"Doutor Monstro" recorda feminicído famoso procurando fugir à fórmula do true crime
- Por Neusa Barbosa, do Recife
- 02/06/2026
- Tempo de leitura 3 minutos
Recife - O 30º festival abriu sua competição na noite de segunda (1º) com um filme, Doutor Monstro, em que o diretor paranaense Marcos Jorge pretende, declaradamente, incomodar. Tarefa nada difícil, em se tratando de um drama que reconstitui um famoso feminicídio, ocorrido na zona norte da São Paulo do começo dos anos 2000, com requintes de crueldade - o caso do médico Farah Jorge Farah, que matou e esquartejou uma de suas pacientes. O filme tem estreia prevista para setembro.
Fugindo ao típico true crime, gênero em voga atualmente, o diretor de Estômago e Mundo Cão constrói um drama de tribunal, gênero raro no cinema nacional, procurando discutir duas das principais formas de organização da narrativa social, o aparato judicial e a mídia - cujas falhas e contradições são essenciais para permitir que Farah nunca tenha efetivamente sido punido por seu bárbaro crime, apesar de submetido a dois julgamentos e duas condenações.
Trocar a figura do promotor real do caso, um homem branco, por uma mulher negra, interpretada pela atriz Taís Araújo, é um dos mais eficazes instrumentos para intensificar a tensão da história, atualizando o foco da discussão atual sobre feminicídio - sendo que, na época dos fatos, nem mesmo esse termo existia, assim como a lei Maria da Penha, nem a tipificação deste tipo de assassinato como crime hediondo.
Cenários reais
Filmado num tribunal de júri real da cidade de Curitiba, Doutor Monstro, por um lado, apela para o realismo da história, recorrendo a falas reais dos autos do processo - e que, não raro, soam absurdas -, e a características espantosamente próximas do criminoso, vivido pelo ator Marat Descartes. Ao mesmo tempo, tenta-se aproximar a discussão da atualidade, tanto através da figura intrépida da promotora, obcecada por fazer justiça à vítima (interpretada por Marcelina Fialho), colocando em evidência como esse próprio ritual do julgamento, um tanto teatral às vezes, cria espaço para uma vitimização do réu que, absurdamente, permite a introdução do conceito de legítima defesa. Isto acontece tanto pela habilidade do advogado de defesa, Pontes (Guilherme Weber), enfatizando aparentes fragilidades do réu, quanto pelo desinteresse da mídia em descobrir a história dessa mulher, que foi vítima mas que é permanentemente descrita como uma insistente e assediadora amante do médico - o que não era fato comprovado - e, além disso, adúltera.
Ao levantar a discussão da organização das narrativas, judiciais ou midiáticas, para o primeiro plano, Doutor Monstro tem aí seu maior mérito. Produz o incômodo, pretendido pelo diretor, que cria um filme que não tem catarse, herói nem final feliz, porque se atém ao resultado frustrante do caso real - que tem detalhes absolutamente incríveis, como a semelhança do fim trágico de Farah com Psicose, de Alfred Hitchcock.
Certamente, Marcos Jorge é um diretor experiente e com muitas referências cinematográficas, que coloca a serviço do filme em mais de um momento - a descoberta do corpo num porta-malas, a aparição de uma mosca, a cena de um jantar, um sonho da promotora, entre outras. Tudo isso adiciona complexidade ao filme, sem atenuar a questão da culpabilidade de Farah - que não foi considerado insano nem psicopata. A posteriori, psiquiatras o consideraram portador de uma psicose paranoica, o que de modo algum atenua sua culpabilidade, ainda mais tendo-se em conta o planejamento e o método utilizados para o crime, evidenciados nos depoimentos de policiais e peritos ouvidos no tribunal. Mas talvez a questão mais inquietante do filme seja demonstrar como é fácil deslocar o eixo da racionalidade na análise de um caso como este para as pulsões emocionais de quem assiste e quem julga.

Crédito das imagens:
Filme: Olhar Filmes
Atores e diretor: Neusa Barbosa
Relacionadas
Cine PE aborda o desconforto do mundo
- 04/06/2026
