21/07/2026

"O Agente Secreto", "Dracula" e divas são atrações na sexta (24) na Mostra

O Agente Secreto

Vencedor de quatro prêmios no Festival de Cannes e candidato do Brasil a uma vaga no Oscar de filme internacional, este é um filme que desafia classificação, reunindo detalhes reveladores da sólida estruturação de uma obra que articula vários gêneros e tons, criando uma multiplicidade que aspira a sintonizar a própria complexidade do Brasil.

Com enredo ambientado em 1977, o filme não é sobre o passado, mas sobre o presente. Porque a saga do protagonista, o professor universitário Marcelo (Wagner Moura), um homem que foge a uma perseguição política obscura, comunica-se com a ideia de um país que ainda não fez as pazes com todas as memórias desse passado, dessa ditadura que matou, torturou e exilou e que foi encerrada mediante uma anistia que deu a falsa impressão de uma pacificação que nunca houve - porque os criminosos do regime não foram punidos.

Não é que a história do filme proponha nenhuma revanche. Ela apenas resgata relatos de um tempo não tão distante em que os poderosos mantinham uma aliança nem tão disfarçada com matadores e policiais sem escrúpulos e as pessoas que incomodavam os círculos do poder tinham que recorrer a uma rede clandestina de apoio, desmontando toda possibilidade de manterem uma vida normal.

E se o humor também comparece é pela via do macabro, com o surgimento de uma perna humana na boca de um tubarão e dos relatos da imprensa popularesca sobre os ataques dessa perna em locais como parques públicos - e que era uma espécie de metáfora para descrever os excessos policiais que nenhuma imprensa podia denunciar explicitamente, mas boa parte do público decifrava o código.

E, se não propõe revanche, O Agente Secreto repropõe o resgate da memória - que é um tema constante no Brasil, mas aqui encontra uma substância diferente. O filme é sobre tudo isso e muito mais.

Na coletiva concedida em sua première mundial, em Cannes, Mendonça Filho comentou sobre as semelhanças temáticas apontadas entre seu filme e o premiado Ainda Estou Aqui, de Walter Salles: “São dois irmãos que não sabiam que existiam. Bem diferentes, mas com uma frequência interior em comum, em tema e sentimento”. O diretor reiterou que os dois filmes foram feitos num mesmo ano “sem combinação, nem planejamento, falando de uma memória histórica com efeitos sobre o tempo presente”.

Para Mendonça Filho, “o Brasil tem um grande problema de amnésia autoaplicada”, decorrente da anistia de 1979, “propiciada pelo próprio governo militar, que praticou inúmeros atos de violência”. Isto, para ele, “causou um trauma, porque foi normalizado cometer todo tipo de violência e depois passar um pano. Esse foi um elemento muito forte para eu querer fazer esse filme, essa ideia de memória”.

Num elenco que registra a presença de inúmeros atores consagrados em pequenos papéis - caso de Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Alice Carvalho, Hermila Guedes, Isabel Zuaá e incrível Tânia Maria -, o filme se aproveita das participações de cada um para dar um sólido contexto da época. Que o Brasil saiba recebê-lo de coração e mente abertos. (Neusa Barbosa

O AGENTE SECRETO, de Kleber Mendonça Filho (158').

CINEMATECA SALA PETROBRAS 24/10/25 - 15:40

CINESESC 25/10/25 - 16:40

CULTURA ARTÍSTICA 28/10/25 - 20:00

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2 29/10/25 - 19:40

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1 29/10/25 - 19:40

Dracula

Radu Jude continua com suas investigações sobre a pós-modernidade em seu Dracula, que parte de pequenas variações da história original construídas por inteligência artificial. Se até então os filmes do cineasta romeno lidavam com a paródia, esse trabalho é moldado pelo pastiche, o que perde qualquer viés crítico e se torna uma brincadeira um tanto inócua – divertida nos primeiros minutos, mas depois cansativa em suas quase 3 horas, nas quais o filme circula em torno de si mesmo.

Em cena, há um cineasta (Adonis Tanta), uma espécie de alter-ego de Jude, um sujeito pensando em fazer uma adaptação de Dracula (mais uma!), mas recorre à IA, dando apenas alguns comandos. A ideia é mais interessante em si do que o resultado, que varia em torno do mesmo tema sem avançar na discussão, por exemplo, do uso desse dispositivo na arte.

Filmado em câmera digital, tudo parece amador e descuidado – e essa é a proposta mesmo, ao contrário, da adaptação suntuosa e competente de Francis Ford Coppola, dos anos de 1990, ou a fraca leitura do francês Luc Besson, que chegou aos cinemas este ano. Jude brinca com as possibilidades respondendo ao que ele chama de anseios do público, com nudez, sexo e violência.

O melhor segmento traz um Dracula Karl Marx e refere-se à greve dos trabalhadores ferroviários romenos de 1933. Esse acontecimento ressoa no presente, quando trabalhadores e trabalhadoras cansam de ser explorados e exploradas e decidem tomar o poder na fábrica. O próprio Marx usou a metáfora do vampiro que se alimenta do trabalho para acumular riquezas, e o capital (morto) só existe por sugar o trabalho (vivo). São ideias que o filme trabalha, mas nem originais são.

Ainda interessado em vampiros? Na Mostra, há o brasileiro Nosferatu, de Cristiano Burlan, uma leitura experimental e mais criativa e mais interessante do que o filme de Jude. (Alysson Oliveira)

DRACULA, de Radu Jude (170').

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2 - 24/10/25 - 18:30

CINEMATECA SALA PETROBRAS - 25/10/25 - 14:00

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1 - 28/10/25 - 15:30

Um Corpo que Cai, por Kim Novak

Aos 92 anos, Kim Novak é mais lembrada por seu papel marcante em Um Corpo Que Cai (1958), de Alfred Hitchcock, apesar de pouco mais de 30 trabalhos como atriz. O diretor suíço-estadunidense Alexandre O. Philippe tira proveito disso em seu documentário Um Corpo Que Cai, Por Kim Novak – um título quase oportunista diante do que o filme tem a oferecer.

Claramente fã da atriz (o que não é um problema), Philippe mostra-se bastante interessado em trivialidades da vida de Novak do que algo mais profundo, analítico ou complexo. Assim, mesmo o longo depoimento dela não segura os parcos 77 minutos do documentário, que, um tanto sem rumo, navega por sua vida pessoal e carreira.

Com certo encanto pela bela casa da atriz, o filme beira um enfoque de revista de fofoca de celebridades. Embora no começo, numa nota que ela mesma enviou a ele, Novak diz estar idosa e doente, na tela ela se mostra cheia de energia e empolgação. Pena que o filme direcione tudo isso de forma pouco interessante, concentrando-se mais tempo do que o necessário, por exemplo, nas pinturas que ela fez ou na decoração de sua casa.

Ela fala bastante de James Stewart, seu companheiro de cena em Um Corpo Que Cai, mas, frustrantemente, pouco de Hitchcock. Já para os brasileiros, um interesse particular: entre os souvenires que Novak guarda de sua carreira, está a capa da revista brasileira O Cruzeiro, de março de 1960, quando ela veio ao Brasil para o Carnaval. (Alysson Oliveira)

UM CORPO QUE CAI, POR KIM NOVAK (KIM NOVAK'S VERTIGO), de Alexandre O. Philippe (76').

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1 - 24/10/25 - 13:30

Broken English

Dirigido por Iain Forsyth & Jane Pollard, Broken English é um documentário bastante inconvencional para retratar uma personagem não menos capaz de caber nesta definição - a cantora e compositora britânica Marianne Faithfull (1946-2025).

Tomando emprestado o título de uma canção da própria Marianne, de um álbum de 1979, o filme permite-se várias liberdades de linguagem ao incorporar diversos materiais de arquivo, mostrados à própria Marianne, idosa e com sua saúde comprometida pelos efeitos da Covid, mas ainda sacudida e bem-humorada como sempre.

Ela é, assim, colocada diante de vários momentos de sua longa e aventurosa vida, quando despontou, ainda muito jovem, aos 19 anos, para o mundo da música pop, envolvendo-se com os Rolling Stones e tornando-se companheira de Mick Jagger - o que se transformou num rótulo a que a mídia tentou limitá-la, negando-se a reconhecer o talento, a criatividade e a ousadia desta mulher intensa, que se lançou a ser compositora numa época em que isso não era reconhecido às mulheres, sendo invisibilizada por muito tempo. Mas, dotada de uma admirável inteligência e energia, além de um pouco de sorte, Marianne soube sobreviver a tudo, inclusive a episódios de dependência de drogas e tentativas de suicídio, sempre se reinventando.

Recorrendo também a um dispositivo meio futurista, do qual participa a atriz Tilda Swinton - que, na verdade, não tem muita função -, o filme dá voz a esta personagem extraordinária, que revê suas entrevistas, o preconceito de vários de seus entrevistadores e analisa como o tratamento da mídia procurou reduzi-la a uma mulher promíscua, viciada e ex-de Jagger, nada mais. Uma mesa de intelectuais feministas integra uma das partes do filme, dando suporte a uma revisão da imagem desta mulher incrível, que morreu em janeiro deste ano. Mas o filme nos permite deleitar-nos um bocado com suas tiradas espirituosas e suas músicas. (Neusa Barbosa)

BROKEN ENGLISH, de Jane Pollard, Iain Forsyth (96').

MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 5 24/10/25 - 16:20

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA ANEXO 4 25/10/25 - 13:30

CINEMATECA - SALA OSCARITO 27/10/25 - 15:40

CINE SATYROS BIJOU 29/10/25 - 19:30

Cabelo, Papel, Água…

A força do tempo e a resistência da memória são a tônica do documentário do vietnamita Truong Minh Quý e do belga Nicolas Graux, que acompanha uma senhora idosa e seu pequeno neto na província de Quang Bình, no Vietnã. Ambos fazem parte da pequena comunidade Ruc, cuja língua de mesmo nome está prestes a desaparecer, pois há poucas pessoas que ainda a falam.

Cao Thi Hâu nasceu numa caverna, próxima à fronteira com o Laos e toma conta do neto, cujos pais foram embora e nunca mais voltaram: o pai sumiu e a mãe se mudou para a cidade para trabalhar. O destino das pessoas dessa comunidade é basicamente esse, e os que ficam, além de tentar sobreviver às condições difíceis, são os guardiões de uma cultura.

De forma impressionista e com pouco intromissão, Minh Quý e Graux acompanham o cotidiano dessas duas figuras, enquanto a mulher mais velha tenta transmitir ao neto os conhecimentos sobre a língua Ruc. Ela ensina palavra por palavra, e essas aparecem, também, na tela, como se o próprio público fizesse parte desse processo de preservação dessa cultura.

Filmado numa antiga câmera Bolex 16mm, Cabelo, Papel, Água... traz em si o intimismo da relação pessoal entre avó e neto e, também, algo parecido com filmes caseiros. Assim observamos de maneira delicada o mundo mantido vivo por um fio, e, nesse sentido, o documentário se torna um registro ainda mais potente e importante. (Alysson Oliveira)

CABELO, PAPEL, ÁGUA... (HAIR, PAPER, WATER), de Nicolas Graux e Truong Minh Quy (71').

INSTITUTO MOREIRA SALLES – PAULISTA -
24/10/25 - 15:10

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA ANEXO 4 - 25/10/25 - 15:30

RESERVA CULTURAL - SALA 2
-
30/10/25 - 20:25