Mostra começa com exibição única de série sobre Martin Scorsese
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 15/10/2025
- Tempo de leitura 11 minutos
A 49ª Mostra já começa com uma exibição única e imperdível: a minissérie em 5 capítulos sobre o diretor Martin Scorsese, dirigida por Rebecca Miller - que virá a São Paulo para uma masterclass nos próximos dias. A série entra na plataforma Apple TV a partir da sexta (17).
Além disso, o primeiro dia reserva sessões de premiado em Cannes (Sirât), atração de Veneza (Frankenstein), um documentário sobre a destruição arquitetônica de São Paulo (Amora) e um filme que revela um outro lado da atriz Lucy Liu (Rosemead).
O Lendário Martin Scorsese
A diretora norte-americana Rebecca Miller teve a chance de ouro na vida ao poder encontrar Martin Scorsese e perguntar-lhe tudo o que ela, e nós todos, queríamos saber sobre ele e os incontornáveis filmes do diretor, nascido em Nova York em 1942.
O resultado deste encontro traduziu-se numa minissérie em cinco capítulos, totalizando quase 5 horas, em que o diretor de Taxi Driver, Alice Não Mora Mais Aqui, A Época da Inocência, Os Infiltrados e Assassinato da Rua das Flores desfia seus pensamentos com uma notável franqueza e a sedução de um espirituoso contador de histórias. Olhando direto para sua interlocutora, Scorsese enfileira lembranças de sua infância em Queens, numa vizinhança em que a onipresença da máfia rendeu material precioso para muitos de seus futuros filmes - como Os Bons Companheiros, Cassino e O Irlandês. Não muito longe dali, crescia também Robert De Niro, ator-fetiche de tantos títulos emblemáticos de sua carreira e um dos entrevistados imprescindíveis da série.
Há momentos em que as conversas enveredam pelo caminho das confissões, como quando Martin recorda seus casamentos tumultuados, sua quase morte pelo vício em cocaína, os altos e baixos numa carreira que quase acabou algumas vezes, mas sempre renasceu esplendorosamente das cinzas, a insatisfação constante com alguns filmes de sucesso, as obsessões morais sobre o sentido da vida e da morte e a natureza mais profunda do ser humano - preocupações que o definem desde que foi seminarista por um breve tempo.
As entrevistas com algumas de suas mulheres, filhas, amigos, colaboradores diversos - como o roteirista Jay Cocks e a montadora Thelma Schoonmaker - contribuem para ampliar o painel, somando detalhes e definições que lhe caem muito bem. Uma das melhores, a colocada por sua ex-, a atriz Isabella Rossellini, que o define como “um santo pecador”. Uma feliz descrição para a dualidade que se insere em seu trabalho, entre a preocupação ética e a extrema violência.
Os cinco capítulos permitem dividir por etapas as fases desta vida tão rica em realizações, sempre tendo em vista o país em que vive o cineasta e o tempo que lhe coube viver. Ouvindo também os depoimentos de diretores como Steven Spielberg, Brian De Palma e Spike Lee, e atores como De Niro, Daniel Day-Lewis e Leonardo DiCaprio, a série se expande em refletir a personalidade deste que é um dos cineastas mais criativos, explosivos e fundamentais de todos os tempos. E que, aos 83 anos (chegando em novembro), não pode parar. Quem é que quer isso? Nós certamente não. (Neusa Barbosa)
O LENDÁRIO MARTIN SCORSESE, de Rebecca Miller (285’)
CINESESC 16/10/25 - 15:00 (única apresentação)
(a partir de sexta, 17/10, a série será exibida na plataforma Apple TV)
Sirât
Vencedor do prêmio do júri no mais recente Festival de Cannes, o filme toma seu título do nome da ponte que separa o inferno do paraíso na tradição islâmica. O diretor franco-espanhol Oliver Laxe, mergulha nos desertos do Marrocos para retratar um grupo de personagens à deriva num mundo não menos perdido. A viagem começa com Luis (Sergi López), um espanhol à procura da filha, que desapareceu há meses, supostamente vinda para uma dessas raves no deserto para onde acorrem pessoas de todos os lugares.
Em busca dessa filha perdida, Luis e seu filho caçula, Esteban (Bruno Núñez), embarcam numa jornada perigosa, acompanhando um grupo de nômades desgarrados, que se dirigem a uma outra dessas raves, no sul do país - no contexto da erupção de mais uma guerra.
Nesse road movie, a paisagem evidentemente é personagem determinante de uma trajetória em que a imensidão desse deserto árido e desvalido vai se impondo cada vez mais sobre o próprio destino dos personagens. Lutando contra a escassez de gasolina e alimentos e desviando-se dos pelotões do exército, o grupo se embrenha por estreitas e cada vez mais arriscadas estradas nas altas montanhas.
Nesse contexto, suas escolhas vão-se esgarçando, numa narrativa cada vez mais niilista, que parece ambicionar alguma espiritualidade e até um discurso sobre o estado de coisas no mundo - mas não é exatamente bem-sucedida. Diretor conhecido por O Que Arde, premiado na seção Un Certain Regard 2019, e Mimosas (2016), Laxe perde o foco nesse relato ralo e episódico, quase como seus personagens. O veterano ator Sergi López é, certamente, a principal razão para o filme ter sido produzido, tendo por trás os irmãos Pedro e Agustín Almodóvar. (Neusa Barbosa)
SIRÂT (SIRÂT), de Oliver Laxe (115')
CINEMATECA SALA PETROBRAS 16/10/25 - 18:00
CINESESC 22/10/25 - 20:15
MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 24/10/25 - 14:00
Frankenstein
Assíduo frequentador de pesadelos e criador de monstros, o mexicano Guillermo del Toro não poderia fugir a criar sua própria versão deste personagem imortal, criado pela escritora Mary Shelley em 1818.
Na versão de del Toro, como é de se esperar, um ponto alto está na direção de arte (de Brandt Gordon, Celestria Kimmins e Emer O’Sullivan), que cria ambientes avassaladores, de forte beleza e impacto, a partir do barco encalhado na neve que dá início ao encontro entre a criatura (Jacob Elordi) e o professor Victor Frankenstein (Oscar Isaac). Mais ainda se espere do ambiente do castelo onde o cientista se dedicará à sua tétrica experiência de reinjetar vida em cadáveres, patrocinado pelo nobre Henrich Harlander (Christoph Waltz). Até mesmo os figurinos da única presença feminina de peso neste elenco, Mia Goth, interpretando Elizabeth, são sublimes e nada gratuitos, criando a aura quase mágica de uma personagem marcante.
A marca distintiva principal deste relato de horror que discute a ética da ciência está, no entanto, no retrato da criatura - talvez nunca antes tão humanizada, fazendo um arco de amadurecimento em suas experiências de convivência com os homens até aqui não explorado em outras adaptações. Com seu belo rosto escondido pela pesada prostética, Elordi desdobra camadas do drama existencial deste ser recriado a partir de experimentos terríveis com um empenho comovente. (Neusa Barbosa)
FRANKENSTEIN, de Guillermo del Toro (150’)
CINEMATECA SALA PETROBRAS 16/10/25 - 20:50
MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 18/10/25 - 18:15
CINESESC 20/10/25 - 20:00
Amora
Parafraseando Tólstoi, a documentarista e atriz Ana Petta filmou seu quintal, e assim filmou o mundo. Em Amora, ela parte de um inesperado problema pessoal, mas que tem ressonâncias universais: em 2017, recebeu a informação de que a pequena vila, no Centro de São Paulo, onde morava com os filhos, a pré-adolescente Maria e o pequeno Pedro, seria demolida para a construção de um prédio.
Do susto inicial, Ana começou a filmar o local, para guardar uma memória para as crianças. Também deu uma câmera a Pedro e, a partir do material feito por ele, construiu o documentário. “Ele, assim como todos nós, tentava entender o que estava acontecendo ali, e, para isso, ele acabou combinando realidade e imaginação”, diz a diretora em entrevista ao Cineweb.
O longa, que faz sua estreia mundial na 49ª Mostra, é um olhar delicado sobre uma cidade cada vez mais marcada pelo concreto e grandes prédios cinzentos. A vila repleta de árvores, cantos de pássaros e casinhas dos anos de 1920 e 1930 foi esvaziada aos poucos. Ana e seus filhos foram os últimos a sair, e sempre filmando – até a despedida.
No filme, ela conta que toda a equipe mergulhou no universo infantil para poder construir a narrativa, desde o montador e roteirista Paulo Celestino até o desenhista de som, Edson Secco - que faz um trabalho excepcional na construção dos sons, mantendo o diálogo entre realidade e imaginação.
Em 2022, Ana foi a grande vencedora do É Tudo Verdade, com o documentário Quando Falta o Ar, que dirigiu com sua irmã, a médica infectologista Helena Petta. O filme acompanha o trabalho de mulheres profissionais de saúde do SUS na linha de frente no combate à Covid-19. E, em Amora, novamente, a diretora toca em um tema urgente e social.
“Quando se destrói um lugar como aquela vilinha, destrói-se um jeito de viver, destrói-se a história de uma cidade e o patrimônio arquitetônico. Espero que o filme dê a oportunidade às novas gerações para pensar na preservação do patrimônio. Eu não queria fazer um filme panfletário, mas um documentário lúdico sobre um assunto importante, e, assim, despertar as pessoas para que não haja apenas discurso, mas também atos de preservação.”
Desde que os moradores saíram da vilinha, nenhuma obra foi feita. Agora, o destino do local está nas mãos do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo, Conpresp. (Alysson Oliveira)
AMORA (MY BACKYARD), de Ana Petta (76')
ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1 - 16/10/25 - 21:30
CINESESC - 21/10/25 - 15:00
Rosemead
Conhecida por sua beleza e atuação em filmes de ação de grande empenho físico, como As Panteras e Kill Bill – Volume 1, Lucy Liu se transforma física e emocionalmente no drama Rosemead, de Eric Lin, no qual ela interpreta Irene, uma viúva com um filho adolescente, enfrentando diversos problemas.
Irene foi diagnosticada com câncer, e passa por um tratamento experimental que não está funcionando como o esperado. Seu filho, Joe (Lawrence Shou), não sabe de nada disso e ele mesmo tem seus fantasmas contra os quais lutar: sua esquizofrenia dá sinais de piora, mesmo tomando medicamentos e fazendo acompanhamento com um terapeuta.
Baseado em fatos reais, o roteiro de Marilyn Fu transita entre esses dois polos, e mergulhando cada vez mais numa realidade soturna que mãe e filho enfrentam. No passado, Joe foi uma estrela da escola, excelente aluno, campeão da natação, mas agora nem amigos tem, além de uma extrema dificuldade de se relacionar com outras pessoas.
Cada vez mais fechado em si mesmo, o rapaz começa a dar mais preocupações a Irene, não apenas quanto ao que ele possa fazer contra si mesmo, mas também contra os outros - ela desconfia que ele esteja planejando um massacre em sua escola.
A comunidade de imigrantes no subúrbio na cidade de Rosemead, onde moram em Los Angeles, têm diversas explicações para o comportamento de Joe – até algo espiritual dizem ser – e julgam as ações de Irene. Os personagens secundários, no entanto, são mais estereótipos do que pessoas de verdade, por isso o filme soa muito como artificial. Embora Liu seja uma presença marcante,
o diretor estreante nunca consegue encontrar uma resposta cinematográfica à altura de sua presença e, dessa forma, ela mesma acaba um tanto diminuída.
Sem administrar a narrativa, forçando-a em diversos momentos – a ausência de qualquer sutileza é um dos maiores problemas –, Lin chega ao final estarrecedor do longa de forma fria e esquemática, desperdiçando uma boa oportunidade de criar algo mais profundo. De qualquer forma, o longa ganhou um prêmio de público no Festival de Locarno. (Alysson Oliveira)
ROSEMEAD (ROSEMEAD), de Eric Lin (97').
RESERVA CULTURAL - SALA 1 - 16/10/25
CINESESC -
22/10/25 - 18:00
SATO CINEMA - 26/10/25 - 10:00
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO – CCSP - 28/10/25 - 19:00
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