Cults de Veneza e raro filme nigeriano animam a quinta-feira
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 22/10/2025
- Tempo de leitura 14 minutos
No Other Choice
Autor da consagrada trilogia Mr. Vingança (2002), Old Boy (2003) e Lady Vingança (2005) e prêmio de direção em Cannes pelo elegante noir Decisão de Partir (2022), Chan-wook atinge o auge da forma ao estruturar o relato de destruição de uma família, adaptando o romance The Ax, dom autor norte-americano Donald Westlake. Tudo começa quando um executivo da indústria de celulose, Mansoo (Lee Byung-hun), perde o emprego que conquistou há 25 anos, tornando-se um inseguro peão ao sabor da angústia de procurar um novo posto num contexto em que empregos são uma espécie em extinção – e os que restam são de baixa qualificação e salário.
À medida que os meses passam, e seu desespero cresce, abalado por entrevistas infrutíferas de emprego, a maneira que ele encontra para lidar com essa escassez, que o ameaça de perder tudo que conquistou – como a casa dos sonhos e o nível de vida alcançado por sua mulher, Miri (Son Ye-jin), e filhos – coloca-o diante de um progressivo processo de diluição, inclusive moral. No limite, Mansoo passa a enxergar como saída a eliminação física de seus adversários – ou seja, homens que, como ele, têm experiência na indústria de papel e disputam as mesmas poucas vagas do mercado.
Tanto quanto Parasita, de Bong Joon-ho, para citar outro sul-coreano afiado, Chan-wook sabe explorar as diversas camadas deste impasse social, bem como deste profundo mal-estar da classe média, que alcançou status e conforto, acreditando poder passá-los à próxima geração, apenas para se ver lançada no turbilhão de um mundo em que valores como organização comunitária, sindical e política estão sofrendo de sérios revezes.
Este novo mundo, individualista, impiedoso e regido por rituais em que a sinceridade equivale a um defeito, gera indivíduos como Mansoo – sem que o filme se lance a julgamentos nem o prive de complexidade. A riqueza de todos os personagens, incluindo as crianças da família, é aliás um dos pontos altos de uma obra que é a indicada da Coreia do Sul para disputar uma vaga no Oscar. (Neusa Barbosa)
NO OTHER CHOICE, de Park Chan-wook (139').
CINEMATECA SALA PETROBRAS 23/10/25 - 18:30
SATO CINEMA 25/10/25 - 16:30
CULTURA ARTÍSTICA 29/10/25 - 12:00
Pai Mãe Irmã Irmão
Desde o princípio do Festival de Veneza, o novo filme do norte-americano Jim Jarmusch, pareceu uma produção capaz de agradar ao presidente do júri este ano, seu compatriota cineasta, Alexander Payne. E afinal o filme venceu mesmo o Leão de Ouro, derrotando o franco favorito, a contundente produção tunisiana The Voice of Hind Hajab, que ficou com o Grande Prêmio do Júri.
Jarmusch exerce seu estilo sutil para desenvolver três histórias de família bastante inusuais - pelo menos, as figuras que as protagonizam não cabem no figurino tradicional. Na primeira, é um pai (Tom Waits), que nunca na vida foi muito confiável e recebe a visita dos dois filhos (Adam Driver e Mayim Bialik). Na segunda, é uma mãe distante e fria (Charlotte Rampling), também recebendo a visita anual (!) das duas filhas (Cate Blanchett e Vicky Krieps). Na terceira, um par de irmãos gêmeos (Luka Sabbat e Indya Moore) se reencontram para decidir o que fazer com as coisas e as lembranças dos pais que acabam de morrer.
Pai Mãe Irmão Irmão é repleto de pequenos detalhes e muito do que ele quer dizer se define a partir do que não se diz, ou não se faz. Aí está a sua complexidade e a sua dificuldade. É o tipo do filme que, se você piscar, pode perder alguma coisa importante - mas na vida também é assim. (Neusa Barbosa)
PAI MÃE IRMÃ IRMÃO (FATHER MOTHER SISTER BROTHER), de Jim Jarmusch (110').
CINESESC 23/10/25 - 18:20
CULTURA ARTÍSTICA 27/10/25 - 21:40
CINEMATECA SALA PETROBRAS 30/10/25 - 14:00
A Sombra do Meu Pai
Primeiro filme nigeriano exibido no Festival de Cannes, A Sombra do Meu Pai
merece reconhecimento não apenas por esse feito, mas, em especial, por suas qualidades sócio-históricas e cinematográficas. Dirigido por Akinola Davies Jr., a partir de um roteiro escrito por ele e seu irmão, o rapper Wale Davies, o filme acompanha um dia na vida de dois irmãos. Esse dia, no entanto, não é um dia qualquer – é 12 de junho de 1993, quando aconteceu a primeira eleição presidencial na Nigéria.
O candidato do então presidente militar Ibrahim Babangida, Bashir Tofa, foi derrotado pelo oposicionista Moshood Abiola. Diante disso, Babangida declarou que as eleições foram irregulares e deu a vitória a Tofa, o que desencadeou uma onda de protestos em todo o país, forçando o militar a renunciar. Esse dia crucial na história do país é visto pelo olhar de dois pequenos irmãos, que viajam com o pai da pequena cidade rural onde vivem para a capital do país, Lagos, para comemorar a esperada vitória da oposição.
Ganhador de uma menção especial no prêmio Caméra D’Or (concedido a diretores estreantes no Festival de Cannes), Davies Jr. conta em entrevista que o longa não é exatamente autobiográfico, mas os dois irmãos são construídos a partir de experiências e vivências dele e de Wale. “Meu pai morreu quando eu tinha 20 meses. Meu irmão era um pouco mais velho, mas se lembra muito pouco dele. E todo mundo sempre me fala como meu pai era uma figura popular e querida por seus amigos. Foi pensando nisso, imaginando como era o meu pai, que construí a figura paterna no filme”, conta em entrevista ao Cineweb em São Paulo.
No longa, o personagem paterno é interpretado por Sopé Dìrísù, experiente ator britânico, que assumiu a incumbência de cuidar dos dois pequenos atores estreantes, e também irmãos, Chibuike Marvellous Egbo e Godwin Egbo. “Ele estabeleceu uma relação muito especial com os meninos, não apenas como pai na tela, mas, também, fora dela. Foi muito acolhedor, protegendo os meninos o tempo todo”.
Akinola comenta que, inicialmente, seria um filme sobre pais e filhos. O pai trabalha fora da cidade o tempo todo, e vê os meninos raramente. Então nesse dia, enquanto a mãe deles está fora, pega os meninos e os leva consigo a Lagos.
“Mas só isso não seria suficiente. Ainda na fase do roteiro, meu irmão e eu percebemos que seria preciso trazer elementos mais complexos, e foi aí que a política entrou. Aquele foi um momento crucial à história do nosso país, e traz consequências até hoje. Acredito que em qualquer país que tenha vivido uma ditadura, como é o caso da Nigéria e do Brasil, as feridas históricas ficam para sempre. E é preciso sempre tratar desse assunto, para que uma ditadura não volte a acontecer”.
Ele aponta como vê no cinema uma ferramenta de memória histórica coletiva e, por meio dele, também, leva a cultura de seu país para outros lugares. “Eu vi muitos filmes sobre questões políticas. Muitos deles eram latinosamericanos, lidando com os traumas do passado. Eu acho importante falar sobre esses temas, e, também, desconstruir estereótipos como o que a Europa tem sobre a Nigéria. Nós temos uma cultura muito vibrante. O mundo conhece a Chimamanda Ngozi Adichie [escritora nigeriana, autora de livros como Americanah], e tenho muito orgulho disso, porque ela é muito inteligente e articulada.”
Para seu primeiro longa, Akinola também se cercou de estreantes, como o diretor de fotografia Jermaine Edwards, que até então só trabalhara como operador de câmera. “Eu pensei, num momento, que deveria contratar pessoas mais experientes para me ajudar. Mas como as pessoas irão ter experiência se ninguém lhes der uma chance? Então muitas pessoas estavam estreando como eu. Foi um trabalho que planejamos muito juntos. E filmar em película foi muito especial. Que diretor estreante consegue esse feito?”, celebra. (Alysson Oliveira)
A SOMBRA DO MEU PAI (MY FATHER'S SHADOW), de Akinola Davies Jr. (94').
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO – CCSP - 23/10/25 - 19:00
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2 - 28/10/25 - 19:20
A Irmã Mais Nova
A atriz francesa Hafsia Herzi estreia na direção com este filme intimista, em que ela explora os dilemas de uma jovem de 17 anos, Fatima (Nadia Melliti), que se descobre lésbica dentro de uma família muçulmana de origem argelina.
Assinando o roteiro, Hafsia parte de um romance homônimo da autora Fatima Haas, colocando em foco as dificuldades da jovem para encontrar lugar no mundo para o seu desejo - que a religião condena, como se mostra numa sintomática conversa com um clérigo islâmico.
O dilema de Fatima é esse - ela não deseja abrir mão da religião, nem da própria família, em que é a caçula de três irmãs. É uma família acolhedora, amorosa, mas onde também ela não encontra espaço para assumir claramente sua sexualidade. Aos poucos, ela começa a expressá-la em ambientes como bares lésbicos, apps de encontros, buscando autonomia.
É um filme carinhoso com a personagem, simpático em seus propósitos, mas também extremamente sutil e modesto em sua realização. Valeu o exercício inicial da diretora, que é uma atriz premiada com o César, tanto em O Segredo do Grão (2008) quanto no recente Borgo (2025), e a descoberta da promissora jovem atriz Nadia Melliti, muito natural no papel e merecedora do troféu de melhor atriz em Cannes. (Neusa Barbosa)
A IRMÃ MAIS NOVA (LA PETITE DERNIÈRE), de Hafsia Herzi (107').
CINESALA 23/10/25 - 21:00
RESERVA CULTURAL - SALA 1 25/10/25 - 16:40
CULTURA ARTÍSTICA 28/10/25 - 12:00
Folha Seca
O cinema do georgiano Alexandre Koberidze chama a atenção por sua inventividade e aspirações épicas apesar, apesar da maneira minimalista como ele o constrói. O filme que o lançou para o mundo, O Que Vemos Quando Olhamos Para o Céu, era uma saga de etérea beleza visual e delicadeza narrativa. Seu longa mais recente, Folha Seca, novamente pede atenção e paciência – mas o que ele tem a dar em troca compensa qualquer esforço.
Filmado com a câmera de um celular obsoleto de 2003, o longa de 3 horas é marcado pelas imagens de baixa definição. Às vezes tudo pode não passar de um borrão, mas nessa escolha estética o cinema de Koberidze se aproxima da pintura impressionista, marcada pelas pinceladas que podem ser um borrão de perto, mas, de longe, forma um quadro. O mesmo acontece aqui com as imagens. Os pequenos quadradinhos em si são um borrão, mas quando se olha a tela do cinema como um todo a composição é marcante por sua beleza, novamente etérea.
Há algo de brechtiano nesse estranhamento que nos lembra que isso é uma representação da realidade, e não a realidade em si. Há também a recusa a ceder à obsolescência programada da tecnologia e ao tempo acelerado do capitalismo tardio, que exige pressa e eficiência. Outra influência clara aqui: Abbas Kiarostami. Koberidze faz um filme que homenageia o mestre iraniano em sua simplicidade característica, e complexa compreensão da relação entre o humano e a natureza.
A trama – mais um pretexto para a existência do filme do que uma trama em si – acompanha Irakli (David Koberidze, pai do diretor) em busca de sua filha Lisa, uma fotógrafa de esportes que desapareceu sem deixar notícias. A única pista incerta ele recebe do editor de uma revista de esportes: a jovem tinha um projeto de fotografar campinhos de futebol pela Geórgia. A companhia desse pai em sua viagem é Levan (Otar Nijaradze), melhor amigo da jovem, mas que tem uma memória péssima.
Com uma trilha sonora belíssima e marcante, assinada por Giorgi Koberidze (irmão do diretor), Folha Seca é um filme de delicada construção cujas imagens jamais devem ser perdidas – piscar durante esse filme deveria ser um crime, pois cada plano é lindo em sua simplicidade complexa.
Há, é claro, folhas secas ao longo do filme, e também folhas úmidas. Mas nenhuma delas é a razão do título, que se refere a uma jogada de futebol, cuja criação é creditada ao meio-campista brasileiro Didi, que criou a técnica devido a uma lesão e a usou em um jogo das eliminatórias para a Copa de 1958. Koberidze, como já ficou claro em outros filmes, é fanático por futebol, e aqui, de forma adjacente, mas também, inescapável, essa paixão se materializa na tela. (Alysson Oliveira)
FOLHA SECA (DRY LEAF), de Alexandre Koberidze (186')
RESERVA CULTURAL - SALA 1 - 23/10/25 - 18:10
RESERVA CULTURAL - SALA 2 -
26/10/25 - 18:00
CINEMATECA SALA GRANDE OTELO 29/10 14h
Galinha
Por que a galinha atravessou a rua? Para que o diretor György Pálfi pudesse filmar sua cloaca em close botando um ovo. Falando assim, o longa Galinha parece grotesco, mas nem é o caso. É como uma versão menos ambiciosa de Eo, com a ave no lugar do burrinho.
A premissa simples de acompanhar um galinha em fuga (ops, já fizeram isso) serve como um convite ao humor, em especial pela presença da bípede com suas feições sempre muito divertidas. Ao todo, oito galinhas húngaras “interpretam’ a personagem-título que vive uma jornada de autodescoberta desde que sai do ovo.
Ainda no começo, ela realmente atravessa uma estrada, fugindo de uma raposa, e uma série de acasos a levam a um restaurante, onde, novamente, vive aventuras e desventuras para salvar sua vida.
Há lances mais dramáticos, envolvendo tráfico de pessoas, mas que nem sempre são bem delineados. Há outros lances também dramáticos nos quais a protagonista só quer mesmo ter uma família, mas seus ovos sempre encontram um outro destino.
O que sobra mesmo é a simpatia e a presença da tela das oito penosas no mesmo papel. Com os olhos arregalados, assustadas com os horrores do mundo, elas dominam o filme com suas estripulias e cocoricós. (Alysson Oliveira)
GALINHA (HEN), de György Pálfi (96')
MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA
1 -23/10/25 - 19:15
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA ANEXO 4 -
27/10/25 - 13:30
CINEMATECA SALA PETROBRAS - 29/10/25 - 14:00
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