Do clássico ao hype
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 17/10/2025
- Tempo de leitura 14 minutos
O cardápio da sexta (17) vai do clássico restaurado de Manoel de Oliveira, Aniki Bobó (1942) a destaques dos festivais de Veneza (Bugonia, de Yorgos Lanthimos) e Berlim (Kontinental 25, de Radu Jude) ao faroeste pós-moderno do inglês Alex Cox (Almas Mortas). Confira:
Almas Mortas
Um clássico russo do século XIX ganha roupagens de faroeste pelas mãos do britânico Alex Cox neste filme, que parte do romance de Nicolai Gógol e o coloca num cenário próximo à virada para o século XX no Oeste dos EUA. O cinema pouco convencional do cineasta de Sid & Nancy se diverte em suas possibilidades com o inusitado, mas nem sempre consegue extrair muito de suas escolhas senão apenas o próprio inusitado.
O próprio Cox interpreta Strindler, que viaja de vilarejo em vilarejo assumindo diferentes identidades – de agente funerário a funcionário de uma igreja. A cada hora, uma profissão, mas, em comum, apenas paga para obter informações sobre mortos.
Cox investe no humor, ora ácido, ora até físico, sempre com um olhar no presente, nas políticas dos EUA sob o governo de Donald Trump. As vítimas que Strindler procura são trabalhadores explorados – em especial mexicanos – cujo sangue foi sugado até a última gota por patrões gananciosos.
Com exageros formais, e rebuscamentos estéticos, Cox fica à procura de um filme num emaranhado de referências e reverberações que parecem não cumprir seu objetivo, pois são um tanto herméticas ou esvaziadas. As cenas típicas do gênero, como o duelo, afundam em simbologias nem sempre decodificáveis.
Com aspecto formal muito pós-moderno, Cox esbarra no pastiche de gêneros, numa busca incessante de um comentário político relevante sobre o estado das coisas. Não funciona bem, pois seu humor não é crítico o bastante e seu drama, pouco interessante. É como se o diretor confiasse demais no potencial e relevância do projeto, e isso bastasse. (Alysson Oliveira)
ALMAS MORTAS (DEAD SOULS), de Alex Cox (88')
INSTITUTO MOREIRA SALLES – PAULISTA - 17/10/25 - 19:10
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 3 - 19/10/25 - 15:55
CINE SEGALL - 25/10/25 - 16:10
CINESESC
- 28/10/25 - 22:05
Bugonia
Exibido em competição no Festival de Veneza, o novo filme de Yorgos Lanthimos reitera não só o estilo bizarro-sombrio do diretor grego, repetindo a parceria com os atores Emma Stone e Jesse Plemons. Emma interpreta a super-executiva de uma empresa química, Michelle, que é sequestrada por uma dupla de malucos que acreditam em toda e qualquer teoria da conspiração. Teddy (Plemons) e Don (Aidan Dilbis).
Ambos estão convencidos de que Michelle é uma extraterrestre, proveniente de Andrômeda, e pretendem forçá-la a levá-la com eles - e resolver também o grave problema de saúde da mãe de Teddy (Alicia Silverstone), decorrente de uma contaminação por produtos químicos, responsabilidade da empresa.
Toda essa trama de contaminação ambiental, que prejudica a sobrevivência das abelhas - Teddy também é apicultor - e a impiedade do ambiente empresarial são o lado realista de uma história que mergulha fundo na psicopatia, especialmente de Teddy - que Jesse Plemons vive com uma convicção assustadora.
A captura de Michelle pelos dois na casa de Teddy permite ao filme enveredar por um clima de suspense macabro, que lembra eventualmente O Colecionador (1965), de William Wyler, embora a personagem feminina aqui seja muito mais astuta e forte do que a vivida por Samantha Eggar. Lanthimos é também um diretor muito mais explícito em certas situações de violência, embora não lhe escape nunca um toque de humor - a sequência final, particularmente.
De todo modo, Bugonia é um filme bem mais consistente do que o último do diretor, Tipos de Gentileza (2024), até por apostar numa trama única e não em três histórias mal-interligadas, quanto naquele filme do ano passado. A psicose dos personagens de Teddy e Don, assim como o risco de desastre ambiental no planeta, fazem todo o sentido diante da realidade que vivemos. Chamem os alienígenas! Mas não reclamem da solução que eles resolverem dar. (Neusa Barbosa)
BUGONIA (BUGONIA), de Yorgos Lanthimos (118')
CINEMATECA SALA PETROBRAS 17/10/25 - 20:50
MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 19/10/25 - 14:25
CULTURA ARTÍSTICA 27/10/25 - 16:40
Cidade Sem Sonho
Árvores roxas, pessoas verdes, céu laranja. Essas imagens inusitadas são resultado de um celular com câmera e muitos filtros nas mãos de um garoto, que começa a filmar o mundo ao seu redor. Essa brincadeira imagética é uma espécie de respiro lúdico em meio aos horrores de uma vida de exploração, pobreza e apagamento em que vivem os personagens de Cidade Sem Sonho, do espanhol Guillermo Galoe.
Os moradores de La Cañada Real, um conjunto habitacional nos arredores de Madri, interpretam a si mesmos em situações reais ou bem próximas daquelas que eles mesmos viveram, como ameaça de despejo, ausência de saneamento básico, problemas com drogas e a amizade nos momentos de dificuldade.
O ponto de vista é o olhar de um menino, que nem tudo compreende diante das dificuldades que sua família e vizinhos enfrentam, mas, ainda assim, há o companheirismo, as descobertas. Quem filma com celular é Bilal (Bilal Sedraoui), cuja família irá deixar o conjunto habitacional em breve, para decepção do melhor amigo do menino, Toni (Antonio Fernandez Gabarre).
O projeto do filme começou com um curta premiado que já trazia Gabarre como protagonista, e com uma presença marcante e natural na tela. Em especial ele, e as outras crianças e adolescentes, são a alma do filme.
E, sem qualquer julgamento, Galoe celebra uma cultura periférica repleta de cores e vibrações muitas vezes ignoradas pela cultura hegemônica.
Embora manifeste certa tendência a embelezar a pobreza, o diretor é, claramente, sincero e honesto no retrato que faz de pessoas da periferia, dando voz e protagonismo a indivíduos que antes, claramente, nunca tiveram essa oportunidade. (Alysson Oliveira)
CIDADE SEM SONHO (SLEEPLESS CITY), de Guillermo Galoe (97')
RESERVA CULTURAL - SALA 1 - 17/10/25 - 16:40
MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 - 20/10/25 - 18:35
MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 5 - 25/10/25 - 20:45
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA ANEXO 4 - 28/10 - 15h45
Kontinental 25
Vencedor do prêmio de melhor roteiro no Festival de Berlim, o drama de Radu Jude mergulha numa profunda investigação ética tendo como participantes membros do Estado, um tema recorrente na obra de diretores romenos.
A protagonista é Orsolya (Eszter Tompa), uma oficial de justiça às voltas com um caso complicado. Ela deve despejar do porão de um prédio um velho homem, que no passado foi um esportista premiado mas que caiu em desgraça e no alcoolismo. Depois de reiterados adiamentos, chega o dia em que ela não pode mais deixá-lo continuar onde está. E, quando ela e os policiais que a acompanham dão um tempo para que o homem junte suas coisas, ele comete um ato desesperado.
A situação cria um drama terrível para Orsolya, que é isenta de responsabilidade no inquérito policial, mas não consegue esquecer a cena trágica que presenciou naquele dia.
Muito do filme se estende em longas conversas de Orsolya com diversas pessoas a quem confidencia seus conflitos, como o marido, uma amiga, um padre e um jovem ex-aluno (no passado, ela lecionou Direito) que se tornou entregador de aplicativos (Adonis Tanta) - este também um comentário sobre o contexto atual da Romênia, quanto de outros países, em que jovens, mesmo com educação formal, não conseguem empregos condizentes.
Outro comentário silencioso está nas imagens da arquitetura de Cluj, a cidade que é o cenário dos acontecimentos. Maior cidade da Transilvânia, região que, até 1918, pertencia à Hungria, ela guarda nos prédios os sinais desta origem - que é, aliás, também a origem de Orsolya, imigrante húngara.
As imagens dos prédios também encerram um outro comentário, este sobre a especulação imobiliária e a gentrificação - afinal, o velho homem estava sendo despejado por conta da iminente demolição do lugar onde se abrigava por conta da iminente construção de um hotel de luxo. Outro fenômeno que se estende por cidades de todos os lados do mundo. (Neusa Barbosa)
KONTINENTAL ’25 (KONTINENTAL ’25), de Radu Jude (109')
CINESALA 17/10/25 - 14:00
CINEMATECA SALA PETROBRAS 25/10/25 - 17:20
MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 27/10/25 - 12:00
CINEMATECA SALA GRANDE OTELO 29/10/25 - 21:30 - Sessão: 1093 (Quarta)
O Riso e a Faca
Representante luso-brasileiro na seção competitiva Un Certain Regard, O Riso e a Faca, de Pedro Pinho, envereda pelo interior da Guiné-Bissau para compor um relato sobre a permanência do colonialismo através das experiências de um engenheiro, Sérgio (Sérgio Coragem). Português, ele chega a uma localidade que se prepara para a construção de uma estrada que afetará profundamente a vida dos moradores locais. O recém-chegado é encarregado de escrever um relatório de impacto ambiental, urgente para liberar a obra, receptora de fundos internacionais.
Desde o começo, o filme de Pedro Pinho (conhecido por seu magnífico trabalho anterior, A Fábrica de Nada), arma uma atmosfera de estranheza, amparada no choque cultural, na demolição das certezas, inclusive as bem-intencionadas e politicamente corretas, de que o jovem engenheiro vem imbuído. Ele não tarda a receber lições de vida de duas descoladas figuras locais, Gui (o ator brasileiro Jonathan Guilherme) e Diára (a atriz cabo-verdiana Cléo Diára), por quem, aliás, se sente sexualmente atraído. E, também nessa esfera íntima, Sérgio terá muito a aprender.
A longo das extensas 3 horas e meia de duração, O Riso e a Faca - que colhe seu nome de uma música de TomZé - , insere todo um contexto, que permite vislumbrar tanto a vitalidade cultural guineense quanto uma crônica pobreza e falta de estrutura, esta uma herança maldita de uma colonização portuguesa que, como todas as outras, fixou-se na exploração extensiva dos recursos naturais, abandonando a população negra à própria sorte, sem educação, sem saneamento básico, sem estradas, criando essas lacunas que perduram até agora.
O engenheiro, então, torna-se um personagem à deriva em muitos desses embates, abalado por preocupações éticas com esse povo que começa a conhecer e a gostar e as pressões dos próprios patrões para que produza rapidamente o relatório que libera a obra da estrada. Também é sintomática a sequência que mostra outros funcionários portugueses da empresa, que se comportam exatamente como seus antecessores colonizadores em relação aos empregados locais. Nada mudou em sua mentalidade.
Integrado por 31 brasileiros em sua equipe técnica, como a produtora Tatiana Leite, o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo e a montadora Karen Harley, o filme tem uma outra versão, ainda maior, de 5 horas. (Neusa Barbosa)
O RISO E A FACA, de Pedro Pinho (211’)
RESERVA CULTURAL - SALA 2 17/10/25 - 19:30
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 3 26/10/25 - 17:15
Aniki Bobó
O primeiro longa-metragem de ficção do mestre português Manoel de Oliveira ressurge em versão cuidadosamente restaurada, entregando o frescor desta história protagonizada por crianças que tem um toque de neorrealismo, também por sua fotografia em preto-e-branco.
Baseado num conto de Rodrigues de Freitas, "Meninos Milionários de Sala de Aula", o filme acompanha as aventuras de Carlito, menino pobre que disputa em desvantagem com Eduardinho, o mais valentão de sua turma, as atenções da menina Teresinha.
Quando ela manifesta interesse numa cara boneca exposta na loja local, Carlito decide roubá-la para ganhar uma vantagem no coração da menina. A situação deflagra todo um drama em torno da investigação e da perseguição aos meninos, capturando diferenças sociais num ambiente fortemente estratificado.
É uma pequena jóia do mestre, que no futuro nos brindaria com tantas obras sublimes como Non, ou a Vã Glória de Mandar (1990), Vale Abraão (1993), Viagem ao Princípio do Mundo (1997) e Vou para Casa (2001). (Neusa Barbosa)
ANIKI-BÓBÓ (ANIKI-BÓBÓ), de Manoel de Oliveira (72')
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2 17/10/25 - 17:20
CINEMATECA SALA PETROBRAS 21/10/25 - 16:00
CINESALA 26/10/25 - 21:00
CINESESC 29/10/25 - 15:00
Futuro Futuro
Grande vencedor no Festival de Brasília, com quatro prêmios, o gaúcho Futuro Futuro, de Davi Pretto, sintoniza em chave de distopia o mal-estar profundo do mundo contemporâneo por meio da trajetória de K. (Zé Maria), homem sem memória, nome, casa, profissão, experimentando o grau máximo de desumanização.
Acolhido por Sílvio (João Carlos Castanha), sexagenário com quem compartilha uma jornada de exclusão, de vida à margem, K. é
confrontado com memórias de uma vida pregressa por meio do recurso a um aparelho, chamado de Oráculo, que lhe fornece imagens de um outro setor da cidade, rico, povoado de enormes edifícios.
Esta cidade dividida entre estes setores ricos e exclusivos e a cidade empobrecida, em escombros, é o cenário de um filme que recorre extensamente à IA, justamente para recriar estes cenários de uma Porto Alegre cada vez mais segregada, na visão do diretor, na coletiva do filme em Brasília. “Recriamos estes lugares onde certamente não teríamos permissão de acesso”, explicou.
A IA foi também uma forma de enfrentar os efeitos da grande enchente que abalou o Rio Grande do Sul em 2024, que paralisou as filmagens por meses e também impossibilitou a volta da filmagem ao cenário de um galpão, totalmente alagado e destruído.
Mas, de todo modo, tanto o IA quanto o tema da enchente já faziam parte do roteiro, assinado também por Davi Pretto, desde o começo do projeto. De uma forma quase profética, havia realmente menção a uma enchente neste roteiro antes que ela acontecesse. Mas sua concretização tornou o tema e a filmagem ainda mais dramáticos, já que um evento dessa magnitude não teria como não abalar todos os integrantes da equipe.
Filmado com baixíssimo orçamento Futuro Futuro certamente é um filme peculiar por sua procura de atravessamento entre diversos gêneros e sua recusa a integrar uma narrativa linear. De todo modo, a obra insere-se dentro da cinematografia de um diretor que assina longas como Castanha (2014), doc-ficção justamente sobre o ator João Carlos Castanha, aqui novamente integrante do elenco; Rifle (2016); e Continente (2014), todos eles exibidos em festivais internacionais, como Berlim e Sitges, e integrando em sua feitura elementos de filmes de gênero, como terror, de maneira a transgredir seus limites.
Com um elenco integrado também por Gabriela Greco, Carlota Joaquina, Clara Choveaux e Higor Campagnari, Futuro Futuro é o tipo de filme que não alivia a trajetória para o público e pede reflexão para ser decifrado - demonstrando uma coragem de ousar que nem sempre é assumida pelos criadores. (Neusa Barbosa)
FUTURO FUTURO, de Davi Pretto (86')
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1 17/10/25 - 19:45
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 3 26/10/25 - 15:30
