foi suspensa e Panahi pôde, em maio último, estar presente na concorrida sessão oficial de seu novo filme em Cannes, Foi Apenas Um Acidente, que terminou vencendo a Palma de Ouro e sendo indicado pela França, país que o coproduziu, para concorrer a uma indicação ao Oscar de filme internacional. E também veio a São Paulo para receber uma homenagem na Mostra, que lhe atribuiu o troféu Humanidade, e apresentar nela as três sessões do filme, que estreia nos cinemas brasileiros em 4 de dezembro.
Foi Apenas um Acidente é um drama com toques de suspense sobre um acerto de contas - no caso, de um grupo de ex-presos políticos, que julgam ter reconhecido um seu torturador, e o sequestram, discutindo o que fazer com ele: vingança ou perdão?
Numa entrevista em São Paulo, para um pequeno grupo de jornalistas, da qual participou Neusa Barbosa, do Cineweb, Panahi discorre sobre este dilema ético: “Perdoar ou vingar-se é parte do roteiro para levar adiante o filme. O que importa para mim é o que vai acontecer. Esse círculo de violência vai continuar ou um dia vai parar? Sobre isso é que eu queria que as pessoas refletissem, sobre o futuro, sobre o que vai acontecer. Na verdade, é um filme que foi feito agora para o futuro. E o futuro sem círculo de vingança deveria ser melhor”.
Ao contrário da maior parte de sua obra, este é um filme que aborda mais diretamente o tema da prisão e da tortura, uma experiência que o próprio diretor viveu - ele permaneceu preso de olhos vendados e fez greve de fome para ser libertado. Panahi explica as razões desta mudança de tom no filme: ‘Eu sou um cineasta social. É na sociedade que eu encontro os temas dos meus filmes, nas ruas, nas lojas, nos mercados. Cada dia que eu acordo para ir à padaria comprar pão, eu falo com as pessoas. Saio de um ambiente, entro em outro e aquilo vai me influenciar. Eu pego o tema daquele local em que estou. Quando estive na prisão, claro que aquilo teve influência em mim. Quando você observa que é uma abordagem muito direta, isso é influência daquele lugar onde eu fiquei. É culpa das pessoas que me deixaram dentro desta situação. Quem fez este filme não fui eu, foram as pessoas que me jogaram naquela situação”.
Logo após ter seu filme exibido em Cannes, primeiro festival a que compareceu depois de 15 anos proibido de viajar para o exterior, Panahi não sabia o que encontraria na volta ao seu país. Ele conta que não houve nenhuma mudança. “Nosso regime continua impondo as mesmas dificuldades para os cineastas. Mas eles estão encontrando o caminho, estão se adaptando. Assim, obrigaram o regime a ficar na defensiva”.
Quando foi condenado à prisão e proibido de fazer filmes, Panahi realizou, com meios modestos, clandestinos, títulos como Isto Não é um Filme, Táxi Teerã e Sem Ursos, onde atuava. Ele explica porque deixou de fazê-lo em Foi Apenas um Acidente: “Quando me condenaram à prisão, psicologicamente isso repercutiu fortemente em mim. Fui condenado a não fazer filmes por 20 anos. Eu pensava: ‘Se não puder filmar, o que faço?’ Naquela época, muitos dos meus alunos reclamaram que a situação estava muito difícil, como poderiam filmar? Eu também não podia fazer filmes. Então, tinha duas opções: ficar reclamando ou procurar um caminho para filmar. Naquela época, eu fiz um filme em minha casa mesmo e o intitulei Isto Não é um Filme. Eu pensava: ‘Se eu não faço um filme, o que eu sei fazer? A única coisa que eu sei é dirigir, então vou ser motorista de táxi’. Mas se eu fosse taxista, eu podia colocar uma câmera no carro. Assim surgiu Táxi Teerã. Então, o que eu pensava sempre era sobre eu e o cinema, então estava sempre presente dentro dos meus filmes. Depois que suspenderam minha condenação, aquele peso psicológico já saiu da minha cabeça. Saí da frente da câmera e fui para trás da câmera, voltei ao meu lugar”.
O elenco de Foi Apenas um Acidente (foto ao lado) mistura atores experientes e estreantes. Panahi comenta sua visão para comandar os atores: “O mais difícil para mim foi alinhar as interpretações. Porque vocês os viram alinhados e perceberam que estão atuando muito bem. Isso é especial para mim porque trabalho com pessoas não-profissionais. Isso me ajuda para alinhar melhor do jeito que eu quero. Na verdade, o que eu procuro é que eles não atuem e sim que eles produzam realidade. E é muito difícil que a pessoa seja realista diante da câmera”.
Mesmo voltando a poder filmar e circular pelo mundo, Panahi continua tendo seus filmes proibidos de serem exibidos nos cinemas do Irã, o que impede que possam ser indicados para representar o país no Oscar: “Meus filmes nunca passam nos cinemas do Irã. Só depois que aparecem na internet, no Youtube, o público de lá tem acesso. Por enquanto, este filme não chegou ao alcance dos iranianos. As pessoas só viram trechos dele. Como o filme não é exibido no Irã, não pode aparecer no Oscar representando o país. Segundo a regra do Oscar, cada filme que vai para lá tem que ser exibido pelo menos uma semana no país. Eu lembro que no caso do filme Fora de Jogo, a Sony mandou cartas às autoridades do Irã para que ele fosse exibido lá, mas não conseguiram. Eles não aceitaram exibir o filme nem por uma semana nos cinemas. Então, como este novo filme foi uma coprodução entre Irã, França e Luxemburgo, a França o indicou”.
Sobre um novo projeto, ele manifesta mais uma vez um impecável bom humor: “Desde que lancei este filme, não tenho tido tempo, porque estou sempre indo a festivais. Quando eu estava proibido de sair do país, era mais fácil (rs). Cada filme que acabava, eu começava a pensar num outro. Devia haver um partido para proibir cineastas de sair do país: ‘Parem, façam filmes!’” (rs). (Neusa Barbosa)
Sessões do filme na Mostra:
27 de outubro, segunda-feira, às 18h30.
Sala Petrobras na Mostra – Cinemateca Brasileira.
28 de outubro, terça-feira, às 17h15.
Cultura Artística.
29 de outubro, quarta-feira, às 20h40.
Reserva Cultural – Sala 1.
Outras dicas na Mostra
Christy
O filme irlandês bebe da fonte do realismo social inglês – à la Mike Leigh ou Andrea Arnold – ,adaptando-o à realidade do país. O estreante em longas Brendan Canty mostra impressionante domínio visual e narrativo para contar a história do personagem-título, um jovem órfão no norte de Cork, interpretado por Danny Power.
Shane (Diarmuid Noyes) é um jovem adulto que vive em Cork com sua mulher, Stacey (Emma Willis), e a filha recém-nascida. Seu trabalho é pintar casas, e tenta levar a vida de forma séria e focada, até que seu irmão Christy, de 17 anos volta a viver com ele. O rapaz morava numa casa adotiva mas, depois de um incidente, teve de sair de lá.
Shane o acolhe e dá emprego, mas sabe que, em algum momento, Christy deverá voltar a viver com outra família ou num hostel do governo. Enquanto isso não acontece, Christy tenta se reconectar com esse lugar onde cresceu, com as pessoas que o conheceram quando era criança, e também conheciam sua mãe. O pouco que ainda resta da família, uma tia, não quer saber dele, e seus primos são barra-pesada. O receio de Shane é que seu irmão entre para o mundo do crime com os parentes.
Sem recorrer a clichês ou obviedades com fins sentimentais, Canty acompanha a jornada de seu protagonista no sentido de compreender a si mesmo e encontrar seu lugar no mundo. Se de um lado há os primos, ele também encontra uma pequena comunidade mais positiva que o acolhe, que inclui um garoto cadeirante chamado Robô, interpretado pelo excelente rapper Jamie “the King” Forde.
Canty nunca perde a chance de injetar uma dose de otimismo e esperança em seu filme, mas de uma maneira muito honesta para não o transformar em algo piegas ou falso. Assim, cada acontecimento da vida do protagonista adiciona camadas em seu processo de autodescoberta e encontro de um caminho a seguir. É um filme tocante da melhor maneira possível, e o anúncio de um nome a se prestar atenção na direção. (Alysson Oliveira)
CHRISTY (CHRISTY), de Brendan Canty (95'
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1- 27/10/25 - 13:30
Os Bibliotecários
A primeira coisa que se nota no documentário Os Bibliotecários é a imprecisão do título dado no Brasil. No caso aqui, todas as entrevistas são com bibliotecárias, mas, deixando isso de lado, o filme de Kim A. Snyder é um retrato impressionante do estado das coisas no mundo polarizado do presente.
Nem toda heroína usa capa, algumas usam livros, e a batalha dessas mulheres contra a ignorância ou a manipulação política chega a ser comovente em seu amor pelos livros e pelos jovens leitores e leitoras – crianças em formação intelectual que são privadas de certos livros, pois um grupo os considera pornográfico. Sim, exatamente isso, um grupo formado por pessoas de extrema-direita nos EUA exige a retirada de certos livros de bibliotecas de escolas públicas pois, segundo elas, há descrições pornográficas nos livros.
Não é surpresa que esses livros banidos lidam de forma franca com questões como raça, gênero e sexualidade – nenhum, no entanto, traz qualquer elemento pornográfico. Uma lista de 850 títulos, criada pelo político texano Matt Krause e replicada pelo governador da Flórida, Ron DeSantis, compila as publicações supostamente perigosas às crianças. Entra em cena outro grupo de extrema-direita chamado de Moms For Liberty (Mães Pela Liberdade), com financiamento escuso, que também entra na batalha contra os livros.
De um lado, pessoas com muito poder e dinheiro, e de outro, bibliotecárias das mais diversas idades e crenças políticas e religiosas que defendem o código de ética da profissão que assegura o acesso aos livros. É uma batalha, como bem mostra o documentário, desigual que a liberdade de expressão tem perdido.
Em Granbury, no Texas, por exemplo, Monica Brown, mãe de nove filhos e filhas, defende com veemência que um pastor escolha os livros infantis que devem estar em bibliotecas de escolas públicas – detalhe: nenhum de seus filhos estuda nesse tipo de estabelecimento. Numa audiência pública, entra em cena seu filho mais velho, um rapaz gay que foi afastado da família desde que se assumiu.
Essa guerra cultural, claramente, está no campo da política, e não podia ser diferente. O que está em disputa não são livros, ou a proteção de crianças contra uma suposta pornografia das publicações, mas a construção de uma narrativa que favoreça as ideologias da extrema-direita, que consegue se assegurar apenas causando pânico e criando falsas verdades. Quem não se lembra no Brasil da “mamadeira de piroca” ou do “kit gay”? É mais ou menos nesse campo que o filme de Snyder está, e mostra um claro paralelo, sem precisar forçar na comparação, do banimento de livros com a queima de livros promovida pelos regimes nazistas.
Crianças são importantes na construção do futuro. Moldar suas mentalidades para manter o status quo, ou transformar o mundo, é uma disputa acirrada, e a censura a livros – uma das principais ferramentas para a criação do pensamento crítico – é uma ferramenta poderosa. Mas enquanto houver bibliotecárias lutando pelo direito ao acesso pleno aos livros, mesmo arriscando seus empregos (algumas foram demitidas) ou até suas vidas (várias recebem ameaças de morte), ainda há esperanças. (Alysson Oliveira)
OS BIBLIOTECÁRIOS (THE LIBRARIANS), de Kim A. Snyder (92')
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA ANEXO 4 - 27/10/25 - 19:20
Idílico
Com inspirações em filmes de Robert Altman, o neerlandês Idílico acompanha as transformações nos membros de uma família, investigando possibilidades e consequências em suas vidas a partir de escolhas. Escrito e dirigido por Aaron Rookus, o longa acompanha pessoas vivendo num momento limítrofe de suas vidas, como Victor, que acabou de se assumir gay aos 42 anos, e sua irmã, a diva de ópera Annika, que acaba de ser diagnosticada com um câncer que não pode ser operado ou tratado.
“A minha ideia era trazer diversos tópicos, e cada um por um ponto de vista diferente, com cada personagem representando esse tema. Assim, há uma busca no equilíbrio da narrativa, dando um momento de protagonista a cada personagem, como eles são protagonistas de suas próprias vidas e coadjuvantes nas vidas de outras pessoas,” explica o diretor em entrevista ao Cineweb.
Para o elenco, Rookus conta que buscou atores experientes de teatro, que nem sempre tinham a oportunidade de viver bons papeis no cinema, como é o caso de Beppie Melissen, atriz veterana que interpreta a avó de Victor e Annika. Ela é uma mulher frágil e cansada de sua vida, em busca de alguém que a ajude a cometer suicídio, mas seus planos sempre são frustrados.
Mesmo lidando com temas duros, o diretor explica que buscou um tom menos pesado para que o público pudesse se interessar pelos personagens, e pensou em abordar, acima de tudo, como as pessoas lidam com as expectativas que lhes são impostas. “A gente nasce numa sociedade já pronta, cheia de regras e demandando coisas de nós, que nem sempre nos interessa fazer. Victor, por exemplo, é um personagem que se assume gay, mas não se encaixa nas expectativas de um padrão. Já Annika não é aquele tipo de mulher que as pessoas consideram ‘uma boa mãe’. Como essas personagens seguem com suas vidas? Isso é o que me interessa como cineasta”. (Alysson Oliveira)
IDÍLICO (IDYLLIC), de Aaron Rookus (99').
MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 4
27/10/25 - 15:00
A Natureza das Coisas Invisíveis
Vencedor de três prêmios no Festival de Gramado - Prêmio Especial do Júri, melhor trilha e atriz coadjuvante (Aline Marta Maia) -, o filme de Rafaela Camelo percorre vários gêneros, temas e tons - e isto não é um problema, dada a maneira delicada e conscienciosa que a diretora brasiliense, estreante em longa solo, consegue imprimir ao ritmo de seu trabalho - que tem estreia nos cinemas prevista para 27 de novembro.
A diretora, aliás, vem sendo notada em festivais internacionais, a partir de 2019, quando seu curta O Mistério da Carne foi selecionado em Sundance. Em 2023, Rafaela dividiu a direção do curta As Miçangas com Emanuel Lavor, que foi exibido no Festival de Berlim, assim como este novo longa, que abriu a seção Generation este ano.
Há uma atmosfera profundamente feminina nesta história, que une as trajetórias de duas mães solo, a enfermeira Antônia (Larissa Mauro) e a neta de uma paciente, Simone (Camila Márdila). Cada uma delas tem uma filha e as duas meninas, que se conhecem no hospital, acabam formando uma ligação que é uma das espinhas dorsais da narrativa.
As duas meninas são Glória (Laura Brandão), filha de Antônia, e Sofia (Serena), filha de Simone - e dão um show de interpretação sutil e sincera, que é um dos encantos desta história. Elas são duas crianças reais, normais, com nuances, altos e baixos, que se relacionam em cena com uma espontaneidade admirável - certamente fruto do trabalho de preparação no set, que a diretora, na coletiva do filme em Gramado, destacou ter sido consistente com a intenção de atingir um clima afetuoso, de intimidade, que pontua a história de ponta a ponta.
Um outro mérito deste filme delicado e afetuoso é fazer isso a partir de temas espinhosos. A idéia de morte, de luto, permeia várias situações desde o início, a partir da circunstância de que Glória passa muito tempo com a mãe no hospital, em contato com pacientes idosos, alguns terminais. Ela mesma é sobrevivente de um transplante, o que lhe dá uma experiência com a idéia de finitude fora do alcance da maioria das crianças. Um desses pacientes será a bisavó de Serena (Aline Marta Maia), cuja crise maior é com a própria mãe, resultado de um conflito de identidade que o filme explicará mais adiante.
Há também outras dicotomias atravessando o filme, como a dualidade entre a cidade (Brasília, no caso) e o campo - representado pelo sítio da bisavó, para onde finalmente todas as personagens se dirigem.
Esse corte na narrativa aprofunda uma outra camada do filme, explorando um aspecto de realismo mágico, de espiritualidade, que se integra às sensações de um enredo que delimita um ambiente bastante complexo e instigante. Para isso, é importante a presença no elenco de personagens que são atrizes não-profissionais, as benzedeiras Iara e Don’Ana, que injetam uma verdade em algumas sequências que se acomoda com naturalidade àquilo que A Natureza das Coisa Invisíveis está querendo revelar. (Neusa Barbosa)
A NATUREZA DAS COISAS INVISÍVEIS, de Rafaela Camelo (90').
RESERVA CULTURAL - SALA 2 27/10/25 - 19:40
CINEMATECA - SALA OSCARITO 28/10/25 - 19:20
Nouvelle Vague
Desde o nome, o filme do norte-americano Richard Linklater homenageia o movimento que renovou o cinema francês no final dos anos 1950, gerando frutos pelo mundo inteiro. Com uma bela fotografia em preto-e-branco, o relato acompanha as tumultuadas filmagens de Acossado, o primeiro filme do até então crítico da revista Cahiers du Cinéma Jean-Luc Godard (Guillaume Marbeck), a partir de um roteiro do colega François Truffaut (Adrien Rouyard), que acaba de triunfar em Cannes com um prêmio para Os Incompreendidos.
Mesmo delicado e simpático como inegavelmente é, não se pode evitar uma sensação de que o filme de Linklater, de um lado, prega para convertidos, porque todo cinéfilo que se preza conhece a maioria deste incidentes que marcaram Acossado, que deslanchou a carreira do diretor e dos atores Jean Seberg (Zoey Deutch) e Jean-Paul Belmondo (Aubry Dullin), contra toda a expectativa em contrário, até mesmo deles.
Por outro lado, pode ser que, para novas gerações, esses incidentes da filmagem e a personalidade controvertida de Godard não sejam tão conhecidos. Então, a obra poderá ter, de algum modo, um aspecto didático, talvez mais para platéias norte-americanas do que francesas, evidentemente. Mas, em nenhum momento, se tem a sensação de que o filme irá passar desse sutil retrato de uma época.
De todo modo, Nouvelle Vague é inegavelmente uma homenagem terna, o que transpira inclusive nesta fotografia em P&B (de David Chambille) que imita um álbum de retratos e nos lembra que o movimento é, a esta altura, História. Por tudo isso, poderia muito bem ter sido o filme de abertura em Cannes, substituindo o musical chatinho Partir un Jour. (Neusa Barbosa)
NOUVELLE VAGUE, de Richard Linklater (105').
RESERVA CULTURAL - SALA 1 27/10/25 - 17:15
CULTURA ARTÍSTICA 29/10/25 - 19:20
Aqui não entra luz
Vencedor de dois prêmios no Festival de Brasília - melhor direção e prêmio Zózimo Bulbul, o documentário da estreante Karol Maia dá a palavra a personagens normalmente invisíveis na sociedade, retratando a crônica persistência de relações de semi-escravidão no cotidiano das empregadas domésticas.
Contando com depoimentos de quatro domésticas de diferentes estados brasileiros, como a própria mãe da diretora, Miriam Mendes, o filme explora também o significado da persistência dos quartos de empregada nos projetos de edifícios modernos - uma excrescência que demonstra ser uma continuidade das senzalas, localizados nos fundos dos imóveis, em condições não raro insalubres, com pouco espaço e falta de luz e arejamento, como se remete no próprio título do filme.
Ao entrevistar suas personagens no ambiente de suas casas, em que elas têm seu espaço e figura dignificados, o filme devolve a elas uma humanidade que o exercício do trabalho tantas vezes lhe roubou antes. Não é raro o caso de personagens como Rosarinha e Cris Graciano, obrigadas a trabalhar desde crianças, desprovidas da possibilidade de uma infância, além de oportunidades de estudo e descanso adequados, perpetuando uma situação de exclusão e pobreza com consequências cruciais para seu futuro.
É particularmente pungente o relato de Cris, abandonada pela mãe ainda bebê e entregue a uma tia, e que acaba tornando-se mãe precoce aos 14 anos e sendo privada de ver sua própria filha por mais de 20 anos, depois que a tia, uma pastora evangélica, desapareceu levando a menina.
Se a relação com os espaços arquitetônicos dos quartinhos e das senzalas não é tão bem construída no filme, ela é referida com clareza nos depoimentos de algumas das entrevistadas que ocuparam esses quartinhos, somando mais um fator de discriminação dentro de um trabalho aviltado e invisibilizado, embora tão necessário. (Neusa Barbosa)
AQUI NÃO ENTRA LUZ, de Karol Maia (79'). BRASIL.
CINESESC 27/10/25 - 16:50
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