Drama libertário turco-alemão "Gelbe Briefe" vence o Urso de Ouro
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 21/02/2026
- Tempo de leitura 3 minutos
Berlim - No final, a premiação privilegiou o antiautoritarismo na Turquia e não abrigou nenhuma patriotada. Ponto para o júri presidido por Wim Wenders, que começou o festival sendo contestado por declarações envolvendo política, mas terminou premiando filmes realmente consistentes, numa noite de premiação com longos discursos.
O Urso de Ouro ficou para a produção turco-francesa-alemã Gelbe Briefe (Yellow Letters), dirigida pelo turco-alemão Ilker Çatak, uma crítica contundente contra o autoritarismo do regime comandado pelo presidente turco Recep Tayyp Erdogan, sem que ele seja nominalmente mencionado. Mas fica claríssimo que é esse governo que promove uma perseguição intensiva contra intelectuais, artistas e outras pessoas críticas do regime, como a atriz e o dramaturgo e professor retratados no filme. Por isso, as filmagens foram feitas na Alemanha e não na Turquia, ainda que ficcionalmente o local seja esse país.
O Grande Prêmio do Júri foi dado a Kurtulus (Salvation), do diretor turco Emin Alper, um dos títulos mais impactantes desta seleção, retratando a guerra fratricida entre dois clãs curdos, divididos entre o apoio ao governo e a adesão aos guerrilheiros independentistas, num ambiente impregnado de religiosidade, fanatismo e machismo. No seu agradecimento, o diretor fez questão de mencionar “os palestinos de Gaza e os perseguidos no Irã”, dizendo: “Vocês não estão sozinhos”. E enumerou uma série de nomes de amigos seus que estão presos na Turquia há vários anos, dizendo a mesma frase.
O Prêmio do Júri ficou para a produção britânico-americana Queen at Sea, de Lance Hammer, que acumulou ainda um prêmio duplo na atuação coadjuvante para os atores Tom Courtenay e Anna Calder-Marshall, que interpretam, neste drama, um casal idoso, em que ela está sofrendo de Alzheimer e cujo cuidado pelo marido enfrenta o questionamento da filha dela, Amanda (uma magnífica Juliette Binoche).
Sem patriotada
A premiação da atriz alemã Sandra Hüller, a magnífica intérprete de Rose, de Markus Schleinzer, como atriz principal, foi a bola mais cantada da semana e uma premiação de uma justiça incontestável. Sandra entra na pele de uma mulher do século XVII que vive sob identidade de homem e enfrenta temíveis consequências quando seu segredo é descoberto.
Nina Roza, da canadense Geneviève Dullude de Celles, ficou com o troféu de roteiro, contando a história de um curador de arte que volta à sua Bulgária natal para decifrar o mistério de uma menina artista e termina encarando uma série de contradições.
E o Urso de Prata de excepcional contribuição artística foi entregue ao documentário norte-americano Yo (Love is a Rebellious Bird), de Anna Fitch e Banker White, que conta da maneira mais criativa e amorosa a história de uma imigrante suíça moradora na Califórnia.
Brasileiros
Com dez filmes brasileiros nas seções paralelas, duas produções cearenses acabaram obtendo prêmios. Uma delas foi Feito Pipa, de Allan Deberton, vencedor do Urso de Cristal de melhor filme da seção Generation e também o Grande Prêmio da mesma seção, concedido pelo júri internacional.
Participante da seção Fórum, o drama fantástico Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, filme de estreia de Janaína Marques, venceu o Prêmio do Júri dos leitores do Tagesspiegel, tradicional jornal alemão, um prêmio independente no festival (foto acima).
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Acompanhe a cerimônia de entrega dos prêmios na íntegra
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