20/09/2026

"Os Amigos", de Lina Chamie, materializa a ternura num filme humanista

Gramado – Numa noite em que não houve concorrentes estrangeiros, apenas dois longas brasileiros, Os Amigos, da paulista Lina Chamie, vibrou na tela um afeto delicado, numa construção sofisticada de narrativa, pontuada pelas interpretações iluminadas de Marco Ricca (talvez no melhor papel de sua carreira), Dira Paes, e um elenco infantil que faz intervenções realmente mágicas – além de um adorável cachorrinho, Moby, materializando a fala de apresentação da diretora, parafraseando o diretor Jacques Tati, que dizia que as crianças e os animais podem nos salvar.

Roteirizado pela própria Lina, Os Amigos fala de afetos de uma forma cálida e criativa, capaz de invocar a ternura possível entre as pessoas, mesmo diante da dor da perda de alguém querido, das frustrações do trabalho, do caos da chuva e do trânsito em São Paulo (cidade que, mais uma vez, aparece decisivamente enérgica e múltipla como é num filme da autora de Tônica Dominante e Via Láctea).

As intervenções infantis nessa trajetória de um dia na vida de Téo (Marco Ricca) – que se torna uma espécie de protótipo de um ser humano qualquer – somam poesia de uma forma engraçada, musical, mágica. Há cenas com os filhos de Maju (Dira) e de uma amiga recém-viúva (Sandra Corveloni) na vida dele, com um adorável “consultor” numa loja de brinquedos – há um diálogo inusitado entre este menino e o protagonista sobre super-herois – e também trechos de uma encenação teatral/circense mirim da Odisséia de Homero. Ulisses, o herói grego, viajante no meio das águas, serve como metáfora cristalina da turbulência existencial de Téo, no dia em que acorda para ir ao funeral de um amigo de infância, Juliano (Otávio Martins), que ele não via há muito, muito tempo.

Música de câmara
Usando, como sempre, com total propriedade e sensibilidade sua sólida formação de musicista, Lina Chamie incorpora trechos dos compositores Camille Saint-Saens (na admirável sequência no zoológico, criando um motivo musical para cada animal), Evard Grieg e Benjamin Britten, construindo texturas dentro do filme, camadas dentro de camadas, que vão lhe dando uma consistência dramática e cinematográfica singular.

Por tudo isso e muito mais, Os Amigos mostra-se como um filme de câmera, em que o coração da diretora-roteirista, de todos os atores e técnicos (destacando-se a montagem sutil de Karen Harley), transparece na tela e abraça o seu público. Os Amigos é um filme para abraçar, uma sinfonia da ternura dos pequenos gestos que, essa sim, pode nos salvar. E salva muitos todos os dias.

Caos, fúria e animação
Partindo do espetáculo teatral Tangos & Tragédias, de Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, os diretores Otto Guerra (Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n Roll) e Ennio Torresan Jr.
gastaram oito anos na difícil confecção do longa de animação Até que a Sbórnia nos Separe. Muito inventivo visualmente e tomando rumos narrativos que as animações em geral não tomam, o filme mostrou-se uma distopia retrô, uma fantasia sombria para adultos.

Inúmeras metáforas políticas impregnam ao argumento central da história, que se inicia pela queda de um muro que separava a ilha de Sbórnia do resto do mundo. Primitiva em seus costumes e crenças, a ilha, com óbvias semelhanças com a antiga União Soviética e países da Europa do Leste, sofre um choque pela entrada brusca do capitalismo selvagem, que se apropria avidamente da exploração de uma substância local, o bizuim, preparando o caminho da catástrofe ecológica e humana.

No meio de tudo, há um romance proibido, entre um dos músicos sbornianos, Pletskaia, e a filha do capitalista-mor, Coclicot, que serve para mover a trama – que, afinal, mostra-se um tanto caótica demais, sem contar o excesso de gritaria e barulho em cena. Faltou equilibrar um pouco esse ruído e o ritmo.

Curtas
Foi uma boa noite para os curtas, o primeiro deles, o concorrente gaúcho Os Filmes Estão Vivos, em que o cineasta Fabiano de Souza, ao lado do codiretor Milton do Prado, acompanha seu pai, o crítico Enéas de Souza, em sua anual peregrinação cinematográfica a Paris. Há uma deliciosa conversa sobre a obra de diretores como Ernst Lubitsch, Leo Carax, François Truffaut, Jean-Luc Godard, Sergio Corbucci (com direito a trechos de vários filmes) e outros, num trabalho para encher os olhos e ouvidos de cinéfilos.

A Voz do Poço, de Patricia Black (SP), envereda por uma viagem sensorial, a partir da criação de uma atmosfera de inquietação, em torno das memórias da família Espíndola – ouvem-se trechos de depoimentos das cantoras Alzira e Tetê, além de outros membros do clã, sobre as lembranças de infância, centradas no medo despertado por mitos de um velho poço da propriedade rural em que moraram. Um pecado do filme é um excesso de estetismo.