06/06/2026

Festival de Brasília revê o passado recente do Brasil

Além do atraso de uma hora para o início da sessão, o segundo dia de competição no Festival de Brasília trouxe longas-metragens que revisitaram acontecimentos não muito longínquos da história brasileira e seus desdobramentos nos dias atuais. Depois da Chuva, de Cláudio Marques e Marília Hughes, voltou à efervescência política de 1984, época das Diretas Já, a partir de Caio, um adolescente em transformação, assim como o seu país. O documentário O Mestre e o Divino, de Tiago Campos, expõe, através da rivalidade cinematográfica entre um missionário alemão e um índio xavante, a relação entre a Igreja Católica e os povos indígenas no Brasil, desde meados do século passado.

Esta produção e o curta O Canto da Lona, de Thiago Brandimarte Mendonça, somados à sessão de documentários de ontem, têm mostrado que o gênero veio bem forte a Brasília, chamando, muitas vezes, mais atenção do que a ficção.

Dois T(h)iagos e o regionalismo brasileiro
O mineiro Tiago Campos se sentiu em casa, ontem, no Cine Brasília. Não só porque ele vive, há muito tempo, na capital federal, onde cursou a Universidade de Brasília (UnB) e frequentava o festival, mas por causa da recepção calorosa ao seu documentário, O Mestre e o Divino, que rendeu inúmeras risadas ao público.

O filme mostra, de maneira bem-humorada, dois cineastas que retratam o cotidiano da aldeia e da missão em Sangradouro, Mato Grosso. De um lado, está o alemão Adalbert Heide, o Mestre, um dos missionários samaritanos que veio em 1957 para entrar em contato com os indígenas brasileiros e aqui ficou até hoje. Do outro, está Divino Tserewahu, um dos xavantes da aldeia. Logo que chegou, o Mestre começou a gravar a vida dos índios com uma câmera Super-8, até o momento em que o jovem Divino, que apenas ajudava o missionário em suas projeções, aprendeu a filmar, graças ao projeto Vídeo nas Aldeias, e também se dedicou a apresentar a cultura xavante, dando início à competição entre eles.

Foi justamente por causa desse projeto que o diretor conheceu Divino, após dar aulas de edição para o índio, e posteriormente a Heide, percebendo a relação de provocação mútua entre os dois. O velho senhor Adalbert gosta de mostrar o lado bom da vida na aldeia e de se colocar como um personagem aventureiro e salvador dos índios. Tserewahu prefere mostrar a realidade do seu povo e suas tradições. E isso continua, indo desde as diferenças culturais e de idade até ao fato de o indígena ter primeiro um notebook para editar seus vídeos. Assim, O Mestre e o Divino é um longa metalinguístico sobre três cineastas – sendo o próprio Tiago um deles – e suas visões diferentes de filmar o mesmo ambiente.

O missionário é uma figura praticamente caricatural. O penteado que faz com seus ralos fios de cabelo, sua encenação para seus próprios vídeos, a trilha sonora inca que coloca neles, sua mania de reeditar e colocar legendas em filmes dos outros e sua paixão por Winnetou – um faroeste alemão, em coprodução com a Itália e a Iugoslávia, de 1963 -, tudo foi motivo de risos para o espectador.
Mesmo assim, o diretor consegue manter certo distanciamento para mostrar a relação da Igreja Católica com os índios brasileiros. Se na década de 1950 os nativos eram perseguidos por fazendeiros locais, foram os samaritanos os responsáveis pela salvação de povos indígenas como os xavantes. Por isso, segundo o próprio Divino afirma no longa, seus pais e, consequentemente, ele e seus contemporâneos, devem muito aos missionários, apesar do convívio com eles ter ocidentalizado a cultura xavante, seja nas roupas, na Coca-Cola que eles compram para um aniversário ou na sua catequização.

O curta – que estava mais para um média-metragem com seus 25 minutos de duração – que o antecedeu, O Canto da Lona, feito pelo xará, o paulista Thiago Brandimarte Mendonça, também lançou o olhar para uma faceta esquecida da cultura popular brasileira. Trazendo de volta às luzes da ribalta antigos artistas de circo-teatro, o documentário relembra os tempos gloriosos dessa arte e das pessoas que a faziam.

Os retratados, como a dançarina e cantora – entre muitas outras coisas – Lerida Coutinho, que estava há 40 anos longe da vida circense, puderam refazer seus números ou, se não, ensinar jovens atrizes a fazê-los. Esses momentos foram prejudicados, no entanto, por mais uma falha técnica nos equipamentos do Cine Brasília, já que o áudio surround 5.1, após uma pequena interrupção, foi apresentado em estéreo 2.0.

O problema não abalou os méritos visíveis da fotografia do curta. Praticamente todo em preto e branco – exceto as imagens de arquivos – para remeter ao passado de um circo que já não existe mais, o colorido era destacado apenas na cortina vermelha para mostrar que nova vida foi dada ao circo-teatro por meio daquelas encenações. A iluminação teatral também contribuiu para a beleza dos números realizados no Teatro Folia, em São Paulo.

Adolescentes de ontem e hoje
O primeiro longa dos baianos Cláudio Marques e Marília Hughes é uma alegoria das transformações políticas ocorridas em 1984. Assim como o povo brasileiro, o protagonista de Depois da Chuva vivia as mesmas emoções contrastantes daquela época: se a população estava eufórica com as Diretas Já, Caio (Pedro Maia) mergulhava na efervescente utopia anarquista. Se os cidadãos ficaram desolados com o fracasso do movimento, a morte de Tancredo Neves e a consequente posse de José Sarney, o adolescente sofre a desilusão de sonhos partidos, seja no âmbito familiar, entre os amigos ou na política estudantil e nacional. Essa dicotomia é perceptível na construção sonora do filme, que mescla grandes momentos de silêncio que são quebrados violentamente com músicas punk rock, por exemplo.

A eleição no grêmio do colégio serve de ponto de partida para a observação do nascimento de um pensamento político desse jovem, em uma inspiração autobiográfica de Cláudio Marques. Com dificuldades de se encontrar em casa, pois vive em uma família disfuncional – a cena final com a mãe escancara isso de maneira gritante –, e na escola, como muitos adolescentes, é no casarão de encontro do grupo de anarquistas que Caio consegue se identificar. Os diretores, inclusive, criam outra atmosfera para as cenas rodadas no local, onde eles fumam maconha e fazem transmissões de rádios piratas para divulgar a sua ideologia. Ele também encontra identificação em Fernanda (Sophia Corral), sua colega de escola que partilha os mesmos gostos musicais, o que se transforma em paixão.

Ambos os jovens foram selecionados após muita pesquisa da equipe de produção em colégios de Salvador. Os atores adultos vieram do teatro, da performance ou da música local. Por acaso, não foi escolhido nenhum ator negro para os papéis principais e secundários, o que mostra outra faceta da capital baiana, uma cidade predominantemente negra. Cláudio e Marília fogem não só desse, mas de outro estereótipo: o do sotaque soteropolitano carregado e cantado.

Nisso, o longa se universaliza, um processo que foi amplificado pela coincidência – ou uma previsão de algo já latente – da história do filme caber completamente no cenário atual de manifestações populares que tomaram o Brasil nos últimos meses, que após a euforia inicial passam por um processo de depressão. Por isso, apesar de não ser uma produção tão comercial, Depois da Chuva pode ter uma boa carreira nos cinemas, quando for distribuído por Adhemar Oliveira.

Com uma trama bem menor, o curta Lição de Esqui, de Leonardo Mouramateus e Samuel Brasileiro, igualmente trouxe os jovens como protagonistas para as telas brasilienses. O filme conta a história de dois amigos que planejam encenar uma briga no supermercado em que trabalham para serem demitidos e obter o dinheiro do seguro-desemprego. O filme dos colegas de faculdade cearenses tenta mostrar os problemas de uma geração sem perspectivas concretas de vida, com sonhos vagos, como o desejo de viajar para o Canadá e trabalhar em uma estação de esqui, e ideias vazias, a exemplo da luta fictícia.

A animação do dia foi RYB, dirigida por Deco Filho e Felipe Benévolo, em um projeto deles com os alunos da OZY Escola de Audiovisual, instituição do Distrito Federal especializada na área. O roteiro nada notável fala sobre um sapo que faz um experimento de laboratório que dá errado e gera vários clones dele, cada um com uma cor, representando os sentimentos gerados por cada espectro. O curta chama a atenção, porém, pelo apuro técnico da computação gráfica e 3D.