Uma noite com a marca da originalidade nordestina
- Por Neusa Barbosa, do Recife
- 03/06/2026
- Tempo de leitura 3 minutos
Recife - A segunda noite competitiva do festival foi um marco da mais fina expressão da originalidade da identidade nordestina, através de filmes como os pernambucanos Buenosaires (foto ao lado), de Tuca Siqueira (foto abaixo), e dos curtas Os Ursos e Nós, de Maria Acselrad, e Os Arcos Dourados de Olinda, de Douglas Henrique.
Fruto de uma pesquisa e desenvolvimento que consumiu 10 anos, o longa documental Buenosaires registra a peculiar experiência de uma cidade no interior de Pernambuco que adotou o nome da capital argentina, mantendo com os hermanos uma ambígua relação de admiração e rejeição. Ao mesmo tempo que a escolha do nome traduz uma fantasia de tornar-se melhor e maior, isso não significa incorporar hábitos como comer empanadas ou interessar-se por cursos de espanhol, ambas iniciativas tentadas e fracassadas na cidade.
Onde a influência portenha se mostra mais nítida é no futebol, não só pela existência de um time local batizado como Boca Juniors como pela torcida declarada de boa parte da população pela seleção argentina em Copas do Mundo. No mais, a cidade pernambucana não troca o maracatu pelo tango e conta, entre seus 13.000 habitantes, com apenas um solitário morador argentino, Leonardo Caponi.
De todo modo, o fato mereceu uma reportagem do jornal argentino La Nación.
O McDonald’s e os ursos
Exibido e premiado em diversos festivais, como o É Tudo Verdade, Festival do Rio e Bogoshorts, Os Arcos Dourados de Olinda foi o filme que fez a plateia do Teatro do Parque vir abaixo - o que era de se esperar. Documentando a experiência inusitada de Olinda, que assistiu à falência, supostamente inédita no mundo, de um McDonald’s e da eleição da primeira prefeita comunista no Brasil pós-ditadura, Luciana Santos - hoje ministra da Ciência,Tecnologia e Inovação -, o filme alinha, de forma esperta, diversos materiais de arquivo e uma narração saborosa do ator Giordano Castro, criando a crônica de uma série de coincidências incríveis, com um texto bem-humorado e irresistível, além de recheado de comentários políticos.
Primeiro filme da diretora e professora Maria Acselrad (foto ao lado),
Os Ursos e Nós cria uma narrativa extremamente sensorial para abordar o tema dos ursos, figuras fantasiadas, típicas do carnaval pernambucano, que encontram expressões diferentes em cada região do estado. Com formação em dança, a diretora compõe, com ajuda da montagem de Paulo Sano, um filme que se apóia em imagens e sons, com trechos de entrevistas entrando em off, jogando o espectador na experiência sensorial, sem textos de apoio ou narração.
Duas imagens de arquivo remetem a uma possível origem da expressão artística dos ursos, como se sabe, animais inexistentes na fauna brasileira, e que poderia ter surgido a partir da tradição de ciganos vindos da Europa do leste. Mas existe, assumidamente, segundo a diretora, uma inspiração estética na formulação do filme que remete tanto ao francês Jean Rouch como ao brasileiro Arthur Omar.
Entre o amor e o horror
Os outros dois curtas da noite também são do Nordeste. O primeiro, outro pernambucano, Velha Roupa Colorida, de Pedro Filipe, originário do núcleo criativo estabelecido na cidade de Bezerros, contando a história da amizade entre dois gays, o jovem Gabriel (Lucas Carvalho) e um homem mais velho (Beto Aragão), trocando experiências e sonhos.
Representante do Maranhão, Mercado Central foi uma experiência radical no cinema de gênero, assinado pela diretora e atriz Tássia Duhr. Ambientado no cenário real do mercado de São Luís, o filme encena a história de vários desaparecimentos e algumas experiências sangrentas, mediadas por situações de paixão e desejo.
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