"Paraísos Artificiais", de Marcos Prado, retrata a geração T
- Por Neusa Barbosa, do Recife
- 28/04/2012
- Tempo de leitura 3 minutos
Cineasta premiado pelo documentário Estamira (2004), o carioca Marcos Prado levou à tela do Cine PE a ficção Paraísos Artificiais, um esboço de retrato de uma geração de jovens encharcados de drogas sintéticas e música eletrônica. O filme concorre à premiação e tem estréia prevista para 4 de maio.
Um elenco jovem e promissor, escolhido em exaustivos testes e preparado por Fátima Toledo, sustenta na tela a tarefa personagens em estados alterados de consciência, voluntariamente, ao contrário de dona Estamira do documentário de Prado. E eles se empenham para que essa viagem se prolongue ao máximo, por dias seguidos, como se vê nas raves de que participam.
Esses personagens são Nando (Luca Bianchi), que perdeu o pai (Marcos Prado, numa ponta), Érika (Nathalia Dill), Lara (Lívia de Bueno), Patrick (Bernardo Melo Barreto), uma geração pós-yuppie e sem vocação para ser executivos de sucesso – alguns deles são, na verdade, recrutados como “mulas” para contrabandear drogas. Suas procuras estão no prazer sensorial, que o filme materializa num belo trabalho de fotografia de Lula Carvalho, montagem de Quito Ribeiro e edição de som de Alessandro Laroca, Eduardo Virmont Lima e Armando Telles Jr.
Se há um vazio na tela, ele faz parte da própria identidade de uma geração que absorve informações em ritmo alucinante e fragmentado, através de celulares, ipads, notebooks, muitas vezes sem conseguir prestar atenção a nada por mais que alguns minutos. Como lembrou na coletiva do filme a atriz Lívia de Bueno, eles já foram chamados de “geração T”, porque testemunha à exaustão tudo o que vive e assiste, reportando incessantemente nas redes sociais informações que talvez não processem. “Acho meio aflitivo isso, mas, ao mesmo tempo, é pertinente falar disso para entender esta geração”, observou a atriz., de 28 anos.
Atriz mais veterana, Divana Brandão – de volta ao cinema depois de ausência de 26 anos, desde A Dança dos Bonecos (1986) -, acrescenta: “Tenho filhos dessa idade, que falam ao celular, tuitam, tudo ao mesmo tempo. E eles estão prestando atenção em tudo. A geração deles é assim. Parece uma percepção nova”.
Cinema pudico
O diretor ressaltou que quis fazer um filme “muito sensorial”. Àqueles que reparam que há muitas cenas de nudez e sexo – aquelas envolvendo as duas moças incomodaram alguns espectadores, que deixaram o Teatro Guararapes -, ele tem uma resposta: “Acho legítimo as pessoas não quererem ver, saírem. Mas também acho que o cinema nacional é muito pudico. As cenas de sexo foram feitas com muita entrega, com muita dedicação. Penso que conseguimos fazer todas essas cenas de bom gosto”.
Luca Bianchi destacou que a construção das cenas de sexo foi feita “através de toque, de carinho. Elas são todas delicadas”. Para Nathalia Dill, a nudez nunca incomodou nem é uma questão: “Tínhamos consciência da importância do relacionamento das personagens para a história. Essas coisas são tão pequenininhas! Afinal, a gente está fazendo arte”.
Prado também frisou não ter procurado fazer nem apologia nem condenação das drogas. “Fiz uma extensa pesquisa sobre o ser humano jovem. É isso o que eles estão vivendo”. Ele e os atores destacaram que gostariam que o filme fosse assistido não só por jovens, mas também por seus pais e avós.
Filmado em várias locações, entre Amsterdã, o Rio de Janeiro, Pernambuco e Alagoas, o filme tem sequências belíssimas servindo como cenário para as diversas experiências dos personagens. Como uma “viagem” de peiote, numa praia alagoana com falésias, para onde foram trazidos búfalos e um grande iguana que não pertenciam ali. O diretor frisou que os animais foram trazidos com autorização do IBAMA.
Relacionadas
Festival termina com balanço positivo
- 02/05/2012
Cine PE consagra Jorge Mautner
- 29/04/2012
