04/06/2026

Uma jornada para os realizadores independentes

Rua Cases Nègres

Realizado em 1983, este foi um filme marcante em todos os sentidos. Não só por ser um raro representante da filmografia restrita de um país caribenho, no caso, a Martinica, mas também por ter sido dirigido por uma jovem diretora negra, Euzhan Palcy, que aos 25 anos venceu um inédito Leão de Prata de melhor direção no Festival de Veneza daquele ano - o primeiro concedido a uma diretora negra no festival mais antigo do mundo, criado em 1932. Além disso, foi vencedora da Copa Volpi como melhor atriz a veterana Darling Légitimus, então com 76 anos.

Darling interpreta com notável afinco a avó Amantine que, na história ambientada nos anos 1930, retrata a duríssima vida dos trabalhadores dos canaviais numa Martinica já independente nominalmente da colonização francesa, mas ainda submetida a todo tipo de exploração.

Apesar de idosa, Amantine trabalha ainda nos canaviais, sustentando o neto de 13 anos, José (Garry Cadenat), que ela impede de ter a mesma ocupação - porque, na época, crianças também eram engajadas nessa função. Amantine, também chamada de Ma Tine, empenha-se de corpo e alma para que o menino estude e tenha um futuro diferente do seu.

Outra figura referencial na vida deste menino é o velho contador de histórias, o griot Médouze (Douta Seck), que mantém acesa a imaginação de José, além de enraizá-lo na rica cultura original africana de que a escravidão procurou despojá-los.

Inspirado num romance do autor Joseph Zobel, o filme de Euzhan tem um colorido, um frescor e uma luminosidade que resistem à passagem do tempo, retratando uma época de dificuldades mas também a permanência de uma cultura comunitária que mantém a dignidade desse povo sofrido mas capaz de alegria, arte e rebelião. (Neusa Barbosa)

RUA CASES NÈGRES (SUGAR CANE ALLEY), de Euzhan Palcy (106').

RESERVA CULTURAL - SALA 2 21/10/25 - 13:00 - ÚLTIMA SESSÃO

Leia a entrevista da diretora Euzhan Palcy

Círculo Reto

Duplamente laureado na Semana da Crítica do Festival de Veneza, com o Grande Prêmio e o Prêmio de Filme Mais Inovador, Círculo Reto começa como uma comédia absurda sobre guerra, nacionalismo e fronteiras e, aos poucos, torna-se uma meditação surreal sobre quem é o outro, o estrangeiro – um tema que ressoa de forma forte num mundo contemporâneo abalado por guerras e crises de imigração e de refugiados.

O diretor e roteirista inglês Oscar Hudson faz aqui uma marcante estreia em longas, já demonstrando um talento a se prestar atenção, tanto por sua coragem em abordar de forma inventiva temas caros e espinhosos, quanto por sua criatividade e rigor estético num filme que desconhece limites visuais e narrativos.

Os gêmeos Elliott e Luke Tittensor interpretam os militares Warne e Arthur, dois homens de países outrora inimigos, que há pouco assinaram um tratado de paz. Esses dois homens estão num único cômodo na fronteira entre dois países numa região desértica. Esse lugar é um ambiente neutro, porém, nenhum dos dois pode sair pela porta que dá para o país do outro.

Esse conceito sofisticado já dá margem a momentos cômicos, que Hudson aproveita bem. Warne e Arthur são bastante distintos física, moral e emocionalmente. Um tem a cabeça totalmente raspada, o outro, cabelos longos e barba, um leva sua missão muito a sério, é um militar de carreira e não se conforma que o outro seja um voluntário fanfarrão. Em comum, os dois estão ali com a missão de acertar as contas com o passado, com suas figuras paternas, também militares que lutaram na mesma guerra.

Aos poucos, no entanto, o isolamento e uma tempestade de areia transformam esses homens, que perdem o senso de quem são e de qual lado pertence a qual país – as bandeiras foram destruídas pelo vento e a areia. Agora, se questionam quem são eles mesmos e, aos poucos, se transformam fisicamente em um único homem.

Hudson vai até o limite da loucura da compreensão de cada personagem sobre si mesmo e o outro, entrando em caminhos existencialistas absurdos que remontam a Samuel Beckett. Visualmente, há algo de meticuloso, na primeira parte, que lembra Wes Anderson, mas o cineasta e seu diretor de fotografia, Christopher Ripley, estão mais interessados em desmontar as simetrias fofas dos filmes do cineasta estadunidense. O resultado é desconcertante e tem muito a dizer sobre o mundo em que vivemos. (Alysson Oliveira)

CÍRCULO RETO (STRAIGHT CIRCLE), de Oscar Hudson (109').

CINE SATYROS BIJOU -
21/10/25 - 19:20

Maurício de Sousa - O Filme

Prestes a completar 90 anos, no próximo dia 27, Mauricio de Sousa é tema de um filme que se concentra mais no deslanchar de sua carreira do que na sua biografia propriamente dita. Dirigido por Pedro Vasconcelos e Rafael Salgado a partir do roteiro de Paulo Cursino, Mauricio de Sousa - O Filme é convencional até a medula, deixando de lado possíveis conflitos ou aspirações estéticas para narrar em tom de hagiografia a ascensão do
cartunista.

O protagonista é interpretado por Mauro Sousa, filho do desenhista, que estreia no cinema no papel do Mauricio adulto. Na fase infantil, e o personagem é feito por Diego Laumar e vive no interior de São Paulo, onde começa a se interessar por quadrinhos, sempre recebendo apoio do pai (Emílio Orciollo Neto), da mãe (Natália Lage) e, em especial, da avó Dita (Elizabeth Savalla), uma figura importante na formação emocional do menino.

O filme segue seus desafios e suas conquistas pessoais e profissionais. Do primeiro casamento, com Marilene (Thati Lopes), ao começo da carreira num jornal paulistano – não como desenhista, como queria, mas como revisor. Aos poucos, escala postos no periódico e cria seus personagens famosos, começando com o cãozinho Bidu, passando por Mônica e Magali, inspiradas em suas filhas, e Cebolinha, cuja ideia veio de um amigo de infância que trocava o R pelo L.

Mauro no papel do pai prima mais pela aparência próxima do biografado do que por uma atuação marcante. Acaba sobrando mais para Elizabeth Savalla, no papel da avó doce e incentivadora, e a Thati Lopes como a esposa espevitada e divertida que rouba a cena graças ao timing cômico da atriz.

É um filme feito claramente com carinho por Maurício, sua carreira e sua importância para a cultura brasileira e tantas gerações de crianças. Mas é tudo muito bem encaixadinho, nada fora do lugar, num formato que se aproxima muito da televisão e pouco do cinema. Não há nenhum interesse em trabalhar, por exemplo, uma estética próxima aos quadrinhos para dar algum vigor ao longa, que acaba não demonstrando grandes ambições e, por isso, mais parece um vídeo institucional para ser exibido aos novos estagiários do Mauricio de Sousa Estúdios. (Alysson Oliveira)

MAURICIO DE SOUSA - O FILME, de Pedro Vasconcelos, Rafael Salgado (95')

CINEMATECA SALA PETROBRAS
- 21/10/25 - 19:50

CINEMATECA SALA GRANDE OTELO -
21/10/25 - 19:50

Morte e Vida Madalena

Quem vê pronto na tela do cinema filmes como Clube dos Canibais e Estranho Caminho desconhece os desafios que o cineasta Guto Parente enfrentou para que esses longas fossem produzidos. Seu mais novo trabalho, Morte e Vida Madalena, nasce dessa ideia de levar à tela as dores de fazer um filme independente.

“Faz muito tempo que eu queria fazer algo assim”, conta o cineasta cearense ao Cineweb. “Nós, cineastas, sempre compartilhamos muitas experiências uns com os outros dos problemas que enfrentamos num set, e eu queria fazer algo a partir da perspectiva do trabalhador do cinema”.

O longa é uma comédia melancólica, mas cheia de energia, protagonizado pela produtora Madalena, interpretada pela excelente Noá Bonoba. Parente havia trabalhado com ela em outro filme, e achou sua presença marcante na tela. “Ela tem algo de hipnótico, domina a cena. Eu queria fazer um filme sobre uma produtora mulher, inspirado na Ticiana Augusto Lima, com quem já trabalhei em diversos filmes. Fala-se muito do produtor homem, mas raramente se aborda, no cinema, uma mulher nessa função.”

Grávida de 8 meses, Madalena está trabalhando na produção de um roteiro de seu pai, há pouco falecido. O longa em produção é uma ficção científica de baixo orçamento e muita piração, mas logo de cara o diretor (Marcus Curvelo) abandona o projeto, o protagonista (Tavinho Teixeira) é completamente doido, e a equipe cobra da produtora soluções para tudo – inclusive assumir a direção do longa.

“A Noá levou a personagem para um lugar muito especial. Ela é uma mulher trans e interpreta uma mulher cis e grávida. Para ela, enquanto atriz, foi motivo de comemoração, é superar preconceitos, mostrar que uma atriz trans pode fazer todo tipo de personagem.”

Parente também celebra o fato de que diversos personagens da equipe do longa dentro do longa são interpretados por profissionais da área que representam. “Os convites foram muito personalizados para pessoas que tinham experiência na área que iriam interpretar no filme. A Linga Acácio, por exemplo, interpreta uma diretora de fotografia. Ela mesma fotografou meu filme Estranho Caminho e aqui estreia como atriz”.

Morte e Vida Madalena, para o diretor, é uma espécie de fechamento de um ciclo de duas décadas, nas quais fez filmes de forma independente e barata. “Acho que com esse longa resolvo uma questão para mim. Fiz vários filmes dessa forma, foi um aprendizado, fiz muita coisa legal, mas agora quero trabalhar com um orçamento menos apertado, com um pouco mais de respiro.” E, comemora, no próximo ano deve filmar uma coprodução internacional, “e com um orçamento um pouco mais confortável”. (Alysson Oliveira)

MORTE E VIDA MADALENA, de Guto Parente (85')

RESERVA CULTURAL - SALA 1 -
21/10/25 - 19:40

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1 - 26/10/25 - 16:45

Sérgio Mamberti - Memórias do Brasil

O documentário, assinado por Evaldo Mocarzel, resgata a figura ímpar do ator paulista Sérgio Mamberti (1939-2021). Contando com preciosos materiais de arquivo, o diretor constrói a trajetória imensa deste ator que, em mais de 60 anos de carreira, passou pelo teatro, cinema e televisão, além de dedicar-se a uma militância política progressista.

Sem didatismo, o filme delineia o perfil de um homem extremamente simples, enérgico e generoso, que o público poderá lembrar de papéis tão distintos quanto o bruxo dr. Victor da série televisiva infantil Castelo-Rá-Tim-Bum, quanto pelo mordomo Eugênio da primeira versão da novela Vale Tudo e os magníficos papéis que viveu no teatro, em peças como O Balcão, de Jean Genet
(cuja memorável encenação, em 1969, no teatro Ruth Escobar, é mostrada em imagens feitas na época por Jorge Bodanzky).

O filme venceu o Prêmio Marco Antônio Guimarães (melhor uso de material de memória, pesquisa e arquivo) no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. (Neusa Barbosa)

SÉRGIO MAMBERTI - MEMÓRIAS DO BRASIL, de Evaldo Mocarzel (90').

RESERVA CULTURAL - SALA 2 21/10/25 - 19:25

RESERVA CULTURAL - SALA 1 26/10/25 - 14:40