25/09/2026

Domingos de Oliveira reafirma sua fé na palavra em "Primeiro Dia de um Ano Qualquer"

Gramado – Toda vez que bate na tela um filme de Domingos de Oliveira – como aconteceu nesta noite de quinta, com Primeiro Dia de um Ano Qualquer -, é como se várias épocas se fundissem, numa história, que é a dele próprio, que revisita a Nouvelle Vague, Éric Rohmer, a Bossa Nova e os dias de hoje, com a inteligência e sensibilidade habituais de um cineasta que é um patrimônio vivo da cultura brasileira e já nos deu Amores, Separações, Juventude, para falar de algumas de suas obras – todas justamente premiadas neste festival.

Primeiro Dia de um Ano Qualquer retoma ideias e sentimentos que estão sempre presentes no universo do amoroso Domingos, ou seja, paixões, casamentos, traições e também diferenças sociais, ricos e pobres, a morte, o fim do mundo. O cenário é uma casa lindíssima, na região serrana do Rio, num Ano Novo, em que a anfitriã (Maitê Proença, que assina a direção de arte), mulher madura que tem um amante jovem e saradão (Argus Caruso), recebe amigos. A partir daí, deflagra-se um caos que remete de leve ao Shakespeare de Sonhos de uma Noite de Verão, filtrado pela luz irônica do diretor carioca.

Estão aí as duas irmãs (Priscilla Rozenbaum e Dedina Bernadelli) que refletem sobre os próprios casamentos e o pai idoso que não querem ou não podem acolher em sua própria casa; o primo que lamenta que hoje “não se pode ser rico como antigamente”, porque todo mundo suspeita de sua ligação com alguma corrupção; o visitante carente (Orã Figueiredo) que causa um incidente fatal ao casamento da bela empregada (Clarice Falcão); o velho escritor (Domingos) casado com uma mulher jovem que o trai, com sua complacência, com o motorista da casa; e tantos outros personagens que criam um coral polifônico de comportamentos e sensações diante dessa data de início de ano que conjura finais e recomeços.

Se é verdade que Domingos mantém sua verve – há vários bons momentos, como a engraçadíssima cena que mostra um vexame do cantor Yan (Ney Matogrosso) num videokê -, também é nítido que vários notas desafinam nesta música de câmera, intimista, que forma este filme, como todos os seus outros. Uma das principais é o erro de casting de Maitê Proença – por muito que visivelmente se esforce, ela não tem a descontração, o timing cômico necessário para uma personagem que exerce influência sobre o destino de todas as outras. E aí todo o samba desanda um bocado.

Perdidos no deserto
Primeiro filme estrangeiro do diretor gaúcho Paulo Nascimento (Em Teu Nome), A Oeste do Fim do Mundo, coprodução entre Argentina e Brasil filmada naquele primeiro país, escala o ator uruguaio César Troncoso e a brasileira Fernanda Moro nos papeis principais. Num cenário desértico, num posto de gasolina no fim do mundo, ele é Leon, um ex-veterano da Guerra das Malvinas, amargurado e solitário, cuja rotina é perturbada pela chegada de Ana (Fernanda) – ela mesma fugindo de uma história familiar turbulenta. O relacionamento entre os dois se modifica lentamente, pontuado pelas intervenções de outro brasileiro radicado ali, Silas (Nelson Diniz).

Curtas de gênero
Dos três curtas concorrentes da noite, o melhor foi o sincero e despretensioso documental Carregadores de Monte Serrat, de Cassio Santos e Julio Lucena, que retrata o cotidiano desses trabalhadores de um bairro de Santos (SP) e das pessoas que dependem de seu esforço para transportar suas coisas ao longos de seus mais de 400 degraus. O filme é resultado do trabalho do Instituto Oficinas Querô, um belo projeto coordenado pelo cineasta Carlos Cortez e a produtora Débora Ivanov.

Os outros dois curtas, tateando propostas de gênero terror/suspense, já não tiveram tanto êxito em sua realização – Colostro, de Cainan Baladez e Fernanda Chicolet (SP), resultou frio em sua tentativa de retratar os fantasmas psicológicos de uma mulher (Fernanda Chicolet) em torno da maternidade e de um novo bebê; e faltou muita sutileza na confecção de Arremate, de Rodrigo Luna (BA), inspirado num conto do escritor Neil Gaiman.