04/06/2026

Charlie Kaufman e o discreto brilho da originalidade

As muitas faces de Charlie Kaufman

Ao contrário do que se poderia imaginar a partir de seus roteiros (como Quero ser John Malkovich e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças) e dos longas que escreveu e dirigiu (como Sinédoque Nova York), Charlie Kaufman não é nada espalhafatoso. Ele se afunda numa poltrona de uma das salas do Espaço de Cinema Petrobras (SP), onde dá entrevistas, fala pouco, mas de forma bem educada e pontual. Já sua roteirista, Eva H. D., é animada e mostra estar aprendendo português.

Juntos, formam um dupla inusitada que assina direção e o roteiro, respectivamente, do curta Como Fotografar um Fantasma (foto abaixo), que apresentam na Mostra, na qual ele recebe o Prêmio Leon Cakoff. “Eu tentava fotografar os fantasmas da história”, diz o cineasta sobre o curta, no qual duas pessoas que morreram há pouco se encontram nas ruas de Atenas.

Quando indagado sobre como esse filme repercute no mundo contemporâneo, Eva vem em sua ajuda: “O que vivemos hoje é uma combinação de camadas de fantasmas da história, coisas do passado que eram dadas como terminadas, mas que voltam a nos rondar. O filme é resultado dos últimos cem anos de história.” Kaufman concorda, acenando a cabeça.

O projeto começou quando Eva morava em Atenas e andava pelas ruas onde o filme acabou sendo rodado, pensando na história de séculos que aqueles lugares traziam em si. Mas ela discorda veementemente quando alguém diz que a Grécia seria o berço da civilização, como se costuma pensar. “Quando a gente olha para fora da Europa, aqui mesmo na América Latina, vemos que existia civilização aqui, com uma forte história oral. Acontece que a história foi, por muito tempo, narrada pelos europeus, por isso tomamos a Europa como o começo de tudo, mas hoje esse pensamento está se transformando.”

Kaufman, por sua vez, parece mais animado quando fala, por exemplo, de seu elenco e sua equipe. Um dos fantasmas é interpretado por Jessie Buckley, com quem ele trabalhara em Estou Pensando em Acabar com Tudo. “Ela é uma presença muito impressionante na tela, sua inteligência e beleza dominam tudo. Seu olhar comanda a cena, não há como não ficar vidrado nela.”

Já o outro fantasma é interpretado pelo libanês Josef Akiki, a quem Kaufman elogia, dizendo que “não há uma nota em falso na atuação dele. Ele não tinha uma tarefa fácil, pois Jessie é muito experiente e ele é um novato, embora não seja o primeiro filme dele. Mas ele também é atraente de se ver na tela. Consegui formar uma dupla excelente em cena.”

O cineasta e Eva também celebram a parceria com o diretor de fotografia polonês Michal Dymek, que tem no currículo Eo e A Garota da Agulha. “O trabalho com ele foi incrível. Nos conectamos muito facilmente, e ele ajudou muito a dar a estética que o filme tem, algo meio etéreo. Gostei tanto de trabalhar com ele que já garanti que fotografará meu próximo longa, que estou começando a planejar.” Quando perguntado sobre esse futuro filme, Kaufman volta a ficar tímido: “Está muito no começo, quem sabe conversamos sobre ele numa próxima Mostra, quando eu o exibir aqui”. (Alysson Oliveira)

ANOMALISA (ANOMALISA), de Charlie Kaufman, Duke Johnson (90'). Curta: COMO FOTOGRAFAR UM FANTASMA (HOW TO SHOOT A GHOST), de Charlie Kaufman(27').

CINEMATECA SALA PETROBRAS - 22/10/25 - 21:30 (com a presença do diretor, que fará uma apresentação antes da sessão)

MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 5 - 27/10/25 - 12:00

COMO FOTOGRAFAR UM FANTASMA - (HOW TO SHOOT A GHOST -), de Charlie Kaufman(27'). Exibido nas sessões de Sirât

CINESESC
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22/10/25 - 20:15

MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 - 24/10/25 - 14:00

OUTRAS DICAS NA MOSTRA

Dolores

Dirigido por Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, o longa é uma homenagem e uma forma de manter viva a obra do cineasta Chico Teixeira, falecido em 2019. “O projeto partiu originalmente dele e, como em outras ocasiões, me convidou para corroteirizar. Trabalhamos juntos e, com a gravidade do estado de saúde dele, decidimos dirigir juntos, mas Chiquinho partiu antes do processo de produção. E me deixou essa missão em forma de presente”, recorda Gomes, que chamou Maria Clara para dividir a missão de levar o projeto às telas.

Apesar de ter Dolores (Carla Ribas) como protagonista, o filme acompanha diversas personagens femininas que vivem um momento limítrofe de suas vidas, na esperança de seguir um caminho melhor. A personagem-título, por exemplo, tem um vício em jogos de cassino, sonhando em ganhar uma fortuna para abrir sua própria jogatina.

“Queríamos construir mulheres que tivessem camadas, que fossem complexas, contraditórias. E que, acima de tudo, agissem em direção aos seus desejos. Essas mulheres são periféricas e nunca são mostradas como vítimas. Sonham com outras realidades para elas e agem em direção a isso. Era muito importante para nós também que cada uma delas tivesse seu universo singular, são mulheres de gerações diferentes, com questões e imaginários singulares”, explica Maria Clara.

O desejo da dupla de diretores, que retrabalhou o roteiro, era apresentar três gerações de mulheres: Dolores com 65 anos idade, que representa um Brasil de redemocratização após uma ditadura militar, sua filha Deborah (Naruna Costa) vivenciou uma democracia mais estável e que sonha em ter uma família e a neta Duda (Ariane Aparecida), que, com 20 anos, representa esse mundo neoliberal.

Além de seguir com o projeto do filme, Gomes e Maria Clara homenageiam Chico Teixeira com a escolha do elenco. Carla Ribas, por exemplo, foi protagonista de A Casa de Alice, primeiro longa de ficção do diretor, lançado em 2007, e que rendeu à atriz diversos prêmios, entre eles na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo daquele ano, e no Festival Internacional de Guadalajara. “Quando o roteiro ficou pronto, decidimos pela homenagem. E foi uma decisão muito feliz. Carla Ribas e Gilda Nomacce se entregaram de corpo e alma a esse projeto. Assim como Matheus Fagundes”, frisa Gomes.

Além disso, o diretor aponta que seu cinema, o de Maria Clara e o de Chico têm muito em comum – em especial no interesse humanista pelas personagens. “O cinema do Chico fala muito de pessoas e de suas relações diante das condições que a vida apresenta. E nosso cinema também é sobre isso. Buscamos construir e investigar a vida de pessoas e personagens, cada um à sua forma. Chico nos deixou essas três mulheres que vivem em mundos singulares, sobre as quais ele começou a sonhar e para nós foi um presente seguir sonhando”, conclui. (Alysson Oliveira)

DOLORES (DOLORES), de Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar (84')

CINEMATECA SALA GRANDE OTELO - 22/10/25 - 16:10)

Duas Vezes João Liberada


O drama português olha para o passado para compreender e iluminar o presente. Dessa forma, a diretora Paula Tomás Marques e a atriz June João meditam sobre a construção da história, apagamento e identidade, num filme de estrutura bastante complexa e sofisticada.

Há um filme-dentro-do-filme sobre Liberada, uma jovem dissidente de gênero do século XVIII que sofreu perseguição da Inquisição. João, uma atriz transexual, interpreta essa mulher, mas entra em choque com o diretor (André Tecedeiro) desse drama histórico por discordar da maneira como a personagem é vista.

A partir disso, nasce uma discussão densa e interessante sobre os limites e possibilidades das representações das identidades de gênero no cinema, e na releitura da história sob novas luzes contemporâneas que dão voz a figuras até então apagadas ou não mostradas como realmente foram.

João é uma atriz muito consciente de seu corpo e, em especial, da função da atriz como ser social, problematizando não apenas como Liberada é retratada no filme, mas também como ela deve mostrar a sua identidade. Revelando-se em diversas camadas, a atuação de João é hipnótica e muito marcante por discutir temas atuais e relevantes para a sociedade contemporânea.

Paula Tomás Marques orquestra essas diversas camadas de Duas Vezes Liberada de forma sagaz e profunda, sem deixar de lado o humor e a delicadeza de reconstruir uma história nunca devidamente contada. A metalinguagem está em função de algo maior, e não de um mero exibicionismo formal. Não haveria razão de o filme existir se não fosse pela metalinguagem, pois seu interesse está exatamente na maneira como as artes – e o cinema, em especial – são capazes de retratar figuras incompreendidas.

A discussão muito atual sobre quem pode representar quais personagens é tratada com a devida complexidade e de maneira acessível e instigante. O experimentalismo formal de Duas Vezes João Liberada está de comum acordo com a proposta do filme, e o torna ainda mais intrigante. (Alysson Oliveira)

DUAS VEZES JOÃO LIBERADA, de Paula Tomás Marques (70').

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2 - 22/10/25 - 22:15

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA ANEXO 4 - 24/10/25 - 19:40

INSTITUTO MOREIRA SALLES – PAULISTA - 26/10/25 - 20:50

RESERVA CULTURAL - SALA 2 -
27/10/25 - 13:00

Águias da República

Premiado em Cannes 2022 com o troféu de roteiro por Garoto dos Céus, o diretor sueco-egípcio Tarik Saleh completa sua trilogia política sobre o Cairo, iniciada com The Nile Hilton Incident (2017) com Águias da República - em que ele vai mais longe na crítica ao regime ditatorial egípcio, mencionando diretamente o presidente Abdel Fattah Al-Sissi (interpretado pelo ator libanês Fares Fares, presente no filme anterior do diretor).

A trama, fictícia, baseia-se sem disfarce em fatos reais. Se no enredo atual, um famoso galã do cinema egípcio, George Fahmy (Fares Fares), é cooptado para interpretar Al-Sissi numa cinebiografia totalmente chapa-branca, na vida real isto aconteceu numa série de TV.

Convocar sem possibilidade de recusa o ator mais famoso do cinema egípcio, um tipo alto e sem a menor semelhança física com o ditador, baixinho, é o menor dos problemas. A história foca muito mais na cooptação gradativa de Fahmy, até então um astro rico, mimado e sem militância política e que se vê irresistivelmente comprometido numa trama que inclui conspiração e tentativa de assassinato e coloca em risco ele mesmo e sua família.

De todo modo, as semelhanças com fatos reais não sendo mesmo mera coincidência, o filme de Saleh foi filmado na Turquia. (Neusa Barbosa)

ÁGUIAS DA REPÚBLICA (EAGLES OF THE REPUBLIC), de Tarik Saleh (129').

CINE SEGALL
22/10/25 - 14:00 - Sessão: 550 (Quarta)

RESERVA CULTURAL - SALA 2 24/10/25 - 21:00

CINEMATECA SALA PETROBRAS 26/10/25 - 14:00