Almodóvar mostra "La Piel que Habito" em meio a críticas a Lars von Trier
- Por Neusa Barbosa
- 19/05/2011
- Tempo de leitura 4 minutos
Cannes –Como seria de se esperar, Lars von Trier pediu desculpas pelas bobagens ditas ontem, nestes termos. “Se feri os sentimentos de alguém pelo que disse na coletiva de imprensa, sinceramente peço desculpas. Não sou nem antissemita nem racista em nenhum sentido, nem sou nazista”. Mas era tarde para evitar os danos que suas declarações irresponsáveis sem dúvida causaram à divulgação do filme Melancolia e que podem ter consequências em sua distribuição, nos EUA, Israel e outros países em que a comunidade judaica possa ter-se sentido ofendida.
Hoje, o Conselho de Administração do festival não só rejeitou as manifestações de Von Trier como o declarou “persona non grata”, para “efeito imediato”. Ainda não se sabe ao certo o que isto implicará.
Em todo caso, Von Trier já era quase old news nesta manhã de quinta, quando passou por aqui La Piel que Habito, o novo filme de Pedro Almodóvar que concorre novamente à Palma de Ouro – e que causou muita perplexidade, pelo tema e o tom que adota, nesta volta do ator Antonio Banderas à obra de seu criador, 22 anos depois de Ata-me!.
Como raríssimas vezes antes em sua carreira (outra ocasião, em Carne Trêmula), Almodóvar inspirou-se em obra alheia para compor seu roteiro, no caso, o livro Mygale, de Thierry Jonquet, que leu há 10 anos. Dele guardou a figura do pai que comete uma vingança por um estupro cometido contra sua filha, temperando-o com elementos científicos ligados a manipulações genéticas.
Banderas é esse pai, um cirurgião plástico que pesquisa a criação de pele artificial, depois de perder a mulher, gravemente queimada depois de um acidente de automóvel. Na verdade, há outros fatos ligados à morte da mulher, bem como ao suposto estupro da filha (Blanca Suárez). A vingança, contra o suposto estuprador (Jan Cornet), é que reserva os elementos mais bizarros, já que envolve uma drástica mudança física do rapaz. É quando entra em cena Vera (Elena Anaya, que já trabalhara com o diretor antes em Fale com Ela).
Referências ao Brasil
Há referências ao Brasil no filme, envolvendo uma citação à Bahia, um personagem, Zeca/Tigre (o ator espanhol Roberto Álamo), e a música Pelo Amor de Amar, cantada em português pela espanhola Ana Mena.
Na coletiva de imprensa, Almodóvar explicou ter pretendido que Tigre (na história, irmão criminoso do cirurgião plástico) viesse “de uma cultura que não fosse baseada no castigo e no pecado, como aquela judaico-cristã em que vivi. Por isso, quis que fosse do Brasil a origem dessa família feroz, selvagem e moralmente independente do filme”. Lembrou ainda a tradição da cirurgia plástica brasileira, citando nominalmente o médico Ivo Pitanguy.
O diretor lembrou sua paixão pela Bahia – “uma terra onde se concretizam todas as expectativas mágicas que você imagina existirem lá” -, sua amizade por Caetano Veloso e pela música brasileira, desde a Bossa Nova até a música eletrônica, e também sua admiração pelo nosso idioma. A canção Pelo Amor de Amar, segundo ele, fez parte também da trilha do filme Os Bandeirantes, na voz de Helena de Lima.
Mas nem só de Brasil se fez este filme estranho, um misto de thriller e melodrama com toque de ficção científica – o que Almodóvar nega, dizendo que as manipulações genéticas são hoje uma realidade. Mencionou como referência Fritz Lang e disse que pensou até em realizar esta obra muda e em preto-e-branco. Igualmente admitiu a inspiração do filme francês Les Yeux sans Visage, de Georges Franju (1960), e do livro Frankenstein, de Mary Shelley, além da lenda grega de Prometeu.
Admitidas todas as referências e os cruzamentos de gêneros – e Almodóvar disse que hoje o thriller é seu favorito, firmando uma disposição a ser, entre outras coisas, uma espécie de Hitchcock latino de nossos dias -, há indícios também de que o diretor procure uma espécie de reconexão à transgressão que marcou seus primeiros filmes. Neste sentido, nenhum intérprete mais adequado do que Antonio Banderas, que na coletiva, não se cansou de agradecer ao seu descobridor por tê-lo “levado a territórios que não conhecia”, como esta espécie de “horror frio” que percorre o filme, onde personagens, como o de Banderas e também o de sua mãe (Marisa Paredes), são capazes de dizer as coisas mais criminosas como se fossem normais. Com a insensibilidade que só os psicopatas podem ter.
Em todo caso, os fãs de melodramas com outra temperatura, como Tudo sobre Minha Mãe, Fale com Ela e Volver poderão, é certo, sentirem-se traídos pela nova investida do diretor. Que não parece talhada a trazer-lhe a Palma de Ouro com que ele sonha.
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