04/06/2026

Fim-de-semana tem premiados e estreia de Scarlett Johansson na direção

Blue Moon

Baseado em cartas trocadas entre o compositor Lorenz Hart e Elizabeth Weiland, o sofisticado roteiro de Robert Kaplow, desenvolvido ao longo de 12 anos, elabora, com grande sensibilidade, uma espécie de perfil do magnífico letrista Hart, que brilhou nos anos 1940 em suas parcerias com o músico Richard Rodgers. Os dois compuseram nada menos do que vários dos maiores clássicos da época, caso de My Funny Valentine, Bewitched, Bothered and Bewildered, The Lady is a Tramp, Manhattan e também a popularíssima Blue Moon, que dá nome ao filme.

Interpretado com afinco e uma enorme transformação física por Ethan Hawke, colaborador constante do diretor Richard Linklater e um dos produtores do filme, o compositor apresenta-se como alguém extremamente talentoso e sensível e também atormentado e solitário. Por seus problemas emocionais, não consegue controlar a bebida, o que lhe criou atritos com o parceiro certinho Rodgers (Andrew Scott, premiado pela atuação no Festival de Berlim).

O enredo foca-se numa única noite, a estreia do musical Oklahoma!, em 31 de março de 1943, que marca justamente o afastamento de Rodgers de Hart, unindo-se a Oscar Hammerstein II numa nova parceria, que também será profícua.

Na história imaginada pelo roteirista, Hart teria ido ao musical - o que não é certo - e o considerado péssimo mas, ainda assim, dirige-se ao bar Sardi’s, em Nova York, onde se daria a comemoração da estreia após o espetáculo. É nesse único espaço que se desenvolvem várias interações de Hart que permitem ao filme abordar as emoções que o sacodem e se possa compreender o que estava, afinal, em jogo naquela noite.

Estão nesse mesmo espaço o garçom (Bobby Cannavale), um soldado em licença que funciona como pianista (Jonah Lees), um outro escritor, E. B. White (Patrick Kennedy), que permitem que haja diálogos memoráveis num filme de atmosfera quase teatral, no bom sentido. Mas a aparição mais importante de todas será mesmo, além de Rodgers e Hammerstein, a da deslumbrante Elizabeth Weiland (Margaret Qualley).

Em torno dessa jovem, que é a atual paixão de Hart, forma-se um núcleo importante do enredo. E reserva-se uma cena longa entre os dois, na parte final, que é de antologia, para descrever as muitas nuances destas duas personalidades, que compartilhavam várias coisas, embora não a paixão mútua como queria Hart, e não eram moralistas. No final, a imagem de Hart Hart que fica era a de um fino apreciador da beleza onde estivesse, e que tragicamente morreu apenas alguns meses depois desta noite, aos 48 anos. (Neusa Barbosa)

BLUE MOON, de Richard Linklater (100').

RESERVA CULTURAL - SALA 2 20/10/25 - 18:30

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1 25/10/25

CINESESC 26/10/25 - 19:00

CULTURA ARTÍSTICA 29/10/25 - 17:10

Kontinental ‘25

Retomando a veia ética que caracteriza uma parte importante do cinema romeno, o diretor Radu Jude enfoca aqui a crise vivida por uma oficial de justiça, Orsolya (Eszter Tompa), a partir da morte de um homem depois de um despejo. O filme venceu o prêmio de roteiro no Festival de Berlim.

O homem (Adrian Sitaru) era um ex-atleta que decaiu, tornou-se morador de rua e alcoólatra e ocupava, há meses, o porão de um prédio visado pela insaciável especulação imobiliária de Cluj, a cidade onde se passam os fatos. Orsolya não é desalmada. Ela visitou repetidas vezes o local e deu prazos para que o homem se mudasse. Um dia, ela tem um prazo inadiável a cumprir e é concedido ao homem tempo para que reúna suas coisas e ele tira a própria vida.

O filme acompanha as angústias de Orsolya, que não consegue tirar da cabeça as imagens do morto. Isso abre oportunidade para que ela coloque em questão toda a sua vida, que não consegue mais manter na mesma rotina. Ela deixa de partir nas férias previstas com o marido e os filhos e aproveita sua distância para tentar acertar os ponteiros consigo mesma.

Nesse processo, ela mantém conversas com uma amiga, um ex-aluno (Adonis Tanta), um sacerdote (Serban Pavlu) e sua mãe (Annamária Biluska), abrindo as camadas da história para discussões em diversos sentidos - inclusive o fato de que Orsolya e a mãe são húngaras e que esta cidade onde vivem é a capital da Transilvânia, uma região que, até 1918, pertencia à Hungria.

Esses detalhes somam contextos que enriquecem a elaboração dos dilemas de Orsolya, cuja complexidade como personagem é uma das pérolas do filme - a que não faltam momentos de humor, muita ironia no retrato das instituições governamentais e também uma reflexão sobre a gentrificação introduzida pelo avanço da especulação imobiliária. (Neusa Barbosa)

KONTINENTAL ’25, de Radu Jude (109').

CINEMATECA SALA PETROBRAS 25/10/25 - 17:20

MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 27/10/25 - 12:00

CINEMATECA SALA GRANDE OTELO 29/10/25 - 21:30

Resurrection

Vencedor de um Prêmio Especial do Júri em Cannes, o filme de Bi Gan, foi um dos espetáculos visuais mais interessantes de toda a seleção daquele festival - característica que, por si só, permite entender sua incorporação de última hora aos concorrentes à Palma de Ouro.

O jovem diretor chinês, de 35 anos, com apenas três longas no currículo - os dois primeiros foram Kaïli Blues (2015) e Longa Jornada Noite Adentro (2018) -, já demonstrou ter um estilo, uma assinatura, que passa pela criação de uma atmosfera onírica, invocada a partir de longos planos-sequência e efeitos, que, no caso deste novo filme, atravessam o tempo e o espaço para criar uma narrativa em torno da história do próprio cinema.

Bi Gan vale-se de poucos personagens para serem guias nesta jornada fantasmagórica entre imagens de sonho, que começam numa atmosfera de cinema mudo, com direito a intertítulos, conduzida por uma mulher (Shi Qi, atriz de Hou Hsiao Hsien em Millenium Mambo). Ela embarca nessa jornada, seguindo um personagem (Chao Mark) que sofrerá múltiplas metamorfoses ao longo do caminho, que atravessa o tempo, em ambientes que remetem ao cinema noir, ao cinema de ação oriental, ao filme de vampiros, ao cinema romântico.

Numa duração bastante longa - 160 minutos -, há sequências mais bem-resolvidas do que outras, num filme menos coeso do que o inebriante Longa Jornada Noite Adentro. Por isso, apesar de todo o empenho técnico, não raro surpreendente, o filme nem sempre provoca o encantamento dos sentidos que procura. (Neusa Barbosa)

RESURRECTION, de Bi Gan (160').

SATO CINEMA 25/10/25 - 19:20

CINESALA 27/10/25 - 14:00

CINEMATECA SALA PETROBRAS 28/10/25 - 17:50

Nosferatu

Dentro de uma filmografia que inclui documentários sobre uma dolorosa história familiar (Mataram Meu Irmão, Elegia de um Crime) e experimentações também sobre personagens clássicos da literatura e dramaturgia (Hamlet), o cineasta Cristiano Burlan entregou uma visão bastante pessoal do vampiro que atravessou séculos e teve versões cinematográficas assinadas por F. W. Murnau e Werner Herzog.

O Nosferatu de Burlan (interpretado por Rodrigo Sanches) vaga pelos cais desolados da cidade de Santos - onde foi filmada 70% da produção - e tanto assombra quanto é assombrado por figuras como uma mulher-fantasma questionadora ou um deslocado lutador de artes marciais.

O filme de Burlan não busca uma unidade narrativa, acompanhando esse personagem solitário, cuja monstruosidade ressoa como solidão, falta de lugar no mundo, o que é materializado por falas extraídas de textos de Carlos Drummond de Andrade, Virginia Woolf e William Shakespeare - mas que não são artificiais, nem soam como pedantismo, porque se inserem organicamente na trajetória destes personagens, como os interpretados por Jean-Claude Bernardet, recentemente falecido, e a sempre magnética Helena Ignez.

Nosferatu, o filme, mostra-se uma experiência sensorial em que a fotografia em P&B, assinada por Cauê Angeli, remete a uma atmosfera de cinema mudo, de filme B dos anos 1930, para nos conduzir à indagação proposta pelo ator Henrique Zanoni no debate pós-filme, no Festival de Brasília: que monstro é esse? Num tempo em que a monstruosidade e o excesso desafiam definições, esta é uma pergunta mais do que pertinente. E não a única a nos guiar nesta suavemente empolgante tarefa de acompanhar Nosferatu por escadas, corredores e cais sombrios em busca de libertação e de luz. (Neusa Barbosa)

NOSFERATU, de Cristiano Burlan (88'). BRASIL.

CINESESC 26/10/25 - 21:10

RESERVA CULTURAL - SALA 1 29/10/25 - 15:00

Jovens Mães

Vencedor do prêmio de melhor roteiro e também do júri ecumênico em Cannes, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne imprimem impacto emocional a este Jovens Mães, um drama que retrata os dilemas de uma série de mães solteiras adolescentes, às voltas com famílias desestruturadas, parceiros imaturos e suas próprias fragilidades para encarar a maternidade e o próprio futuro.

Não é uma obra à altura de Rosetta e A Criança, as Palmas de Ouro destes incansáveis diretores humanistas, em 1999 e 2005, nem de outros títulos fortes, como O Filho, mas certamente é melhor do que os mais recentes Tori e Lokita e O Jovem Ahmed - porque toma o pulso de uma situação contemporânea, inclusive em outros países, como o Brasil, num contexto europeu, em que certamente a assistência social é mais ampla. Ainda assim, entra em foco a fragilidade humana destas personagens em seu começo de vida atribulado, a que ainda irá somar-se a vulnerabilidade das próprias crianças, vindas ao mundo num contexto desfavorável. (Neusa Barbosa)

JOVENS MÃES (JEUNES MÈRES), de Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne (105').

CINEMATECA SALA PETROBRAS 26/10/25 - 21:00

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2 28/10/25 - 21:20

CINESESC 29/10/25 - 21:00

CULTURA ARTÍSTICA 30/10/25 - 19:40

O Riso e a Faca

Representante luso-brasileiro na seção competitiva Un Certain Regard, o filme de Pedro Pinho envereda pelo interior da Guiné-Bissau para compor um relato sobre a permanência do colonialismo através das experiências de um engenheiro, Sérgio (Sérgio Coragem). Português, ele chega a uma localidade que se prepara para a construção de uma estrada que afetará profundamente a vida dos moradores locais. O recém-chegado é encarregado de escrever um relatório de impacto ambiental, urgente para liberar a obra, receptora de fundos internacionais.

Desde o começo, o filme de Pedro Pinho (conhecido por seu magnífico trabalho anterior, A Fábrica de Nada), arma uma atmosfera de estranheza, amparada no choque cultural, na demolição das certezas, inclusive as bem-intencionadas e politicamente corretas, de que o jovem engenheiro vem imbuído. Ele não tarda a receber lições de vida de duas descoladas figuras locais, Gui (o ator brasileiro Jonathan Guilherme) e Diára (a atriz cabo-verdiana Cléo Diára), por quem, aliás, se sente sexualmente atraído. E, também nessa esfera íntima, Sérgio terá muito a aprender.

A longo das extensas 3 horas e meia de duração, O Riso e a Faca - que colhe seu nome de uma música de TomZé - , insere todo um contexto, que permite vislumbrar tanto a vitalidade cultural guineense quanto uma crônica pobreza e falta de estrutura, esta uma herança maldita de uma colonização portuguesa que, como todas as outras, fixou-se na exploração extensiva dos recursos naturais, abandonando a população negra à própria sorte, sem educação, sem saneamento básico, sem estradas, criando essas lacunas que perduram até agora.

O engenheiro, então, torna-se um personagem à deriva em muitos desses embates, abalado por preocupações éticas com esse povo que começa a conhecer e a gostar e as pressões dos próprios patrões para que produza rapidamente o relatório que libera a obra da estrada. Também é sintomática a sequência que mostra outros funcionários portugueses da empresa, que se comportam exatamente como seus antecessores colonizadores em relação aos empregados locais. Nada mudou em sua mentalidade.

A equipe técnica do filme é composta por 31 brasileiros, como a produtora Tatiana Leite, o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo e a montadora Karen Harley. (Neusa Barbosa)

O RISO E A FACA, de Pedro Pinho (211').

RESERVA CULTURAL - SALA 2 17/10/25 - 19:30

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 3 26/10/25 - 17:15

A Incrível Eleanor

Este delicado filme de estréia na direção da atriz Scarlett Johansson é sobre Holocausto, mas não exatamente. É também, talvez ainda mais, um filme sobre a construção de narrativas no presente, e sobre o famoso lugar de fala – embora não use esses termos. O longa traz um dupla luminosa como protagonista: June Squibb, como a personagem-título, e Erin Kellyman, como Nina, uma estudante de jornalismo.

O roteiro da estreante em cinema Tory Kamen começa mostrando o cotidiano de Eleanor e sua melhor amiga, Bessie (Rita Zohar), que moram juntas num apartamento na Flórida desde que ficaram viúvas. A morte de Bessie, no entanto, obriga a protagonista a ir morar em Nova York, perto da filha, Lisa (Jessica Hecht), que insiste que a mãe deve se mudar para uma casa de repouso, onde terá os cuidados necessários.

Uma série de eventos inexplicáveis levam Eleanor a contar uma história de sobrevivência no Holocausto no grupo de apoio a sobreviventes. Acontece o que ela conta aconteceu na verdade com Bessie e seu irmão, mas a protagonista omite esse detalhe. Nina, que participa do encontro, fica encantada com a história, e pede para fazer um artigo sobre Eleanor. Sem saber como reagir, ela toma a história como sua e segue com a mentira.

O filme questiona não apenas quem tem direito de contar uma narrativa, como se isso fosse o mais importante diante do fato de que uma história precisa ser contada. São temas complexos e muito atuais com os quais Johansson lida de forma sincera, por meio de suas personagens bem-intencionadas.

Nina é filha de Roger (Chiwetel Ejiofor), apresentador de um programa de televisão que faz perfis de nova-iorquinos comuns – Eleanor é fã do programa e do jornalista. Ele e sua filha, porém, têm um trauma para lidar, a morte da esposa dele e mãe da garota há alguns meses. Incapazes de conversar sobre isso ou vivenciar o luto, eles parecem estar se afastando.

É Eleanor quem vem ao auxílio de Nina. É preciso aceitar, em primeiro lugar, que a protagonista é, para usar uma gíria estadunidense, uma Karen, com certa empáfia e gosto por dar ordens às pessoas – mas uma Karen de bom coração. E Squibb imprime sua naturalidade à personagem, que poderia ser odiada diante de tudo que faz. Mas conseguimos compreendê-la como uma mulher solitária, pega numa armadilha por uma mentira que achou que não iria longe. A relação entre ela e Nina se torna cada vez mais forte, e é nesse laço que as duas encontram a força para lidar com as perdas.

O filme toma alguns caminhos óbvios, mas nem por isso perde sua delicadeza. Johansson demonstra ter aprendido algumas coisas com diretoras e diretores com quem trabalhou – como Robert Redford e Sofia Coppola. Ela ainda não tem, é claro, a maturidade e o domínio do ofício, mas foi esperta o bastante para se cercar de profissionais competentes – como é o caso da diretora de fotografia francesa Hélène Louvart (parceira de Karim Aïnouz em diversos filmes, como A Vida Invisível), que constrói imagens com textura como ninguém atualmente, e, por meio da destreza dela, o filme ganha ainda mais camadas. (Alysson Oliveira)

A INCRÍVEL ELEANOR (ELEANOR THE GREAT), de Scarlett Johansson (98').

MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 - 25/10/25 - 21:30

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 3 - 28/10/25 - 14:00

Ontem à Noite Conquistei Tebas

Vencedor de merecidos prêmios de roteiro e fotografia na Jornada dos Autores, em Veneza, trata-se de um filme simples que encontra nessa simplicidade sua complexidade. Com uma piscadela para o estilo da dupla Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, o cineasta espanhol Gabriel Azorín junta passado e presente num tênue fio que transporta e media relações pessoais de maneira histórica, refletindo sobre a construção do tempo histórico por meio da vida pessoal.

O cenário é real: Aquis Querquennis, conhecido como A Cidá, é um antigo acampamento romano, situado na Galícia, e ocupado entre o último quarto do século I e meados do século II. Nesse local histórico, aberto ao público, um grupo de rapazes vai passear. Eles andam pelas ruínas e a câmera os acompanha. São jovens descobrindo o passado histórico, impressionados com a beleza e potência do lugar.

À noite, depois de observar as estrelas, numa banheira das termas do local, António (Santiago Mateus) conversa com Jota (António Gouveia) e revela sua admiração pelo amigo. Num longo plano, delicado e sem pressa, Azorín, que assina o roteiro com Celso Giménez, constrói tanta tensão sexual entre os dois jovens que parece que a cena irá explodir. Mas isso não acontece – estranhamente, o presente é mais travado, nele há mais dificuldade de abordar os sentimentos do que no passado.

O filme corta, então, para um passado remoto, no qual Aurelius (Oussama Asfaraah) e Pompeu (Pavel ?emeriki?), que falam latim, tomam o último banho antes de partirem para a Dácia (atual Romênia). Eles conversam sobre a guerra, sobre as saudades, os medos e sentimentos.

O espelhamento entre os dois tempos, dentro do filme, não é simétrico. Azorín busca dissonâncias que reverberem sem repetir-se ciclicamente, assim os tempos passado e presente não são correlatos e sim momentos próximos, protagonizados por jovens rapazes e sentimentos borbulhantes como as águas das termas. A montagem de Ariadna Ribas não tem pressa na organização e composição da narrativa, dos planos longos e donos de seus próprios tempos.

A beleza de Ontem À Noite Conquistei Tebas transita entre os sentimentos e sonhos dos personagens e a força formal do longa. A fotografia de Giuseppe Truppi não apenas exalta a beleza natural do lugar, mas se empenha em mostrar as composições de luz natural e suas transições que, estas sim, espelham sentimentos e expectativas. E, mais do que um filme, este é uma experiência sensorial, que demanda atenção – mas o que tem para dar em troca compensa todo segundo devotado a ele. (Alysson Oliveira)

ONTEM À NOITE CONQUISTEI TEBAS (LAST NIGHT I CONQUERED THE CITY OF THEBES), de Gabriel AzorÌn (111').

Cine Segall
-
25/10/25 - 14:00


Corpo Celeste

No final dos anos de 1980, Celeste (Helen Mrugalski) é uma adolescente de 15 anos, às vésperas da queda do ditador Augusto Pinochet. Ela mora no norte o Chile, próxima ao deserto do Atacama, uma região que lhe é cara, um lugar onde passa as horas, onde se sente em casa, onde pensa sobre a vida. Nessa mesma região, um lugar de alegria, cadáveres de opositores à ditadura começam a ser encontrados.

“Eu cresci naquela região”, conta a diretora e roteirista do longa Corpo Celeste, Nayra Ilic García. “E, embora não seja exatamente uma história autobiográfica, algumas coisas aconteceram comigo. Quando começaram a encontrar os corpos enterrados no deserto foi um choque para mim. Como aquele lugar que me trouxe tanta alegria podia esconder esses crimes horríveis?”

A ideia para o filme começou em 2018, quando a diretora teve uma perda pessoal, que a marcou muito, e começou a pensar, também, nos corpos mumificados encontrados no Atacama. “Eu tinha que falar sobre isso. É uma história do Chile, e de tantos países da América Latina, que não pode ser esquecida, para que não se repita. Se não nos lembrarmos do que aconteceu, não podemos fazer um futuro diferente”.

Ilic García aponta que a ultradireita, não só no Chile, tem a estratégia exatamente de apagar a história, ou contá-la de outra forma, como lhe convém, e o cinema e outras artes têm o dever de lutar contra isso. “Se não formos incisivos sobre os crimes do passado, eles acontecem novamente, basta olhar Gaza. Vemos a todo momento a catástrofe nos nossos telefones, e acho que, como cineasta, temos a obrigação de discutir política, discutir o mundo em que vivemos.”

Helen Mrugalski, protagonista do filme, tinha apenas 14 anos quando foi rodado. Ilic García lembra que a mãe da jovem estava todo dia nos sets, acompanhando a filha, e essa mulher é da mesma geração da personagem, por isso, suas próprias memórias foram tão ricas na construção de Celeste dentro do filme e na atuação da protagonista. “Ela contava muito sobre suas experiências e suas memórias daquela época, quando a ditadura estava caindo. Na época, a Helen não entendia muito, mas hoje ela compreende a história, e se tornou uma espécie de ativista política entre os jovens”. (Alysson Oliveira)

CORPO CELESTE (CUERPO CELESTE), de Nayra Ilic GarcÌa (97'

MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 4
26/10/25 - 15:00

Irmão Versos Irmão

A primeira coisa que aparece na tela nesta comédia musical é o crédito de produtor executivo para Francis Ford Coppola. “A gente mandou o filme para ele, e recebemos a resposta negativa. Vinte minutos depois, veio uma mensagem dele mesmo dizendo que cometeu um erro, e que, sim, queria ser produtor do filme”, diverte-se, comemorando o feito, o diretor, roteirista e protagonista do longa, Ari Gold.

O filme, de 91 minutos, foi feito num plano-sequência, e Gold, sempre muito divertido, diz não contar o segredo se foi mesmo filmado de uma vez: “Seria a mesma coisa que David Copperfield revelar como fez uma mágica”. A questão, como ele mesmo diz, é passar a ideia de um cinema vivo que interage com as pessoas de San Francisco.

O longa é resultado de um experimento que ele queria fazer ao lado de seu irmão, o músico Ethan Gold, e seu pai, o escritor Herbert Gold, que estava doente durante as filmagens, morreu em novembro de 2023, aos 99 anos, e não pôde ver o filme completo. “O filme foi uma maneira de homenagear nosso pai e manter sua memória viva”.

No longa e na vida, os dois gêmeos têm personalidades bastante distintas. Ari é expansivo e otimista, Ethan mais tímido e um tanto pessimista – especialmente em relação à sua carreira de músico. Andando pelas ruas, discutem sobre suas visões de mundo, suas carreiras e sobre a família. O próprio título do longa (no original, Brother Verses Brother) incorpora um trocadilho que parte de um livro que Ari escreveu com o pai, Father Verses Sons, de 2024. “É a ideia tanto de embate mas também de poema, dos versos que fazemos juntos nas músicas”.

Gold conta que fez muitos preparativos, como planejar o trajeto que ele e seu irmão fariam pelas ruas da cidade e onde entrariam, por exemplo, mas estava aberto ao inesperado. Logo no começo, a dupla, que canta diversas músicas – compostas por Ethan –, para diante de um grupo de pombos que comem migalhas na rua, e se prepara para cantar para as aves, mas elas saem voando assim que começam.

“Isso foi incrível, era o tipo de coisa que eu queria que acontecesse. Há outros momentos, como numa cena em que um casal está brigando ao fundo. Muita gente acha que eram atores, fazendo algo preparado, mas não eram. É realmente um casal que brigava naquele momento.”

O longo plano-sequência, argumenta Gold, é uma escolha não apenas estética, mas também política. Num momento em que vídeos giram em torno de segundos para capturar a atenção nas redes sociais, fazer um filme sem cortes é digladiar com a ansiedade das pessoas que têm dificuldades de se concentrar em qualquer imagem que não tenha cortes a cada poucos segundos.

“Seria muito fácil fazer um filme convencional. E, digo mais, seria menos trabalhoso. Eu poderia dar closes, fazer imagens mais próximas, mais distantes, mas não teriam o mesmo efeito que eu procurava aqui. E é preciso que muita coisa sempre esteja acontecendo na tela, para que o público não se entedie.” (Alysson Oliveira)

IRMÃO VERSOS IRMÃO (BROTHER VERSES BROTHER), de Ari Gold (91').

MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 5
25/10/25 - 18:45

Quem Ainda Está Vivo

Os números do genocídio em Gaza são sempre estarrecedores, mas, ainda assim, estão no campo do abstrato. O documentário Quem Ainda Está Vivo, do suíço Nicolas Wadimoff, no entanto, dá um rosto às vítimas da guerra e destruição, sobreviventes de um genocídio que trazem em si marcas físicas e emocionais da experiência devastadora.

Em entrevista ao Cineweb, o diretor conta que esse não é seu primeiro filme sobre a Palestina, mas que depois que começou uma nova guerra, em 2003, ele não tinha como não voltar ao assunto. “Eu estava planejando um longa de ficção que não tinha nada a ver com Gaza. Era um projeto no qual que estava trabalhando há mais de 4 anos, mas não tinha como seguir em frente, a urgência do genocídio, da guerra pedia que eu voltasse ao tema.”

Ele define
Quem Ainda Está Vivo como um filme sobre a perda da humanidade do mundo aceitando essa matança sem reagir a ela. “Se aceitamos isso, vamos aceitar qualquer coisa. As pessoas dizem ‘Holocausto nunca mais’, mas estamos diante de um genocídio novamente.”

Para fazer o documentário, Wadimoff não podia voltar a Gaza novamente, por isso teria de contar as histórias de quem conseguiu escapar de lá. Os entrevistados eram pessoas que ele já conheciam de suas visitas à Palestina, ou amigos e amigas, ou parentes dessas pessoas. Ainda assim, ele explica que foi preciso um processo de aproximação para ganhar confiança mútua.

“Eles precisavam estar muito confortáveis diante da câmera, precisavam confiar em mim, porque eu iria mostrar suas histórias, dar voz a eles, sem torná-lo algo sensacionalista ou desrespeitoso”.

O longa foi rodado na África do Sul, o único país que abrigou esses refugiados, uma vez que a Suíça lhes negou visto. Wadimoff conta que trabalhou com uma equipa suíça e sul-africana nas filmagens e, ao final, de cada depoimento, estavam todos muito emocionados, diversas pessoas da equipe chorando. “A equipe da África do Sul era composta exclusivamente por pessoas negras. Elas conheciam bem o sofrimento da exclusão, quando viveram durante o apartheid. A experiência dos palestinos os tocou demais.”

No filme, o diretor usa um dispositivo que ele credita à artista brasileira Fabiana de Barros, de quem é amigo há muitos anos. Numa primeira parte do longa, sobre uma mesa preta, os depoentes desenham suas casas, sua geografia na Palestina. Um deles, um músico, mostra seu caminho de todos os dias, da casa para o estúdio, do estúdio para a praia até voltar para casa. Agora, conta, está tudo destruído.

“Foi um processo orgânico trabalhar com a mesa e a caneta branca. E também creio que ajudou a essas pessoas a se abrirem. Não estavam paradas diante de uma câmera contando suas histórias, há uma dinâmica que, creio, ajudou a trazer à tona memórias e organizar os pensamentos.”

Num segundo momento do documentário, há um mapa da Palestina, e quadrados no chão, onde cada pessoa se coloca para contar mais sobre suas experiências recentes. “Num certo momento, eu pensei em ‘recriar’ a Palestina, na Sicília ou no Egito, que têm uma paisagem parecida. Mas não fazia sentido, e era também desrespeitoso com eles, as vítimas do genocídio e com as cidades destruídas. Então desenvolvemos essa maneira simbólica de representar aquele lugar.” (Alysson Oliveira)

QUEM AINDA ESTÁ VIVO (WHO IS STILL ALIVE), de Nicolas Wadimoff (115').

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA ANEXO 4 - 25/10/25 - 21:00

A Luta

Escolhido pelo público entre os 12 finalistas desta edição da Mostra, o espanhol A Luta pode parecer, num primeiro momento, um filme de esportes, mas não é o caso. A tradicional luta canária é um elemento que dá condições aos personagens de lidar com seus traumas e perdas.

Dirigido por Jose Alayón, o longa é uma delicada investigação sobre como um pai e sua filha lidam com a perda da mulher e mãe. Miguel (Tomasín Padrón) é um lutador profissional de luta canária e não se entende mais com sua filha, a jovem Mariana (Yazmina Estupiñán), desde a morte da mulher. Cada um enfrenta o luto de uma forma.

Alayón conta que a luta canária é uma tradição muito forte na ilha, onde ele nasceu e vive. Na infância, chegou a praticar o esporte na escola, mas não levava jeito para isso, mesmo sendo corpulento. “É algo muito forte nas Ilhas Canárias, mas nunca teve uma representação cinematográfica relevante. Assistindo a um campeonato, comecei a pensar nela como um elemento para um filme. Ela surgiu quando houve a colonização espanhola, mas acabamos tomando-a para nós e se tornou uma espécie de elemento de resistência. Essa apropriação se tornou um ato político.”

O diretor passou dois anos em busca do ator e da atriz que fariam os papeis centrais. Nesse processo, testou praticamente todos os cerca de 3 mil lutadores que há na Ilha. “Eu tinha duas opções: ensinar um ator a lutar, ou um lutador a atuar. Acabei preferindo a segunda opção, pois só assim traria verdade ao filme. Fora isso, Padrón nos ajudou muito na construção do personagem e da trama, pois ele conhece muito esse mundo da luta.”

Já Yazmina, também foi encontrada depois de um longo processo e trouxe muitas de suas experiências para o filme também. “Ela vivia num projeto social, havia perdido os pais. Eu não dei o roteiro pronto para os dois atores. A cada dia, antes das filmagens, discutíamos a cena, o que os personagens poderiam dizer um para o outro, e assim construímos o longa.”

Fotografado por Mauro Herce (o mesmo diretor de fotografia de Sirat), A Luta, mesmo mostrando as belezas da ilha Fuerteventura, que faz parte do arquipélago, foge do retrato turístico do local. Alayón explica que ele, assim como outros cineastas locais, batalha pelo incentivo do cinema canário. “Há muitas filmagens lá. Diretores estadunidenses e europeus filmam na ilha, mas a usam como cenários de outros lugares. Seus filmes não são sobre nossa cultura, nosso povo, mas, ainda assim, o governo incentiva financeiramente essas filmagens, pois elas fomentam o turismo. Nossa luta é para o incentivo ao cinema local.” (Alysson Oliveira)

A LUTA (LA LUCHA), de José Alayón (92').

CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP - 26/10/25 - 17:00