Destaques de Cannes e diretoras brasileiras no primeiro final de semana
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 18/10/2025
- Tempo de leitura 15 minutos
O Som da Queda
Este que é apenas o segundo longa da diretora Mascha Schilinski - o primeiro sendo Dark Blue Girl, seu trabalho de conclusão de curso de cinema, em 2017 - , demonstra uma notável segurança para compor este drama em torno de uma família rural da Saxônia, dando voz a quatro mulheres, transitando em épocas diferentes, com uma linguagem fluida que evoca a memória. O filme venceu o Prêmio do Júri em Cannes 2025.
A austeridade e o rigor com que desenvolve o retrato familiar, marcado por inúmeros traumas, lembram às vezes um Michael Haneke, especialmente de A Fita Branca, vencedor da Palma de Ouro em 2009. O rigor visual evoca o Carlos Reygadas de Luz Silenciosa, vencedor de um Prêmio do Júri em Cannes em 2007. Mas essas semelhanças não devem obscurecer que a diretora tem estilo próprio, especialmente ao dar voz às mulheres na história. É visível que o que ela procura, no roteiro escrito em parceria com Louise Peter, é um mergulho na condição feminina ao longo de gerações na zona rural do norte da Alemanha, ao longo do século XX, detectando entre as mulheres retratadas o fio de traumas que, se não são expressos verbal e racionalmente, persistem nos corpos que se sucedem.
Além de uma câmera fluida e inesperada, trabalho exemplar do diretor de fotografia Fabian Gamper, um recurso interessante é mudar a voz e o ponto de vista da narração, que oscila entre as mulheres, com uma única breve exceção. É a pulsação de Erika (Lea Drinda), Alma (a adorável garotinha Hanna Heckt, de 9 anos), Angelika (Lena Urzendowsky) e Lenka (Laeni Geiseler) que se procura captar, seus olhares para os acontecimentos dentro de uma família um tanto claustrofóbica,
que se mostra sinistramente hipnotizada pela morte.
O modo como estes corpos celebram a morte, mais do que a vida, é singular, como se vê, por exemplo, na cerimônia do Dia dos Mortos, quando todos os membros da família, vestidos de preto, desfilam diante dos retratos dos já falecidos - alguns deles, quase bizarros -, para depois sentar-se a uma grande mesa para uma refeição muito ritual também.
O que se nota de mais elogiável é a fluidez com que a narrativa consegue transitar entre os tempos, sem se preocupar em marcar muito cada época - exceto pelo figurino, já que o cenário é predominantemente uma grande casa de fazenda,
o que não deixa de ser um sinal do imobilismo que pesa sobre estas vidas. Também não há uma preocupação muito rígida de identificar de quem é a voz da narradora da vez e isso, com o tempo, se percebe que não é tão importante. O melhor é deixar-se levar pelo filme, pelas personagens, embarcando em seu fluxo de sensações e memórias até fazer parte dele.
Em seu segundo longa, e pela primeira vez em Cannes, Mascha Schilling desponta como uma boa surpresa e um nome para prestar atenção. (Neusa Barbosa)
O SOM DA QUEDA (SOUND OF FALLING), de Mascha Schilinski (149').
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2 18/10/25 - 13:45
CINEMATECA SALA PETROBRAS 19/10/25 - 16:20
CULTURA ARTÍSTICA 30/10/25 - 14:40
Cyclone
Não seria possível fazer um filme convencional sobre uma figura cujo apelido era Miss Cyclone. Dessa forma, o longa de Flávia Castro move-se por formas e texturas. Mais do que gêneros, Cyclone transita muito bem por maneiras de filmar e narrar, ora delicado, ora pós-punk, às vezes num realismo irrestrito, às vezes um musical fantasioso. Tudo isso parece amarrado pela própria ideia de um ciclone, de uma força da natureza.
A estudante Maria de Lourdes Castro Pontes, mais conhecida como Daisy Pontes, foi uma figura real que serviu de inspiração para a protagonista desse longa, Dayse, uma jovem operária de uma gráfica anarquista que sonha em ser dramaturga, na São Paulo do final da década de 1910. A personagem é interpretada com garra e sagacidade por Luíza Mariani, que também assina como produtora do projeto que ela sonhava em levar ao cinema há anos.
“Foi uma verdadeira saga”, conta, em entrevista ao Cineweb, lembrando-se da trajetória do projeto. “Eu a descobri quando procurava algo para fazer no teatro, e ela era a única mulher citada no O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo [uma espécie de diário coletivo dos frequentadores da garçonnière mantida por Oswald de Andrade]. Foram dez anos tentando comprar os direitos da personagem para o cinema.” Até que em 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) dispensou a necessidade de autorização prévia do biografado ou de sua família para livros e filmes.
Foi aí que Luíza pode levar a personagem ao cinema, num filme que conta com roteiro de Rita Piffer e direção de Flávia Castro, que, pela primeira vez, dirige um longa que não parte de suas próprias experiências, como era o caso do documentário Diário de uma busca e da ficção Deslembro.
“Foi um grande desafio, mas também me senti mais diretora, trouxe um olhar autoral, e trabalhamos juntas no filme. O que eu mais queria era fazer uma história que se inscrevesse no presente. Não me interessa muito reconstituição de época precisa, acho que esse tipo de coisa sufoca”, explica a cineasta.
Assim, nasce a Dayse do filme, uma mulher cujos sonhos e desejos reverberam no presente. Tanto a diretora quanto a atriz e produtora contam que o mais interessava era retratar o processo criativo dessa artista tão complexa. “A alegria dela estava no prazer de criar,” decreta Flávia.
A personagem, no filme, tem a possibilidade de estudar teatro em Paris, mas as dificuldades se acumulam, em especial na figura de seu amante, Heitor Gamba (Eduardo Moscovis), um diretor de teatro que não quer perder sua mulher e escritora de suas peças.
Luíza, inclusive, destaca que a construção da personagem veio de muitas referências contemporâneas, como a cantora e escritora estadunidense Patti Smith. “Como a Dayse, ela é uma figura muito inspiradora. Acho que as duas criam muito olhando para a vida. E, no filme, não fizemos uma biografia da figura real, mas a vida sonhada dessa mulher”.
O longa já foi exibido na China e na Alemanha, e Luíza e Flávia se surpreenderam com a repercussão da personagem nesses países. “Em Xangai foi impressionante”, recorda a atriz. “Numa conversa depois do filme, uma jovem com roupas modernas e cabelo cor-de-rosa contou, comovida, como ela se identificava com Dayse. Fiquei tocada como uma história de mais de um século ainda ecoa no presente”. (Alysson Oliveira)
CYCLONE (CYCLONE), de Flavia Castro (100')
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1 - 18/10/25 - 21:45
INSTITUTO MOREIRA SALLES - PAULISTA
26/10/25 - 14:40
Eclipse
Este segundo longa dirigido por Djin Sganzerla é como uma parafuso dando suas várias voltas, construindo uma trama inesperada que se inscreve na cartilha do suspense, reverberando questões bastante atuais – como abuso sexual e fóruns anônimos de conteúdos misóginos.
A atriz e diretora conta que pensou na história da protagonista quando leu uma notícia sobre uma mulher nos EUA. “Ela tinha uma vida perfeita, até que descobriu que o marido postava coisas horríveis sobre ela num fórum na internet. Inclusive dizia que queria matá-la. Ela entrou na justiça, processando-o, e perdeu. O juiz viu a internet como o espaço do desejo, e isso não representaria um risco real para ela. Eu fiquei chocada com isso”.
Desse ponto de partida nasce a história de Cleo, interpretada pela própria diretora, uma astrônoma grávida e feliz com seu marido (Sergio Guizé), que é surpreendida por um encontro com a meia-irmã, Nalu (Lian Gaia), uma jovem indígena, que conta que sofreu abusos sexuais do pai delas. A partir daí, a vida da protagonista se desestabiliza completamente.
Djin conta que pensava, a princípio, em fazer um papel menor, mas a história foi ganhando um rumo inesperado, inclusive com a presença de uma onça, que simboliza Cleo reencontrando consigo mesma. E também percebeu que a irmã deveria ser uma mulher indígena, pois é “o símbolo de tudo, da força, da resistência”.
A atriz e diretora explica que mostra no filme “como as mulheres sofrem os mais diversos abusos desde que nascem. Com essa história quero alertar todos para isso, que essa violência está em todo lugar, até onde deveria haver segurança e proteção, como na própria casa.”
O roteiro, escrito em parceria entre a diretora e Vana Medeiros (também roteirista de seu primeiro longa como diretora, Mulher Oceano, de 2020), é fruto de um longo processo de mais de um ano, que incluiu pesquisas sobre mulheres indígenas para as conhecer melhor, e, assim, evitar os estereótipos que as seguem. “Não queria aquela ideia da doçura, me interessava mais trazer para as personagens indígenas o mistério da própria vida, a capacidade de transformação da própria história.” (Alysson Oliveira)
ECLIPSE (ECLIPSE), de Djin Sganzerla (109').
CINESESC - 19/10/25 - 17:20
RESERVA CULTURAL - SALA 2 - 22/10/25 - 15:10
Eddington
Uma das tendências na seleção do 78º Festival de Cannes foram os filmes de apocalipse - e o estado do mundo autoriza de sobra este sentimento.
Um deles, o norte-americano Eddington, de Ari Aster, que capta cada uma das maiores neuroses dos EUA, transformando-as num quase épico de horror sobre uma loucura que une fixação por armas, incesto, negacionismo, proselitismo político num feixe que contamina inclusive a família e o ativismo.
Assim, compõe-se um mosaico que explora a incapacidade de encontrar uma saída, até porque o establishment mostra uma espantosa capacidade de reconstruir-se sobre as próprias cinzas, adotando um discurso pretensamente moderno que, no caso do filme, é a energia limpa.
Toda essa batalha se deflagra numa história ambientada em maio de 2020, em plena pandemia, a partir da rivalidade entre um prefeito populista em busca de reeleição, numa cidadezinha do Novo México, Ted Garcia (Pedro Pascal), e um xerife negacionista e recalcado, Joe Connor (Joaquin Phoenix). Desse rastilho de pólvora, nascem seitas, matam-se indígenas (que tanto já foram expropriados, começando por suas terras) e se alimenta o rancor dos afro-americanos, eternamente enquadrados como os suspeitos habituais para todas as culpas.
Diretor conhecido por Hereditário e Beau Tem Medo, Ari Aster exercita um tipo de horror social coalhado de extrema violência e em que todo o humor eventual é sombrio. Mesmo se não atinge uma reflexão tão aguda quanto Pecadores, de Ryan Coogler, até por ser bem mais caótico, certamente dá sua contribuição para refletir no que se tornou a América que há pouco reelegeu Donald Trump. No elenco, Emma Stone, Austin Butler, Micheal Ward e Deirdre O'Connell. (Neusa Barbosa)
EDDINGTON (EDDINGTON), de Ari Aster (148').
CINEMATECA SALA PETROBRAS 18/10/25 - 14:00
CINESALA 19/10/25 - 21:00
RESERVA CULTURAL - SALA 2 26/10/25 - 15:10
MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 27/10/25 - 20:30
Labirinto dos Garotos Perdidos
O jovem cineasta paulistano Matheus Marchetti é dono de uma filmografia ainda não muito longa, mas marcante em sua temática e escolhas estéticas. Diretor de filmes como Verão Fantasma e As Núpcias de Drácula, sucessos no streaming, ele comemora sua estreia na Mostra com Labirinto dos Garotos Perdidos. “É como dar andamento a uma trajetória: já fui monitor, sou cinéfilo, e agora trago meu próprio filme ao festival”, brinca em entrevista ao Cineweb.
Marchetti era mais conhecido no circuito de festivais de fantasia e de temática queer, até que a chegada de seus filmes à plataforma Filmicca, como ele mesmo diz, “furou uma bolha”. Mas o novo filme deve surpreender, novamente, seu público pois se trata de uma comédia romântica. “Eu queria fazer uma história leve e divertida, inspirada em encontros que eu mesmo já tive, ou que contaram para mim. Mas conforme fui escrevendo, percebi que não seria um filme tão engraçado como eu imaginava.”
Esses encontros do protagonista, Miguel (Giuliano Garutti), são marcados pelo inusitado, mas, também, pela sensualidade e a melancolia – mas, como típico nos filmes do diretor, não era possível abrir mão do surreal. “Acho que se tornou uma espécie de Alice no País das Maravilhas dentro do Grindr [um aplicativo de encontros para o público LGBTQIA+]”.
Para o personagem principal, Marchetti queria criar um rapaz marcado pela inocência, “que estivesse por fora de tudo.” E conta que encontrou em Giuliano, que conheceu quando fizeram teatro juntos, a materialização perfeita dessa ingenuidade que ele procurava para fazer o personagem.
Outra “figura” central no longa é a cidade de São Paulo, que Marchetti chama de “espaço de possibilidades”. E a explora de maneira inusitada com cenários inesperados. Algumas das cenas mais bonitas do filme foram feitas no Aquário de São Paulo, “com a luz do próprio ambiente”, comemora o diretor.
Os filmes do diretor são baratos, mesmo para os padrões do cinema independente brasileiro, pois, explica, nunca ganhou um edital. Por isso conta com ajuda de amigos para fazer seus longas, que filma, geralmente, em finais de semana. Labirinto dos Garotos Perdidos, por exemplo, foi feito durante 14 diárias, ao longo de 3 meses. Esse processo, por um lado exige cortes e inventividade, por outro, dá a Marchetti uma liberdade irrestrita. “Eu venho do teatro, por isso o improviso me ajuda a driblar alguns problemas na limitação do orçamento.”
Essa liberdade também aparece em outro lugar. “Eu posso lidar com as temáticas queer de forma livre de julgamentos, abordar sexualidade, fetiches, colocar cenas de nudez, sem me preocupar com um produtor questionando a necessidade disso.” (Alysson Oliveira)
LABIRINTO DOS GAROTOS PERDIDOS, de Matheus Marchetti (82')
RESERVA CULTURAL - SALA 2 - 18/10/25 - 18:55
INSTITUTO MOREIRA SALLES – PAULISTA - 19/10/25 - 13:00
Woman and Child
Foi decepcionante a passagem do concorrente iraniano à Palma em Cannes, Woman and Child, do diretor Saeed Roustaee - que, três anos atrás, trouxe a Cannes o intenso drama familiar Leila’s Brothers, o que custou ao cineasta seis meses de prisão e uma proibição de 5 anos sem filmar, que foi depois suspensa.
Não há dúvida de que Woman and Child é um filme simpático às mulheres, a partir de assumir o ponto de vista de Mahnaz (Parinaz Izadyar), uma enfermeira viúva, mãe de dois filhos e que pensa em casar novamente com o motorista de ambulância Hamid (Payman Maadi, de A Separação). Há dois anos os dois mantêm um relacionamento secreto e agora se preparam para anunciar seu compromisso às respectivas famílias. Mas, nesse movimento, um incidente terrível precipita os acontecimentos e a sorte de Mahnaz é drasticamente transformada.
Nessa virada trágica da vida da protagonista, o filme mergulha num melodrama pesado e choroso, em que a denúncia das desvantagens sociais femininas ficam um tanto obscurecidas por uma trama que põe em primeiro plano rancores e vinganças, num tom novelesco um tanto exagerado. Há muitas lágrimas correndo nessa segunda metade do filme, lágrimas demais. (Neusa Barbosa)
WOMAN AND CHILD, de Saeed Roustaee (131’)
CINEMATECA SALA GRANDE OTELO 19/10 14h
CINE SEGALL 24/10 14h
MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ SALA 1
26/10 20h55
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA ANEXO 4
29/10 17h05
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