21/07/2026

Brasília encerra competição em um ano de novos diretores e discussão sobre a perda

Exilados do Vulcão, de Paula Gaitán, encerrou, na noite desta segunda-feira (23), a Mostra Competitiva do Festival de Brasília, que em sua 46ª edição deu espaço para o trabalho de novos cineastas que, assim como a diretora do filme de ontem, se aventuraram pela primeira vez nos longas de ficção. A exceção foi o veterano Rosemberg Cariry, que mesmo com o susto do primeiro dia de competição, quando a exibição de Os Pobres Diabos foi cancelada, conseguiu mostrar sua obra ao público brasiliense.

A produção de Paula trouxe um tema frequente nos filmes da competição: como lidar com os diversos tipos de perda. No longa de ontem, a busca da protagonista pelas memórias do homem que ela amou e que, paulatinamente, está perdendo essas lembranças, inspirada no livro da mineira Christiane Tassis, Sobre a Neblina, foi transportada para as telas de maneira totalmente sensorial.

Com uma carreira na videoarte, além do cinema – Gaitán começou na direção de arte em A Idade da Terra, de seu marido naquela época, Glauber Rocha –, a diretora cria imagens fortes, como a da névoa representando o esquecimento, a partir da fotografia do chileno Inti Briones, mesclando primeiros planos com planos gerais da bela paisagem mineira. Com diálogos quase inexistentes e uma narração em off bem pontual, os sons da natureza e a trilha sonora, junto à imagem, criam uma experiência que aguça os sentidos do espectador, já que a própria Paula afirma que seu filme é um “estado”.

Ao tratar da perda da memória, Exilados do Vulcão não vai de encontro apenas com Avanti Popolo, de Michael Wahrmann, que aborda o mesmo assunto de maneira bem diferente, mas também com os outros concorrentes da categoria de modo mais amplo. Pobres Diabos fala da perda de tradições; Depois da Chuva, de Cláudio Marques e Marília Hughes, da perda da inocência, política; Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro, da perda das coisas duradouras; e Riocorrente, de Paulo Sacramento, promove a transformação a partir das perdas.

A premiação do Festival de Brasília será divulgada hoje (24), no Cine Brasília. Apesar de todos os longas terem requisitos para ganhar pelo menos uma das categorias, os prêmios principais devem ficar entre os paulistas Avanti Popolo e Riocorrente, o pernambucano Amor, Plástico e Barulho e o baiano Depois da Chuva.

Redescobertas metalinguísticas
Os documentários procuraram redescobrir certos temas, em geral, a partir da metalinguagem com o próprio cinema e outras áreas, desde a sessão de abertura, com Revelando Sebastião Salgado, filme de Betse de Paula que está fora da competição. Entre os que estão na disputa, isso se repete no reencontro da obra de cineastas em: A Arte do Renascimento – Uma Cinebiografia de Silvio Tendler, longa de Noilton Nunes, exibido ontem, que conta a história do documentarista do título; Plano B, em que Getsemane Silva revive um lendário documentário de Joaquim Pedro de Almeida sobre Brasília; e O Mestre e o Divino, em que Tiago Campos parte dos vídeos de um missionário e de um xavante para falar da relação da Igreja Católica e os indígenas. Já Outro Sertão, de Adriana Jacobsen e Soraia Vilela, volta-se à redescoberta da faceta diplomática do escritor João Guimarães Rosa; enquanto Morro dos Prazeres, de Maria Augusta Ramos, e Hereros Angola, de Sérgio Guerra, apresentam mundos que devem ser descobertos, o da comunidade carioca pacificada e de um grupo étnico da Angola.

Entre esses, O Mestre e o Divino, Outro Sertão e Plano B têm mais chances de ganhar o prêmio principal. A Arte do Renascimento – Uma Cinebiografia de Silvio Tendler parece ter poucas chances, ao traçar um retrato pouco profundo do documentarista político Silvio Tendler. Os momentos mais interessantes são aqueles em que se desvenda a história, a personalidade e a superação dele após uma doença que o deixou tetraplégico, com seu depoimento, vídeos e fotos de família. Noilton Nunes preferiu focar no pensamento político de Silvio, fazendo entrevistas com pessoas que partilham os ideais socialistas do cineasta e optando por colocar longos trechos dos documentários de Tendler, às vezes um em seguida do outro, ocupando boa parte da duração do filme e prejudicando seu ritmo. O longa, feito com um orçamento baixíssimo de R$ 5 mil, ainda oscila entre filmagens de ótima qualidade e inserções de vídeos de baixa resolução, ou seja, mostra uma arte de grande apuro técnico para depois vir com grafismos e efeitos amadores.

Curtas em foco
Último dos curtas-metragens de ficção a ser exibido, o mineiro Tremor se tornou o primeiro das apostas para levar o prêmio principal da categoria. Com a história de um homem que vai ao IML reconhecer um corpo que pode ser o da sua mulher, desaparecida há três semanas, Ricardo Alves Jr. cria uma tensão crescente a partir do trote do cavalo branco no Viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte, da impactante cena inicial, até culminar no olhar do protagonista no final. Todos Esses Dias em que Sou Estrangeiro, de Eduardo Morotó, seria outra aposta, mas pode surgir alguma surpresa entre os demais filmes: Sylvia, de Artur Ianckievicz; Au Revoir, de Milena Times; Lição de Esqui, de Leonardo Mouramateus e Samuel Brasileiro; e Fernando que Ganhou um Pássaro do Mar (RJ), de Helvécio Marins Jr. e Felipe Bragança.

A categoria de curtas documentários foi encerrada ontem com Contos da Maré, em que o carioca Douglas Soares traz de volta lendas antigas do Complexo da Maré, como a do lobisomem que lá vivia, através dos relatos de seus familiares, que foram uns dos primeiros moradores do local. A trilha sonora criada pelo paulista Fabio Baldo introduz o suspense nos depoimentos, cujas situações inusitadas, junto com o uso das máscaras, levam ao riso. Entretanto, os candidatos mais fortes nessa disputa são O Canto da Lona, de Thiago Brandimarte Mendonça, e A que Deve a Honra da Ilustre Visita Este Simples Marquês?, de Rafael Urban e Terence Keller. Luna e Cinara, de Clara Linhart, e O Gigante Nunca Dorme (DF), de Dácia Ibiapina, ainda estão no páreo, com Contos da Maré e Carga Viva, de Débora de Oliveira, correndo por fora.

A sessão de encerramento também trouxe o curta de animação Quinto Andar, em que Marco Nick usa traços sombrios para contar a história de um homem confinado no seu escritório que guarda os seus segredos. A possibilidade de receber o único prêmio de melhor animação não está descartada em uma categoria que não apresenta favoritos. Mas se é para apostar em um dos curtas, Faroeste – Um Autêntico Western, de Wesley Rodrigues, é a melhor escolha entre Deixem Diana em Paz, de Júlio Cavani; ED., de Gabriel Garcia; Engole ou Cospervilha, de Marão, David Mussel, Pedro Eboli, Fernanda Valverde, Jonas Brandão, Giuliana Danza, Gabriel Bitar e Zé Alexandre; e RYB, de Deco Filho e Felipe Benévolo.