06/06/2026

Sebastião Salgado em retrato intimista

Revelando Sebastião Salgado, documentário de Betse de Paula, deu o pontapé inicial à 46ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, nesta terça (17). E a tradicional apresentação da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, antes da exibição do longa, casou bem com o tema, já que o próprio Salgado afirmou que canta enquanto fotografa.

A produção, que está fora da competição do festival, foi recebida com aplausos e muitas risadas do público, apresentado ao lado humano de um fotógrafo considerado por muitos sobre-humano. “Eu acho que tive uma noite de diva, de Beyoncé”, brincou Betse se referindo à recepção calorosa dos espectadores brasilienses, que puderam conhecer a trajetória do mineiro de Conceição do Capim, distrito de Aimorés, que se mudou – como economista – para Paris e viajou o mundo – fotografando –, até se tornar o profissional renomado que é hoje.

O filme mostra a relação de Salgado com outros fotógrafos, pelos quadros espalhados por sua casa com as obras dos seus colegas. Ele também conta como voltou o seu trabalho para a área da fotografia social, o porquê da sua preferência pelo preto e branco, a influência dos pintores holandeses no seu uso da luz – especialmente da contraluz – e a maneira como constrói um enredo em seus livros fotográficos. Ele falou também sobre um assunto que evita comentar, a cobertura, por acaso, do atentado contra o presidente norte-americano Ronald Reagan.

Intimidade relâmpago
No debate sobre o filme realizado hoje (18), a equipe revelou os desafios enfrentados na produção. Em seu primeiro longa-metragem documentário, Betse teve de lidar com o tempo escasso de filmagem: de cinco a seis horas de gravação feitas em cada um dos três dias de produção, basicamente. Mas a amizade entre a família da diretora – particularmente a sua mãe e produtora do filme, Vera de Paula, e seu pai, o cineasta Zelito Viana – e o clã Salgado a ajudou a obter tantas informações em um período tão curto.

Mesmo com uma relação tão próxima, não foi possível obter os vídeos de Sebastião em serviço, feitos pelo filho dele, Juliano, pois esse material já está reservado para o cineasta alemão Wim Wenders, que realizará outro documentário sobre o fotógrafo, porém, voltado ao último projeto dele, o Gênesis. Restaram à equipe brasileira o conteúdo da entrevista e uma série de fotos, não só do próprio retratado, como também de sua mulher, Lélia Wanick, e seu outro filho, Rodrigo. Por isso, foi realizado um trabalho intenso de pós-produção com o que eles tinham em mãos.

Só para a marcação de luz, foram gastos quatro meses para que o fotógrafo Jacques Cheuiche e o colorista Pedro Dulce criassem “uma cor sem cor”, como afirma o diretor de fotografia, pois ambos não desejavam que a estética das entrevistas “brigasse” com as fotos em P&B de Salgado ou com as coloridas da esposa dele. Além disso, eles também queriam ressaltar o brilho nos olhos do seu personagem, porque, segundo Jacques, “o olho tem uma verdade e o Sebastião Salgado vive do olho, o instrumento de trabalho de qualquer fotógrafo”.

Depois, foram mais oito meses de pós-produção para, por exemplo, acertar todo o material gravado em vários tipos de câmera. No entanto, o que mais se destaca nesse processo é a edição de som de Virgínia Flores. O trabalho sonoro de inclusão de ruídos é utilizado diversas vezes para ambientar as imagens em still, mostradas sempre em uma aproximação em slow motion. “Isso contribui bastante para dar vida às fotos”, justifica a diretora.

Outra questão abordada nesses testes foi a necessidade de que algumas informações ficassem mais claras, o que é perceptível no certo didatismo do documentário, tanto na arte utilizada quanto no roteiro. A ordem cronológica observada no filme é quebrada em certos momentos, seja para um detalhamento de um caso específico, uma pausa dramática ou um alívio cômico. São exemplos os trechos em que o pai Sebastião fala da sua relação com Rodrigo, o filho portador de Síndrome de Down, exímio pintor, ou que o filho Sebastião relembra o banho que sua mãe deu para lhe “abrir os caminhos”. No entanto, o longa não aborda as críticas feitas ao fotógrafo, de que seria explorador da pobreza de seus retratados, o que Betse contesta, dizendo que “não dá para culpar a janela pela paisagem”.

A diretora opta, como ela mesma disse, por um trabalho mais intimista. O filme começa, mas não é possível identificar logo de cara o fotógrafo famoso, porque o foco é também no homem e cidadão por trás do profissional. Por isso a câmera próxima e a iluminação quase inexistente para criar a intimidade, tanto da equipe com o entrevistado quanto do personagem com o público.

Entretanto, Revelando Sebastião Salgado é muito centrado nas memórias do fotógrafo – há apenas algumas declarações do filho Juliano no início –, algo sempre arriscado em documentários. Betse revelou que Sebastião proibiu, sem nenhuma explicação, que a sua esposa desse qualquer depoimento para a produção. Talvez, se a diretora conseguisse ter falas de Lélia, e não só as fotografias da companheira inseparável do mito, enriqueceria ainda mais seu retrato.