"Bonitinha, mas ordinária", de Moacyr Góes divide opiniões no Recife
- Por Neusa Barbosa
- 01/05/2013
- Tempo de leitura 4 minutos
Depois de uma longa produção (6 anos), várias remontagens e outros percalços, finalmente Bonitinha, mas Ordinária, de Moacyr Góes, teve sua première em território nacional – o filme já havia sido exibido em Portugal, há semanas, colhendo um prêmio de melhor atriz para Leandra Leal no FESTIN, festival de filmes de língua portuguesa.
Por conta desta demora e dos muitos boatos que cercaram a produção desta que é a terceira versão cinematográfica da famosa peça de Nelson Rodrigues – as outras são de 1963 (com Jece Valadão e Odete Lara) e 1981 (com Lucélia Santos, José Wilker e Vera Fischer) - , havia muitas expectativas, nem todas boas, sobre o resultado deste novo trabalho de Góes.
Como sempre, dividiram-se as opiniões. O público do Cine PE riu em várias partes do filme e aplaudiu bastante no final. Entre os críticos, a maioria das impressões penderam para o negativo.
É certo que, diante das expectativas ruins, o resultado, afinal, mostra-se um pouco melhor do que se pensava. Este novo Bonitinha, mas Ordinária fica de pé, é um filme. Mas não é bom. Seu maior defeito é a falta de compreensão das sutilezas maiores de Nelson Rodrigues, de apreensão de seus arquétipos, de seu humor negro, de sua visão mercurial da natureza humana e da sexualidade. Há dois ótimos atores, João Miguel, na pele do protagonista Edgar, jovem cooptado a casar com a filha do patrão, Maria Cecília (Letícia Colin, estreante aqui), ao mesmo tempo que gosta da professorinha Ritinha (Leandra Leal) que, afinal, é prostituta.
Talentosos e esforçados como sempre, João e Leandra não estão no seu melhor, justamente pela falta de uma sensibilidade adequada de Góes ao material retratado, inclusive na falha de achar uma forma cinematográfica melhor para a história. Se há uma razão para assistir ao filme, no entanto, são esses dois atores.
Tudo o mais parece fora de lugar, excessivo, pesado, inclusive as atuações de Letícia Colin e mais ainda a de Gracindo Jr., no papel de seu pai, um homem rico e canalha que procura armar esse casamento de conveniência da filha com o empregado depois que ela teria sido vítima de um estupro coletivo, num morro carioca.
A falta de sutileza de Góes, aliás, começa ao escolher mostrar esse estupro logo na primeira cena, que depois será repetida, alternando-se as versões para o que realmente teria acontecido ali. Mas a nova adaptação não dá conta, nem faz justiça ao universo único criado pelo maior dramaturgo brasileiro.
Último dia
Hoje, quarta (1° de maio), o festival chega ao seu último dia competitivo, apresentando o longa-metragem em competição Aos Ventos que Virão, de Hermano Penna. O filme traz no elenco os atores Emanuelle Araújo, Rui Ricardo Diaz e Luis Miranda. Também serão apresentados três curtas: as ficções A Galinha Que Burlou o Sistema (SP), de Quico Meirelles; e Colinas Como Elefantes Brancos, (SP), de Melissa Gava; e o documentário Urânio Picuí (PE), de Antonio Carrilho e Tiago Melo.
A premiação será anunciada na noite desta quinta (2).
Curtas da terça-feira
Na terça-feira, um dos curtas mostrados foi o representante baiano Desvelo, de Clarissa Rebouças, que contou, de forma um tanto convencional, o caso de duas mulheres que se envolvem e são perseguidas pelo ex-marido dela.
Andou melhor o documentário pernambucano Sagatio – Histórias de Cinema, de Amaro Filho, que recupera as deliciosas memórias do iluminador paranaense João Carlos Sagatio, aos 70 anos, contando histórias de seus trabalhos ao lado, entre outros de Mazzaropi, objeto de longa documental de Celso Sabadin, exibido no domingo.
O melhor curta da noite foi o paulista Aluga-se, de Marcela Lordy, que tematiza a perpétua construção e destruição da metrópole paulistana (um fenômeno que afeta, aliás, outras cidades do país, como Recife) de uma maneira criativa, enlaçando personagens solitários e em busca de romance. Deliciosa, também, a frase final do filme, que a narradora atribui a um parente: “São Paulo, quando ficar pronta, vai ser linda”.
