25/10/2026

O amor e a política, segundo Lee Chang-dong, o anticolonialismo de Lav Díaz e as meninas do México

O segundo final de semana da Mostra reúne atrações como o vencedor do Grande Prêmio do Júri em Veneza, o sul-coreano Amor Possível, do veterano Lee Chang-dong, um sólido retrato de relações políticas e intimistas a partir da história de dois casais de classes sociais diferentes. Mas há também o novo filme do filipino Lav Díaz, Deixem-nos Passar, Caros Ancestrais, uma aguda crítica ao colonialismo, e um promissor drama mexicano, Chicas Tristes, primeiro filme da diretora Fernanda Tovar, retratando os dilemas de duas amigas adolescentes confrontadas com um abuso sexual. Confira os detalhes destes e outros bons filmes da programação.

Amor Possível

O novo filme do veterano e premiado Lee Chang-dong, que os brasileiros conhecem do potente Em Chamas (2018) e do delicado Poesia (2011), venceu um merecido Grande Prêmio do Júri em Veneza - e poderia facilmente ter arrebatado o Leão de Ouro. Trata-se de um admirável enredo sobre as múltiplas relações que se formam entre dois casais de classes sociais diferentes, produzindo um filme envolvente e com muitas camadas.

O casal proletário é formado por Mi-ok (Jeon Do-yeon) e Ho-seok (Sul Kyung-gu), o mais rico, pela documentarista Ye-ji (Cho Yeo-jeong) e o executivo Sang-woo (Jo Iu-Sung). Eles se aproximam quando a documentarista leva adiante o projeto de resgatar as histórias por trás da fracassada greve numa empresa metalúrgica, que foi violentamente reprimida e causou o desemprego e vários traumas na vida de Ho-seok, cuja mulher é operária têxtil.

À medida que a cineasta e, depois, seu marido, se envolvem na vida dos dois trabalhadores, outras relações se formam, permitindo a Chang-dong abrir várias camadas, num filme muito denso, que explora as contradições do capitalismo, do sindicalismo, da luta de classes, enfim, interferindo evidentemente nas expectativas despertadas pela aproximação entre duas realidades muito diferentes, como são as dos dois casais.

Aliás, os mestres sul-coreanos têm sido precisos em realizar filmes que dissecam a crise atual do capitalismo, como Bong Joon-ho em Parasita e Park Chan-wook em A Única Saída. Com Possible Love, Chang-dong não ficou atrás.

Assinando o roteiro em parceria com Jungmi-oh, Chang-dong esmera-se em sua habitual perícia de extrair sentimentos e reflexões com uma densidade de que poucos diretores e roteiristas são capazes. Por isso, o filme impressiona e permanece na memória, fazendo valer a duração de suas quase 3 horas com a compensação de que se assistiu a uma obra extraordinária. O filme foi coproduzido pela Netflix e tem estreia global prevista para 6 de novembro deste ano. (Neusa Barbosa)

25/10 - 20:40 - CULTURA ARTÍSTICA
26/10 - 20:50 - CINE BELAS ARTES SL 1 LEON CAKOFF
29/10 - 19:15 - CINESESC

O Homem Mais Solitário da Cidade

Visitando São Paulo para a Mostra, o cineasta austríaco Rainer Frimmel conta que ainda não assistiu ao brasileiro Aquarius, mas achou interessante que mais de uma pessoa comentou ver pontos em comum entre o longa de Kleber Mendonça Filho e o seu O Homem Mais Solitário da Cidade. “Eu fui procurar o trailer, e acho que entendo a relação mesmo. Eu conheço o Kleber, agora vou atrás de ver o seu filme”, contou em entrevista ao Cineweb.

Exibido no Festival de Berlim, O Homem Mais Solitário da Cidade começa com o protagonista, o músico octogenário Al Cook, sendo pressionado a deixar seu apartamento num antigo prédio em Viena, que será demolido para a construção de outro mais moderno. A resistência dele ecoa à da personagem de Sonia Braga, mas, ao contrário dela, ele logo acaba cedendo, ainda na primeira meia-hora do longa.

“As coisas em Viena chegam um pouco mais tarde do que no restante do mundo. O filme do Kleber tem dez anos, e isso já estava acontecendo aqui no Brasil. Só agora estamos enfrentando esse processo de gentrificação”, explica o cineasta, que fica impressionado ao saber que as lojas e as salas de cinema em frente ao Espaço Petrobras de Cinema (onde a entrevista foi conduzida) também serão derrubadas para a construção de um edifício. “É um processo mundial, mas é preciso lutar contra isso. Não sei se há saída, mas é preciso resistir.”

Ele aponta que seu longa é sobre a resistência e a persistência das memórias. Koch, o personagem, é vivido por Alois Koch, um músico vienense, uma figura meio lendária a quem Frimmel e Tizza Covi, também diretora do longa e esposa do cineasta, conhecem há muitos anos. “Ele é alguém peculiar, muito talentoso e divertido. Escreveu uma autobiografia de 700 páginas e queria que fizéssemos um documentário, mas dissemos ‘Você já contou sua história, vamos agora fazer uma ficção.’”

Isso não impediu, por exemplo, que a dupla de cineastas incorporassem ao longa elementos da vida de Koch, trazendo suas memórias, fotografias e filmes caseiros. A história do apartamento, no entanto, é totalmente ficcional. O músico pretendia reformar o seu apartamento, mas Frimmel e Covi pediram para esperar um pouco para que fizessem o filme antes.


Koch leva seu trabalho muito a sério e, no passado, chegou a recusar tocar com Eric Clapton, pois o artista estadunidense não toca o estilo Delta Blues. “Ele poderia ser muito mais famoso e rico, mas preferiu ser fiel ao seu trabalho, a si mesmo.” Já o restante do elenco também é formado por pessoas que o casal conheceu ao longo dos anos. Os homens que vão tentar persuadir o protagonista a deixar seu apartamento realmente trabalham com isso, trazendo assim mais veracidade aos personagens e aos diálogos. Há inclusive um brasileiro, falando em português, que é interpretado pelo ex-cunhado de Covi.

Frimmel conta que rodou o longa em 16mm, com o mínimo de equipamentos e equipe. “Queríamos trazer uma segurança e deixar que Koch se sentisse confortável nas filmagens. Tentamos dar uma fisicalidade às memórias, a partir dos mementos dele, da vida dele, e, para isso, era preciso deixá-lo à vontade. Embora nunca tenha ido aos EUA, ele nutre esse sonho e vê o país como a terra da liberdade. Hoje sabemos que as coisas não são bem assim.”

O longa será lançado no Brasil no próximo ano pela Autoral Filmes. (Alysson Oliveira)

ÚLTIMA EXIBIÇÃO:

25/10 - 22:05 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2

Deixem-nos Passar, Caros Ancestrais

Mais uma vez contundente, o cineasta filipino Lav Díaz assina um drama que aponta para uma crítica feroz ao colonialismo, no caso, o espanhol, que invadiu países como o seu apoiado na imposição da religião, servindo de fachada para todos os vícios.
Um personagem central é o padre Enciso (Bart Guingona), um homem devasso que se vale de sua posição de poder para se aproveitar das muitas mulheres viúvas de trabalhadores mortos no transporte de peças de mármore para a edificação de uma igreja numa região quase inacessível de floresta.

O transporte do mármore, muitas vezes tentado, foi sempre interrompido pela ação do bandido local, Baribari (Yul Servo), e sua gangue, levando a que a igreja local do padre continue sendo apenas uma precária choupana, que Enciso pretende substituir por um projeto ambicioso, assinado pelo arquiteto Alejo Smith (Daniel Palisa), um mestiço de inglês e espanhol.

Enciso vai encomendar mais uma vez o transporte do mármore, forçando um de seus muitos filhos ilegítimos, Dungwen (Christian Bables), a comandar a perigosa expedição até o rio local. A viagem desses homens, tentando realizar o transporte, sob a vigilância estrita da gangue de Baribari, transforma-se também numa jornada exaustiva, em meio à mata chuvosa, ao chão lamacento, trazendo à mente semelhanças com o transporte do barco de Fitzcarraldo, de Werner Herzog.

Com este relato, Díaz compõe uma história que se transforma em metáfora da destruição da cultura ancestral, simbolizada pelo aprisionamento de Babayeng Indimatandog (Isabel Sandoval), mulher tida como feiticeira, por ordem do padre, e da sujeição dos pobres camponeses ao seu poder, na completa ausência de relações de trabalho minimamente civilizadas. Exibido no Festival de Veneza. (Neusa Barbosa)

25/10 - 12:10 - SATO CINEMA
01/11 - 19:15 - CULTURA ARTÍSTICA

Tudo é Tempo

Um pequeno recorte do Brasil dos últimos 20 anos emerge através do documentário de Marcos Guttman (RJ), que acompanha quatro eleitores cariocas entre 2002 e 2022. O filme venceu três prêmios no Festival de Brasília: Prêmio Especial do Júri, melhor filme para o júri popular e o Troféu Saruê.

Entre a primeira e a terceira eleição do Luiz Inácio Lula da Silva, estes quatro eleitores de faixas diferentes da classe média de uma seção eleitoral do Rio de Janeiro oscilam entre suas convicções, afetos, expectativas e esperanças, traduzindo momentos de incerteza pelo qual o País passou nestas duas décadas de muitas mudanças e também muita instabilidade, sobretudo política.

Não se espere aqui um mergulho tão profundo quanto aquele realizado pelo mestre Eduardo Coutinho (1933-2014) em suas obras, uma assumida inspiração para o diretor Guttman. Aqui, a realização é bem mais modesta, eventualmente frustrante, pois não houve recursos suficientes para um projeto de maior ambição, ainda mais no transcurso de um período de tempo tão extenso. O próprio diretor ressaltou, na coletiva do filme, ter enfrentado problemas na captação de recursos e que o projeto chegou a ficar por anos na prateleira, sem perspectivas de lançamento.

É visível, no entanto, que houve um acompanhamento de fases importantes das vidas de Cristiane Rosa, Carlos Eduardo Ibrahin, Fernando Pereira e Heber Cunha, retratando um esforço sincero do cineasta de traduzir, ainda que de forma sintética, seus sentimentos e reflexões sobre um período de transformação do País a partir da chegada do primeiro operário à presidência da república.

Por conta das dificuldades de produção enfrentadas, no entanto, o filme ostenta lacunas, algumas trabalhando a favor, outras contra o filme, Uma delas é a omissão do período Dilma Rousseff, que culminou na ascensão de Michel Temer e Jair Bolsonaro, este mencionado de passagem num trecho. Outra limitação pode ter sido, de saída, concentrar-se em eleitores de um perfil muito semelhante, à exceção de Fernando Pereira, morador em Cidade de Deus, pertencente a uma camada mais popular, da classe trabalhadora.

O longa marcou a volta do diretor ao Festival de Brasília depois de 34 anos, em que ele havia vencido os prêmios de melhor direção e filme experimental com o curta Lapso. Retornou depois com outro curta, Vicente, em 1995. (Neusa Barbosa)

ÚLTIMA SESSÃO:

24/10 - 15:30 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2

Justino - Nos Bastidores do Reino

Justino - Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte, vale-se com eficiência narrativa de seu potencial de polêmica ao abordar um tema importante e necessário: as entranhas de uma poderosa igreja pentecostal, a Igreja Universal do Reino de Deus, através do testemunho de um ex-pastor, Mário Justino (interpretado com dedicação por Christian Malheiros, premiado como melhor ator no Festival de Brasília).

O enredo baseia-se, aliás, no livro escrito pelo próprio Justino, Nos Bastidores do Reino, fornecendo um raro mergulho no interior de uma poderosa igreja pentecostal - a Universal do Reino de Deus - para expor os mecanismos de ascensão de seus pastores, comandados pelo manipulador pastor Azevedo (Caio Blat, numa interpretação marcante). Não será segredo para ninguém que Azevedo, na verdade, é o bispo Edir Macedo que, aliás, empreendeu uma campanha implacável contra a publicação do livro de Justino pela Geração Editorial, que chegou a ser recolhido e impedido de circular por vários anos.

O filme, afinal, é uma forma de colocar luz sobre essa história, espantosamente real, de um jovem em crise com sua família que entrou para uma igreja na esperança de acolhimento e mergulhou em mecanismos de exploração da fé de incautos, num projeto de enriquecimento de mercadores da fé.
(Neusa Barbosa)

24/10 - 19:00 - ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1
27/10 - 16:40 - RESERVA CULTURAL - SALA 2

Vento Norte

Um dos méritos dos festivais é colocar novamente em circulação longas restaurados, oferecendo-as para o conhecimento de novas gerações ou uma oportuna revisão histórica.
É o caso do raro Vento Norte, filme gaúcho de 1951, do diretor Salomão Scliar, considerado um marco do cinema independente, além da originalidade de uma fotografia em preto-e-branco repleta de jogos de luz e sombra, na paisagem da praia de Torres - local onde se dá um drama romântico de traição e morte, numa comunidade de pescadores.

Isolada, a comunidade vive uma rotina de trabalho, que é rompida pela chegada de um forasteiro, João (Roberto Battaglin), acolhido por um casal, que passa a morar no seu estábulo. Ele se interessa pela mulher, Luísa (Patricia Diniz), e passa a assediá-la, criando situações de suspeita, que colocarão à tona velhos preceitos de uma sociedade isolada e ainda ligada a velhos rituais de vingança, que remetem a sentimentos primitivos. (Neusa Barbosa)

24/10 - 17:30 - CINEMATECA SALA GRANDE OTELO
28/10 - 14:00 - INSTITUTO MOREIRA SALLES - PAULISTA

Chicas Tristes

Não é de se espantar que a cineasta mexicana Fernanda Tovar fale português fluentemente. Após ver o seu longa de estreia, Chicas Tristes, fica claro seu amor pelo Brasil. As protagonistas, Paula e La Maestra, são duas adolescentes nadadoras que sonham em participar dos jogos Pan-Americanos no Brasil – que aconteceram em 2007.

“Eu me apaixonei pelo Brasil por meio dos documentários brasileiros, em especial do Eduardo Coutinho, a quem descobri quando cursava cinema”, conta em entrevista ao Cineweb. Além disso, atualmente, ela é casada com uma brasiliense e vivem na Cidade do México.

Seu encanto pelo país não para por aí. Tovar ama música brasileira e, numa das cenas mais bonitas do longa, toca-se Alucinação, de Alceu Valença. “A música brasileira é apaixonante, eu não ia deixar de fora”, diz ela, contando que fugiu do óbvio, como Caetano Veloso, que é mais famoso, mas ela queria algo diferente dele.

O sonho das personagens em vir para o Brasil é, para Tovar, uma mudança de paradigmas. “A ideia de sucesso, no meu país, sempre foi a de ir para os EUA. Mas eu queria mudar isso, queria mostrar as pessoas sonhando em ir para o sul do continente.”

Rocio Guzman e Darana Alvarez interpretam com sagacidade e vigor as duas amigas, cuja amizade é posta à prova quando uma delas é vítima de abuso sexual. É um tema delicado, mas que Tovar, que também assina o roteiro, aborda com sinceridade e sagacidade.

“Conversei muito com as duas atrizes sobre esse tema, e fiquei impressionada como a juventude de hoje é muito bem-informada. Eu estava muito nervosa em falar com elas sobre abuso sexual, mas elas se saíram muito bem, encontraram sozinhas o tom das personagens.” (Alysson Oliveira)

24/10 - 14:00 - CINE TUTU
26/10 - 19:40 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 5

Memórias do Cárcere

Uma centena de anos antes das "Memórias do Cárcere" de Graciliano Ramos, houve as "Memórias do Cárcere" de Camilo Castelo Branco, que servem de base ao filme homônimo de Sérgio Graciano, que forma uma espécie de díptico não-oficial com Mistérios de Lisboa, também baseado no autor português, produzido por Paulo Branco e roteirizado por Carlos Saboga.

No longa de Graciano, o ator Albano Jerónimo, (recém-visto no brasileiro Minha Melhor Amiga) vive Castelo Branco, que é levado à Cadeia da Relação do Porto, após a acusação de adultério. Ali também está sua amante, Ana Plácido (Maria João Bastos).

“Apesar da história situada no século XIX, eu busquei inspiração nos dias de hoje para falar de questões como vingança e adultério, temas que sempre estão em voga”, afirma o cineasta.

Graciano explica que buscou, na estética e aspetos técnicos do filme, o artesanal. Não há efeitos de pós-produção, tudo foi feito com truques durante as filmagens. “Há cenas, por exemplo, de sobreposição de imagens. Fizemos isso ali, no set mesmo, com cada personagem de um lado de um vidro. O efeito é muito bonito.”

Agora, o diretor prepara uma nova parceria com Brando, que além de produzir, irá protagonizar seu próximo filme. “Estou preparando uma adaptação de Os Adeuses, do Juan Carlos Onetti, sobre um homem de meia-idade que vai para um sanatório tratar de uma tuberculose”. (Alysson Oliveira)

ÚLTIMA SESSÃO:

25/10 - 13:30 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 3

Você Não Vai Acreditar Quem Morreu

O irlandês Dallan Shovlin conta que seu filme nasce de uma série de eventos inusitados, a começar, por um website em seu país que registra todos os funerais que estão acontecendo. “Eu tenho um primo de segundo grau que é viciado nisso. Vai a vários funerais e sempre liga para a minha avó contando como foi. Até que um dia, calhou de ele ir ao funeral de uma pessoa que ela conheceu no passado”, conta ao Cineweb.

A partir disso, Shovlin, que também assina o roteiro, imagina uma reunião familiar de Natal na qual a frase do título é despejada no meio do jantar, causando silêncio e consternação. Depois disso, a família imagina como seria roubar o dinheiro que esse falecido deixou escondido em casa. “O roubo também veio da minha família, a gente ficou pensando como seríamos roubados se algum de nós morresse”, conta, rindo.

O cineasta escreveu o roteiro durante a pandemia, usando o período de experiência de um software para roteiros. “Eu não tinha dinheiro, então tive que aproveitar os 30 dias gratuitos, e me forçar a escrever nesse período. Depois, trabalhei como diretor assistente no filme sobre [a banda] Kneecap. Foi quando conheci o Trevor Birney, que acabou produzindo o meu filme.”

O diretor ainda destaca a presença, no elenco, de Stephen Rea, uma verdadeira instituição do cinema e teatro irlandês. “No primeiro dia de filmagem, ele veio me perguntar algo sobre o personagem, e eu queria passar uma boa impressão, então disse algo complexo e ele me respondeu: ‘Uma vez Samuel Beckett me disse que...’. Caramba, Stephen, não tem como competir com você. Você trabalhou com os grandes do teatro irlandês, Beckett, Brian Friel...”

Shovlin aponta que seu país vive um momento interessante no cenário artístico internacional atualmente – em especial na música, com bandas como o próprio Kneecap e o Fontaines D.C., que são particularmente marcadas por seu posicionamento político claramente à esquerda. “A Irlanda é um país muito politizado, e esses artistas refletem bastante isso.” (Alysson Oliveira)


ÚLTIMA SESSÃO:

24/10 - 22:05 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 2

Zi

Para o artista visual, vídeo-ensaísta e cineasta Kogonada, o espaço é tão importante quanto seus personagens. Em Zi, isso não é diferente. Hong Kong é o palco da ação, mas também uma força dentro da narrativa que acolhe ou aliena as personagens. A protagonista, Zi (Michelle Mao), é uma jovem solitária passando por uma estranha condição neurológica: ela tem visões de seu futuro – ou talvez seriam do passado?

Vagando sem rumo, ela é encontrada por Elle (Haley Lu Richardson, presença constante nos filmes do diretor), uma estadunidense vivendo em Hong Kong, que se sensibiliza pela solidão de Zi e sua estranha condição, e promete não deixá-la sozinha. O ex-noivo dela, Min (Jin Ha), terá uma conexão particular com a protagonista, pois trabalha no centro de saúde cerebral que está cuidando do caso de Zi.

As tênues conexões que Kogonada arma para esse trio de personagens são marcadas pelas andanças numa Hong Kong distante dos cartões postais e melancólica, em feiras noturnas, karaokês em barraquinhas nas ruas e uma arquitetura peculiar. O primeiro longa do cineasta, Columbus, também era marcado pela arquitetura, situando a ação na cidade que dá título ao filme, conhecida como a meca do brutalismo.

A amizade que surge entre as duas jovens é tocante pois permite que elas entendam a si mesmas uma a partir da outra. Duas almas solitárias e feridas que precisam se reencontrar para seguir em frente. Kogonada é, também, um cineasta sensorial que coloca nos laços de afeto algo de palpável, embalado na poesia estética que já virou a marca do diretor – uma herança de seu trabalho com as artes. (Alysson Oliveira)

24/10 - 14:00 - SATO CINEMA
26/10 - 15:25 - CINESYSTEM BELAS ARTES FREI CANECA 3
29/10 - 19:30 - CINEMATECA SALA GRANDE OTELO