22/09/2026

"Éden" extrai sua força da interpretação de Leandra Leal

Gramado - Éden, terceiro longa do carioca Bruno Safadi (Meu nome é Dindi) abriu a competição brasileira do Festival de Gramado, inscrevendo uma grande presença feminina, da atriz Leandra Leal, como Karine, mulher de 30 anos, grávida de oito meses, que encara a perda do marido (André Ramiro), mais uma morte violenta na Baixada Fluminense.

Safadi trabalha no registro de uma câmera muito colada à pele de seus personagens, em que a fotografia “suja” de Lula Carvalho procura reproduzir, numa chave naturalista no visual e expressionista nas interpretações, a voragem de um cotidiano bruto, em que pessoas pobres e simples, como Karine e seu irmão (Julio Andrade, de Cão sem Dono) se veem emparedados entre uma miséria física e cultural, a violência onipresente e o assédio de uma saída mística, oferecida pelo pastor evangélico Naldo (João Miguel).

Algumas cenas ficam na memória, caso da inicial, que mostra Karine deitada no fundo de uma piscina vazia – a piscina e a água serão retomadas depois, como signos de uma procura de limpeza, de mergulho numa outra água, numa outra pulsação. Outra boa sequência é a do culto em que o irmão de Karine a leva pela primeira vez ao encontro do pastor e de sua Igreja do Éden – uma fórmula de salvação compulsiva, fundamentalista, que procura excluir vários elementos da vida cotidiana, como a TV, como coisas “do demônio”, prometendo uma redenção que una à força, por mero voluntarismo e justaposição, as duas pontas das contradições. No caso, Naldo tenta conciliar, sob o mesmo teto, Karine e também a namorada grávida do jovem matador de seu marido.

O discurso do espetáculo
Muito do que o filme trata se passa pelo rosto e pelo corpo de Leandra Leal, uma das melhores atrizes atuais, que transmite a desconfiança, a fragilidade, a busca de esperança, a instabilidade e finalmente uma resistência a tudo que se
impõe sobre ela, inclusive essa fórmula de religião opressiva que não comporta diálogo, apenas sujeição.
Há um discurso interessante no filme – ainda que não inteiramente novo – sobre a religião como espetáculo, quando o pastor “dirige” as duas grávidas diante de uma câmera, produzindo um filme que utilizará em sua evangelização midiática (ele vende os próprios DVDs também como fonte de sustentação de seu Éden).

Toda uma mitologia bíblica, em torno das palavras do pastor, do nome com que batizou sua igreja e da metáfora da água como renovação permeiam a narrativa de Éden, ao mesmo tempo negando essa mesma mitologia insistindo numa fotografia dessaturada, que entrega a feiura dessas vidas acuadas, de que a única saída parece ser empunhar o próprio corpo, a própria natureza, como faz Karine na bela sequência final.

No fundo, é uma história simples, de intensidade crua, em que o diretor-roteirista aposta numa dramaturgia à flor da pele, persistindo às vezes numa exasperação e num excesso que fazem parte de tudo aquilo o que ele quer dizer. Por tudo isso, Éden não é um filme fácil, nem de diversão. É uma obra de procura e de perplexidade, que vale seguir.

Curtas
A noite foi toda dos mineiros no início da competição de curtas nacionais. O primeiro concorrente foi Pouco Mais de um Mês, de André de Novais Oliveira – exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes -, que envereda por um trajeto semidocumental para reconstituir a atmosfera do início de um relacionamento amoroso real, no caso do próprio diretor e sua namorada, Élida Silpe. É aquele tipo de filme em que parece que não acontece quase nada, mas está acontecendo tudo, nessa espécie de estética minimalista e despojada de que os novos realizadores tanto gostam.

Um conceito sofisticado está por trás do outro curta, Merda!, em que o premiado diretor Gilberto Scarpa (do impagável Os Filmes que Não Fiz) imagina uma vingança de três atores contra um terceiro, no cenário de um teatro, usando em seus duelos verbais falas de Shakespeare (Hamlet, por exemplo), numa trama que envolve um tipo de assalto – na verdade, uma compensação por algo a que julgam ter direito.

Longa argentino
O primeiro concorrente estrangeiro foi o drama argentino Puerta de Hierro – El Exilio de Perón, de Victor Laplace e Dieguillo Fernández, em torno do período em que Juan Domingo Perón esteve exilado na Espanha, antes de voltar à Argentina e à presidência, em 1973.

Em tempo – não farei comentários sobre os longas estrangeiros nesta cobertura, pois integro o júri deste segmento do festival.